Nunca seremos

Assistir Tropa de Elite 2 me deixou deprimido.

Não porque achei o filme ruim. Muito pelo contrário, ele é muito bom, pau a pau com o primeiro. Talvez seja até melhor, pois ao se aprofundar ainda mais nas entranhas do “sistema”, me mostrou uma realidade maldita que no fundo eu já sabia que existia, mas nunca tinha visto de maneira tão escancarada. E foi justamente isso que me deprimiu.

Não pense que sou ingênuo. Nós sempre soubemos que há corrupção em todas as esferas do poder, que aos que mandam não interessa educar as pessoas, dar moradia decente, equipar a polícia, zelar pelo bem do povo, nada disso. No fundo sabemos que tanto faz o partido que ganha as eleições, vai continuar sempre a mesma coisa. Talvez os meios mudem, mas o fim será sempre o mesmo: manter-se lá em cima, não importa como. Sempre soubemos disso. O que o filme faz é mostrar em detalhes como isso tudo se desenrola, como sempre haverá gente disposta a se aproveitar do sistema até as últimas consequências e como estamos vulneráveis a este inevitável cenário. E ao nos mostrar tudo isso acaba com qualquer esperança que alguém por acaso ainda possa ter. Não, o país não vai melhorar, não adianta correr, não adianta reclamar, não adianta desabafar no seu blog. Não há solução.

Quebrou-se o tráfico, surgiram as milícias. Mata-se uma mosca, surge outra. O problema não são as moscas, e sim a merda. Enquanto ninguém limpá-la, vão surgir mais moscas. Não adianta aumentar a dose de inseticida, tem que botar uma rolha no cú de quem caga esta merda toda em cima de nós. Só que estes cús estão lá longe, intocáveis, em seus gabinetes cheios de parentes-assessores, usando e abusando do nosso dinheiro, protegidos pela burocracia e corrupção. E eles cagam em cima de nós, incessantemente, sem parar.

Escolas que não ensinam, hospitais que não curam, justiça que não pune, segurança que não protege, infraestrutura que não suporta, nada funciona e tudo tem um motivo para ser assim. Não há interesse em mudar, e os poucos que querem reverter este quadro estão sozinhos e não conseguem ir muito longe (alguns são desmoralizados, outros levam tiro pelas costas). Quantas vezes você não ouviu aquela história de que existem políticos honestos, mas são tão poucos e sua influência é tão pequena que nada podem fazer? Agora tivemos a triste confirmação. A merda que jogam em cima de nós é muito maior do que as pás que temos para limpá-la.

A conclusão do narrador, triste e real – ou triste porque real – tendo como fundo um vôo sobre Brasília, é a lápide de pedra posta sobre nós, é o golpe de misericórdia que encerra a sequência de socos no estômago que o filme nos dá, é a constatação final, cruel e inevitável de que no fim vai dar tudo errado, o que só faz aumentar a nossa melancolia, nossa miséria, nossa impotência, nossa eterna sina de sermos sempre o país do futuro, mas de um futuro que nunca chega, que nunca chegará.

A depressão que tomou conta de mim logo após os créditos surgiu não porque eu já sabia de tudo isso, mas sim porque esta visão foi ampliada, jogada na minha cara sem dó, em uma dimensão maior do que eu poderia supor. Assim como o protagonista, eu não fazia ideia do tamanho do problema. Já tinha lido matérias sobre as milícias, mas nunca nesse nível de detalhe. A corrupção rola solta, a população é usada como massa de manobra, vale até matar qualquer um para garantir mais votos. Eu sempre “soube” dessas coisas, mas meu descontentamento – e consequente distanciamento – com relação à política nunca me fez pensar a fundo nisso tudo. É muito, mas muito pior do que eu imaginava, e olha que eu já era bem pessimista com relação ao Brasil. E se pensarmos que o filme amenizou vários fatos e situações, saber que a realidade é bem pior me deixa ainda mais deprimido.

Talvez a única coisa que nos resta é fazer o que o próprio Nascimento disse: ao invés de se entregar à depressão, se tornou ainda mais forte e determinado. Não que isso vá mudar muita coisa, mas ao menos impedirá alguns suicídios. Afinal, como o próprio filme conclui, vai continuar morrendo muita gente inocente, e os verdadeiros responsáveis vão continuar não dando a mínima.

Brasil, país decente, sério e desenvolvido? Como diria o Bope: “Nunca serão!”

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Duelo dos Aeroportos (ou O Prenúncio do Caos)

Este ano fui para a Inglaterra 2 vezes (calma, foi a trabalho; não estou com essa bola toda) e foi interessante – para não dizer desanimador – ver as diferenças entre os aeroportos daqui e de lá. Sei que é covardia, mas vamos fazer uma comparação entre Cumbica (Guarulhos) e Heathrow (Londres).

As viagens que fiz foram em março e setembro, mas não era feriado em nenhum dos 2 países, nenhuma data especial que justificasse algum fluxo anormal, muito menos temporada de férias nem nada do tipo. Claro que apenas 2 viagens não constituem uma amostragem estatisticamente relevante, mas a menos que eu tenha sido muito azarado, o que eu presenciei não deve estar muito fora da realidade, acredito que deva estar “na média”. Os fatos relatados não estão necessariamente em ordem cronológica, já que misturei situações das 2 viagens, mas a ideia aqui é comparar os aeroportos e não relatar sequencialmente os fatos.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Embarque

Em Guarulhos tive 2 experiências: uma péssima e outra nem tanto. Na primeira vez, peguei uma fila de quase 1 hora e meia para fazer o check-in. Na segunda, tive mais sorte e demorei apenas 30 minutos.

Já em Londres, demorei 5 minutos na primeira vez (nem dá pra chamar aquilo de fila) e 30 minutos na segunda. Não sei se dei uma puta sorte na primeira vez, mas de qualquer forma também dei sorte em Guarulhos na segunda vez, já que logo depois que eu despachei minha mala a fila tinha dobrado de tamanho. Acho que no fim não foi sorte, eu é que cheguei cedo mesmo.

Decolagem

Em Guarulhos tive atrasos de 2 horas na primeira vez e 1 hora na segunda, em Londres tive apenas atraso de meia hora na segunda vez. Na primeira viagem, acredite, o vôo saiu no horário! Foi a primeira vez na vida que eu vi um avião sair no horário, incrível não ter chovido.

Falando nisso, em nenhuma das vezes estava chovendo, nevando ou tendo qualquer outro fenômeno natural que justificasse o atraso. Deve ter sido incompetência mesmo.

Desembarque

Na primeira viagem, a fila da imigração em Londres foi rápida, uns 20 minutos. Na volta, em Guarulhos, demorou