Duelo dos Aeroportos (ou O Prenúncio do Caos)

Este ano fui para a Inglaterra 2 vezes (calma, foi a trabalho; não estou com essa bola toda) e foi interessante – para não dizer desanimador – ver as diferenças entre os aeroportos daqui e de lá. Sei que é covardia, mas vamos fazer uma comparação entre Cumbica (Guarulhos) e Heathrow (Londres).

As viagens que fiz foram em março e setembro, mas não era feriado em nenhum dos 2 países, nenhuma data especial que justificasse algum fluxo anormal, muito menos temporada de férias nem nada do tipo. Claro que apenas 2 viagens não constituem uma amostragem estatisticamente relevante, mas a menos que eu tenha sido muito azarado, o que eu presenciei não deve estar muito fora da realidade, acredito que deva estar “na média”. Os fatos relatados não estão necessariamente em ordem cronológica, já que misturei situações das 2 viagens, mas a ideia aqui é comparar os aeroportos e não relatar sequencialmente os fatos.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Embarque

Em Guarulhos tive 2 experiências: uma péssima e outra nem tanto. Na primeira vez, peguei uma fila de quase 1 hora e meia para fazer o check-in. Na segunda, tive mais sorte e demorei apenas 30 minutos.

Já em Londres, demorei 5 minutos na primeira vez (nem dá pra chamar aquilo de fila) e 30 minutos na segunda. Não sei se dei uma puta sorte na primeira vez, mas de qualquer forma também dei sorte em Guarulhos na segunda vez, já que logo depois que eu despachei minha mala a fila tinha dobrado de tamanho. Acho que no fim não foi sorte, eu é que cheguei cedo mesmo.

Decolagem

Em Guarulhos tive atrasos de 2 horas na primeira vez e 1 hora na segunda, em Londres tive apenas atraso de meia hora na segunda vez. Na primeira viagem, acredite, o vôo saiu no horário! Foi a primeira vez na vida que eu vi um avião sair no horário, incrível não ter chovido.

Falando nisso, em nenhuma das vezes estava chovendo, nevando ou tendo qualquer outro fenômeno natural que justificasse o atraso. Deve ter sido incompetência mesmo.

Desembarque

Na primeira viagem, a fila da imigração em Londres foi rápida, uns 20 minutos. Na volta, em Guarulhos, demorou mais de 1 hora. Já na segunda vez, foi o contrário: em Londres fiquei mais de 1 hora, em Guarulhos fiquei uns 20 minutos. Vai entender.

Em compensação, pegar as malas em Londres é um processo absurdamente mais simples e menos penoso do que em Guarulhos. Em Londres as malas chegam na esteira muito antes de você (em Guarulhos é o contrário). Além disso as esteiras de Heathrow são grandes, comportando várias pessoas de uma vez, e o saguão é bem espaçoso, permitindo que todos consigam transitar com suas malas gigantes sem esbarrar em ninguém. E os carrinhos estão todos em perfeito estado, ao contrário de Guarulhos, onde tive que verificar 3 carrinhos até achar um decente (um tinha a roda torta, outro não virava, etc).

Já a esteira de Guarulhos é ridícula, na primeira vez ficamos 40 minutos que nem idiotas olhando para a esteira, esperando as malas começarem a ser descarregadas! É isso mesmo, chegamos todos na esteira (depois de 1 hora na fila da imigração), e depois de 40 minutos é anunciado que as nossas malas começaram a ser descarregadas! Isso porque eu olhei em volta e no painel, e vi que só tinha o nosso vôo!!! Simplesmente ridículo, será que eles levam as malas uma a uma?

Na segunda vez foi ainda pior. Tinha mais uns 5 vôos chegando na mesma hora e foi aí que eu vi uma cena epicamente patética: um congestionamento de carrinhos de mala! Isso mesmo, toda a galera dessa meia dúzia de vôos pegou as malas ao mesmo tempo (depois de esperar 40 minutos por elas, claro) e quando todos foram tentar sair, o negócio simplesmente travou! Era tanta gente tentando sair ao mesmo tempo que ninguém conseguia sair do lugar, foi ridículo!

Na verdade não era tanta gente assim (meia dúzia de vôos para um aeroporto de uma cidade que quer receber uma Copa do mundo? Deveria ser pouco, mas esqueci que estamos no Brasil…), o problema é que aquele saguãozinho de merda não tem espaço suficiente (se chegarem 2 vôos ao mesmo tempo já fudeu tudo), as esteiras são pequenas e o serviço de levar as malas até elas é ineficiente. Além disso havia apenas uma funcionária tentando – em vão – organizar a fila. É isso aí, UMA pessoa tentando organizar centenas. E digo mais, uma pessoa totalmente perdida, sem preparo nenhum, gritando com os passageiros, perdendo o controle da situação, estressando a tudo e todos (inclusive ela própria). Preciso dizer que a fila foi improvisada, e por isso era toda torta e confusa? É com esse maldito jeitinho brasileiro que pretendemos receber milhares de turistas para a Copa?
E ainda por cima conseguiram a façanha de quebrar o cadeado da minha mala! Parabéns a todos os envolvidos!

E pensar que alguns minutos antes eu estava feliz porque a fila da imigração foi rápida. O Brasil é assim mesmo, quando não faz merda na entrada, faz na saída.

Infraestrutura

Até aqui estamos perdendo feio, mas se preparem que agora sim vem a humilhação.

Heathrow tem 3 estações do metrô que servem a diferentes terminais do aeroporto. TRÊS estações!! TRÊS!!!! No mesmo aeroporto!!! Guarulhos tem… cof cof… deixa pra lá.

Sem contar que você também pode ir para Heathrow de trem, ônibus e até de bicicleta! Ah sim, alguém já viu a estrutura de transportes públicos de Londres? É tudo integrado, pontual e eficiente. Claro que não é perfeito, deve atrasar e quebrar às vezes, mas mesmo assim deixa a gente no chinelo. Enquanto isso, São Paulo está em algum canto, se escondendo de vergonha, sonhando com o trem que vai até o aeroporto. Meu palpite é que NÃO vai ficar pronto até a Copa e que o preço vai ser abusivo.

Obviamente você também pode ir de carro ao aeroporto, e neste item também somos humilhados. Heathrow tem vários estacionamentos em volta, servidos por linhas de ônibus que te levam aos terminais do aeroporto de graça. Em um desses estacionamentos, tinha mais de 6 pontos! É isso mesmo, 6 pontos de ônibus DENTRO do estacionamento!! Correção: dentro de UM DOS estacionamentos!! Já mencionei que esses ônibus são de graça?

Enquanto isso, em Guarulhos, o único e pateticamente minúsculo estacionamento já estourou o limite. Como bem reparado neste fórum, qualquer Carrefour ou shopping center tem mais vagas que o nosso querido aeroporto de merda!

Sites

Para terminar a surra, compare os sites de Heathrow e de Cumbica e tire suas próprias conclusões. Não falo nem de layout e outras frescuras, falo da quantidade e qualidade das informações que cada um possui. Isso porque o nosso aeroporto é menor que o deles, teoricamente seria bem mais fácil fazer um site completo e abrangente sobre tudo que tem lá. Mas nem isso conseguimos fazer direito.

E para fechar com chave de “ouro”, uma pérola: achei um site que parece ser exclusivamente do estacionamento do aeroporto. Só tem um detalhe: não tem uma informação útil! Nem o “clique aqui” é clicável! (pode procurar, não é mesmo!)

Para piorar, às vezes parece que foi uma criança de 5 anos que escreveu os textos. Na seção de “Vantagens”, é dito que “O valor é outra vantagem, pois geralmente o aeroporto não fica próximo a sua residência e o valor do taxi fica alto”. É isso mesmo, táxi sem acento. Sem falar da constatação “genial” de que a maioria das pessoas mora longe do aeroporto. Já li todo o conteúdo – que não é muito – e não sei se choro ou dou risada.

Eu desisto.

Triste conclusão

Não adianta, podemos nos orgulhar de ser um povo alegre, “que não desiste nunca”, que sempre dá um jeito pra tudo, e aquela baboseira toda, mas nunca seremos um país realmente sério, onde as coisas funcionam de verdade. O nosso principal aeroporto está no limite (se é que já não passou) e o governo acha que está tudo certo para receber a Copa e as Olimpíadas. Nem vou entrar no mérito do nosso dinheiro sendo usado e abusado nesta “grande festa”, estou focando apenas na infraestrutura, que é só a ponta do iceberg.

Eu quero estar bem longe do aeroporto quando os turistas chegarem. Prevejo caos, desordem e o governo tentando encobrir e fingindo que está tudo bem (ainda mais se for a Dilma, que deve seguir o estilo Lula do “eu-não-sabia-é-tudo-invenção-da-imprensa”). Alguém duvida que vai ser diferente?

Errar é humano, mas dá pra amenizar

Eles estavam demorando, no começo estavam meio tímidos, mas com o tempo foram aparecendo, cada vez piores. Errar é humano, apitar o erro é burrice, negar o uso da tecnologia para minimizar os erros, além de uma burrice maior ainda, é sinal de mentalidade ultrapassada, ranzinzice retrógrada e estupidez sem tamanho. E como sempre, cada vez que acontece uma cagada gritante, o assunto volta à tona. A Fifa, esse bando de senis idiotas, que é a responsável pelo futebol, diz que não é responsabilidade dela. (Como assim?)

Apesar da Fifa ter soltado aquela conversa pra boi dormir, dizendo que vai rever a questão após a copa, blablabla, zzzzz… Bem, é sabido que os velhinhos que dirigem a entidade não devem se dar muito bem com essas coisas de tecnologia e tal, mas tem uma medida muito mais simples, que poderia ser bem mais eficaz para evitar erros grotescos que sempre ocorrem. A ideia, inclusive, é inspirada em outros esportes.

O tênis, por exemplo. A quadra tem 23,77m por 8,23m e 5 juízes em média (varia de acordo com o torneio). Bom, se considerarmos 5, cada juíz cobre uma área aproximada de 39 metros quadrados. Claro que não é exatamente isso, já que a maioria são juízes de linha, que ficam apenas vendo se a bola saiu, mas o fato é que são funções altamente especializadas, já que este é um fator crítico para o resultado do jogo. E se um deles falhar, ainda há a possibilidade de usar a tão temida (só pela Fifa, claro) tecnologia, com o tira-teima que é um dos recursos mais legais que existem no tênis.

No vôlei é parecido, a quadra tem 18 x 9 metros e 2 árbitros principais (o de cima e o de baixo), além de 2 fiscais de linha de cada lado. São, portanto, 27 metros quadrados para cada um. Novamente a conta é grosseira e não reflete a realidade, já que na prática os fiscais de linha só precisam cuidar das extremidades, o que dá uma área bem menor para prestar atenção. No vôlei de praia as dimensões são parecidas, e a média não fica muito diferente disso.

Agora no futebol a coisa é bem diferente. Se pegarmos os valores mínimos das medidas oficiais (90 x 45m) e dividirmos pelos 4 árbitros dá mais de 1000 metros quadrados para cada um. Isso sem levar em conta que o quarto árbitro não faz porra nenhuma (eu sei que ele faz, mas não é nada que possa influenciar o resultado de uma partida).

Ou seja, se no vôlei, basquete, tênis e até futebol de salão, em que os árbitros tem um espaço muito menor para prestar atenção, já ocorrem erros, que dirá no futebol, que exige que o juiz seja um super-homem. Além de correr pra caralho, o sujeito tem que ter uma visão além do alcance. A regra do impedimento muitas vezes é inviável para o olho humano. Sem contar que a visão também tem que ser de raios-X, pois sempre tem aquela desculpa de que o jogador encobriu a visão do árbitro. Ele é um só e a área a ser coberta é muito grande. Se tivesse um sujeito de cada lado só pra ver se a bola entrou, outro só pra verificar os impedimentos e assim por diante, já diminuiria bastante a quantidade de erros.

Mas nem mudanças simples como essa são sequer cogitadas pela Fifa. Ela só é o que é, e só se dá o luxo de ser tão arrogante pelo fato do futebol ser tão popular. Só nos resta então esperar, escutar as promessas de que mudanças serão feitas e se frustrar por não terem sido implementadas (ou alguém aí realmente acredita que algo vai mudar?).

O primeiro fail da Copa

Não, não foi da seleção (por muito pouco, aliás). O primeiro fail foi da Globo (e quem mais?).

Sim, a mesma que há algumas semanas se vangloriava de transmitir pela primeira vez todos os jogos da copa via streaming, mostrando que é moderna e antenada com os novos tempos, a tecnologia, a internet, a era da informação, blábláblá, etc.

Bem, e o que aconteceu de cara, logo no primeiro dia?

Globo Fail

É feio botar a culpa nos outros

Tudo bem, já era esperado que houvesse uma sobrecarga, um excesso de usuários maravilhados querendo experimentar a novidade. Era questão de tempo para o site chegar ao limite, e foi até mais rápido do que eu pensava.

O grande problema foi a arrogância, incompetência e/ou tirada-de-cu-da-reta explícita na mensagem de erro. Como assim, a “operadora de banda larga não tem estrutura neste momento para atender tantos usuários simultâneos se conectando à Globo.com”? PUTAQUEPARIU rede globo – em minúsculas mesmo, não merece mais respeito – quer dizer que a operadora agora controla a banda dos seus usuários por site?

Segundo a (falta de) lógica da globo, se todos os usuários da Net estiverem conectados, mas cada um no seu site predileto (orkut ou youtube), tudo bem. Mas se todos resolverem acessar o mesmo site ao mesmo tempo (google?) e não conseguirem, a culpa é da Net. Claro, a Net até deixa todos os seus usuários acessarem sites diferentes ao mesmo tempo, mas quando estes mesmos usuários acessam apenas um único site, sabe-se lá porquê, o consumo de banda aumenta tanto que excede a capacidade da Net. Caralho, faz tanto sentido quanto ter TV a cabo e assistir ao jogo na globo.

Bom, acho que tenho a solução. Ligue agora mesmo na sua operadora e peça para tirar a banda destinada ao youtube (já que este nunca cai, mesmo com tantos acessos simultâneos) e direcionar tudo para a globo. Ou assista na televisão, ué. Mesmo que a TV a cabo tenha aquele maldito segundo de atraso, fazendo seu vizinho comemorar o gol antes de você, ainda é melhor do que os 5 segundos de atraso do streaming (sim, eu testei).

Ah, para não falarem que só sei criticar, a globo percebeu a cagada e trocou a mensagem:

Consertando a cagada

Menos mal

Algum estagiário deve ter levado aquela bronca.

Mais uma pequena evidência da idiotização da sociedade

Hoje fui jantar com a namorada. Total: R$ 32,60. Como bom casal moderno que somos, decidimos dividir a conta. Cada um com seu cartão de débito em mãos, perguntamos para a moça do caixa: “Divide por 2?”. A resposta: “Estou sem calculadora”.

Para tudo.

Como assim? Ela não quis fazer uma porcaria de divisão por 2, alegando que não tinha calculadora? Tivemos que fazer a conta de cabeça na hora – o que convenhamos não é nenhum bicho de sete cabeças – senão não conseguiríamos dividir a conta. Minto, minha namorada fez a conta e informou a moça do caixa. Eu estava paralisado em semi-estado de choque, custando a acreditar no que tinha acabado de ouvir.

O fato pode parecer bobo e corriqueiro, mas para mim evidencia a situação ridícula que a educação atingiu neste país. É mais fácil se apoiar na muleta de uma calculadora do que ensinar a fazer continha de dividir. Se o cara não tiver a maldita calculadora por perto, não consegue nem somar 1 + 1. No caso supracitado, a mulher nem ao menos se esforçou para fazer a conta, ou sequer procurou um papel e caneta para tal. Ela respondeu de bate-pronto, como se aquilo fosse algo impossível de se fazer sem sua querida muleta de calcular.

Não estou dizendo para queimar todas as calculadoras em praça pública. Só acho que ela deve ser vista como uma ferramenta que facilita, mas que não seja tão essencial a ponto de ficarmos sem ação na sua ausência. Se tiver, tudo bem, use. Se não tiver, faça a conta no papel, ou se ela for fácil (como dividir 32,6 por 2, por exemplo) faça de cabeça, mas não venha me dizer que não dá.

Estamos criando um país não só de pessoas burras, mas de pessoas preguiçosas, sem vontade de deixar de ser burro. E o pior de tudo é que toda essa mediocridade é incentivada, quando o correto seria combatê-la.

A cada dia tenho menos esperança neste país.

Será o tempo imprevisível?

Ontem (segunda-feira) resolvi ver a previsão do tempo para hoje. Olhei em uns 3 sites diferentes, e todos diziam mais ou menos a mesma coisa: muito calor durante o dia, e pancadas de chuva – como se a chuva doesse – somente à noite. Todos eram categóricos ao afirmar que não choveria durante o dia.

Bom, se você mora em São Paulo, nem preciso dizer que a previsão falhou miseravelmente. Não só choveu o dia inteiro, como também ocorreu um caos desgraçado como há muito não se via. É nessas horas que agradeço por morar tão perto do trabalho.

Afinal, por que a previsão do tempo erra tanto? Se ela dissesse pelo menos que choveria o dia todo, tudo bem. Mas ontem dizia que faria sol o dia todo, e só choveria após as 19h. É um erro muito grosseiro, não se justifica. Hoje eu entrei novamente nos mesmos sites, e coincidência ou não, todos já haviam atualizado suas “previsões” para “chuva o dia todo”, e até as temperaturas mínimas e máximas estavam diferentes de ontem. Devia ter tirado um screenshot.

Espero que não seja da forma que eu penso, mas a impressão que tenho é que um metereologista não precisa acertar. Pior, ele pode errar à vontade, que tudo bem. Deve ser uma das profissões menos estressantes que existem, porque o chefe não tem como cobrar resultados, afinal de contas, é uma previsão, não é a verdade absoluta. É quase igual a um picareta vagabundo charlatão cartomante: chuvas esparsas ocasionais (pode chover ou não, em qualquer lugar, a qualquer hora; assim até eu), mínima de 19 e máxima de 30. Não sei quanto a vocês, mas para mim, 19 graus é um frio desgraçado, e 30 graus é um calor infernal. São Paulo deve ser a única cidade do mundo onde a temperatura varia tanto em um único dia (com exceção, é claro, dos desertos). Fazer previsões assim é o mesmo que dizer que este ano alguma celebridade famosa vai morrer, que você tem que tomar cuidado com alguma pessoa invejosa que pode estar te desejando o mal, ou que hoje o dia está propício para o amor (se acontecer, acertei, se não acontecer, você que não soube aproveitar).

Fora a picaretagem e o fato de ninguém saber nada mesmo – e achar que sabe – temos o fato de que São Paulo é enorme. Alguns bairros são mais populosos que muitas cidades, as distâncias são extremamente absurdas. Tem bairros que ficam a mais de 40 km do centro. Tem reservas indígenas e áreas de preservação ambiental dentro da cidade. Diz a lenda que existe um ponto da zona sul do qual é possível ver o mar. No extremo sul tem um bairro onde meu celular não tinha sinal. Não é de se esperar que a previsão do tempo para a cidade toda seja tão falha. Se separassem por bairros, talvez errassem menos. É uma área muito extensa, não tem como ser preciso e abrangente ao mesmo tempo. Meu pai sempre via na TV reportagens de alagamento em São Paulo e me ligava preocupado, apenas para ouvir de mim que “aqui no meu bairro nem choveu”.

Claro que uma previsão mais apurada não evitaria a zona que foi o dia de hoje, mas isso já é outra história.

Dando cabo da TV aberta

Faz uns 2 meses que comecei a assinar tv a cabo aqui em casa. Antes disso, passei por um longo período de tortura, assistindo apenas a tv aberta. Claro que de vez em quando assistia os canais pagos na casa dos outros, mas em minha própria casa tinha que me contentar com a programação podre dos canais abertos.

Hoje não assisto mais a nenhum deles. Globo, o que é isso? SBT? Não sinto falta nenhuma. Record? Esse eu já não assitia antes, imagina então agora.

Claro que a tv a cabo não é perfeita. Você paga por trocentos canais, mas só 10% valem a pena. Você paga, mas mesmo assim tem comerciais. Muitos comerciais, chega a ser irritante. Na maior parte do tempo não passa muita coisa que preste. E o volume não é equalizado. Numa escala de 1 a 10, sendo que 1 é o silêncio absoluto e 10 é o volume que faz os vizinhos chamarem a polícia, os programas costumam ficar em 3. Quando começam os comerciais, o volume vai para 9, sem você fazer nada. É muito ridículo e irritante.

E mesmo assim, apesar de todos esses problemas, a tv a cabo consegue ser infinitamente superior à tv aberta. Mesmo que apenas 10% dos programas de 10% dos canais prestem, é muito, mas muito melhor que qualquer coisa que Globo, SBT e cia possam oferecer. Por isso que hoje em dia não sinto a menor falta destes canais.

A tv aberta está abarrotada de novelas, e todas são incrivelmente chatas. Elas são feitas para um público alvo específico, e só. Não há alternativa. Já seriados, não. Existem centenas deles, de todos os tipos, para os mais variados gostos. Eu tenho opção, não preciso ficar preso àquele modelo arcaico de pseudo-dramaturgia escrota que são as novelas.

Posso assistir filmes literalmente do início ao fim, pois passam os créditos iniciais e finais (eu sou um daqueles malucos que gostam de assistir créditos). Posso assistir a abertura dos Simpsons completa, na qual o Bart sempre escreve uma frase diferente no quadro, a Lisa sempre toca uma música nova e a cena final do sofá sempre é criativa e inesperada. Quando passava na Globo, os imbecis filhos da puta simplesmente cortavam, mostravam a mesma frase do Bart e todo o resto igual.

Tem gente que reclama da quantidade excessiva de reprises dos canais pagos, mas para mim isso acaba sendo uma coisa boa. Eu nem sempre tenho tempo de assistir algo exatamente naquele dia e naquele horário, então as reprisem acabam me favorecendo. E elas nem são tão excessivas assim, afinal, quem tem tempo de assistir a tudo aquilo?

Enfim, apesar de estar muito longe da perfeição, a tv a cabo me fez esquecer completamente a podridão da tv aberta. Por mim ela pode sumir do mapa que não vai fazer a menor diferença. Eu nem passo por esses canais quando estou zapeando, eu ignoro mesmo! Não preciso mais reclamar do Gugu, Faustão, Luciano Huck, Zorra Total, Fantástico, Galvão Bueno, de mais nada. Eu simplesmente não assisto mais, apaguei da minha mente.

Alguma empresa de tv a cabo poderia fazer um pacote sem os canais abertos, cobrando um pouco menos. Acho que eu pagaria.

Cascão hoje em dia não teria chance

Domingo passado fui ver a exposição de 50 anos de Maurício de Souza. Simplesmente fantástica! Adorei saber um pouco mais sobre um dos ídolos da minha infância. Desde suas origens, do primeiro quadrinho até a fama internacional, é impossível não perceber toda a simplicidade e sensibilidade que só se encontra nos gênios. Entre tantas curiosidades, pude ver o verdadeiro Sansão de pelúcia – idêntico ao do gibi, só que um pouco mais sujo e rasgado – e descobrir algo bombástico: você sabia que – é melhor se segurar, a revelação é inacreditavelmente chocante – o Cascão já tomou banho?

É isso mesmo. Foi em uma daquelas tirinhas antigas, em preto e branco, quando os personagens tinham um traço bem diferente do atual. Cascão aparece limpo, e Cebolinha pergunta abismado o que aconteceu. Cascão responde que sua mãe não pediu presente de dia das mães, pediu apenas que ele tomasse um banho. “Ela merece”, diz ele, com uma lágrima escorrendo do canto do olho. Sem grande alarde, sem uma capa chamativa com letras garrafais anunciando o momento histórico, sem nada dessas coisas que fariam atualmente. Aliás, os roteiristas deveriam pesquisar um pouco mais antes de afirmar nas historinhas que o Cascão nunca tomou banho. Tiraria toda a mística do personagem, mas fazer o quê.

Mas uma coisa é certa: somos gratos por Maurício de Souza ter criado seus personagens naquela época. Hoje em dia, nestes tempos terrivelmente chatos politicamente corretos, Cascão e todo o resto da turma não teriam a menor chance. Legiões de pais enfurecidos fariam campanha contra ele, por ser uma péssima influência para seus filhos. Imagina, uma turma só de crianças desajustadas: uma não toma banho, outra fala elado, outra bate em todo mundo, outra come sem parar. Talvez os três últimos ainda pudessem ter alguma chance, mas o Cascão seria massacrado. E tudo isso, claro, para “proteger nossos filhos”.

Acho que Maurício só não é pentelhado por pais insandecidos porque os personagens já são famosos. Pobre Adão Iturrusgarai que não tem a mesma sorte. Além disso, o tempo provou que a turma da Mônica não influencia negativamente as crianças, do contrário teríamos uma geração inteira fedendo e uma lefolma oltogláfica abolindo de vez o “R”. Outro fator que pode ter ajudado é que os pais antigamente se preocupavam mais em educar seus filhos do que em deixar que a escola e a TV fizessem isso por eles. Traduzindo, minha mãe deixava eu ler os gibis do Cascão, mas logo depois mandava eu ir tomar banho, explicando porque isso é importante, etc e tal. E uma boa educação supera qualquer suposta influência que um gibi possa ter.

A praga do politicamente correto está deixando o mundo muito chato e sem graça. O humor já não é mais o mesmo, todo mundo patrulha tudo, procurando cabelo em ovo e pior, encontrando dizendo que encontrou! Ninguém pode zuar as “minorias” (entenda isso como quiser), as únicas piadas permitidas são as de argentino. Ninguém mais entende um texto irônico, quanto mais um comentário com sarcasmo. Foi criada uma variação da lei de Murphy: se existe a possibilidade de alguém se ofender com a piada, então alguém certamente se ofenderá. E geralmente processará o autor, e em muitos casos poderá até ganhar. É um saco.

Muitos exaltam por aí os nossos “tempos modernos”, a (r)evolução da sociedade, blábláblá. Tecnologicamente pode até ser, mas humoristicamente falando estamos regredindo. Saudades da época em que Didi podia ser chamado de cearense cabeça-chata sem ninguém acionando os advogados para tirar o programa do ar. Daqui a pouco só vão restar porcarias no estilo Zorra Total.

Nem Maurício de Souza quis se arriscar. Ao lançar a versão teen da turma da Mônica, retirou tudo que é ofensivo politicamente incorreto: o Cebolinha passou a ir na fono e agora fala certo, o Cascão toma banho, a Magali não engole mais uma melancia de uma vez e por aí vai. Na boa, sou muito mais esta versão aqui.

Essa merda de politicamente correto já atingiu o limite do insuportável. Nem gênios como Maurício de Souza escapam dessa praga maldita. Qualquer tentativa de um humor mais ácido é vista como ofensiva e não raro é processada. Neste cenário desolador, não há a menor chance de surgir o melhor tipo de comediante: os sarcásticos. Se nunca viu um, eu sugiro George Carlin.

Assista antes que alguém se ofenda e resolva processar o youtube.

Update: falando em politicamente correto, hoje li um post genial sobre o assunto.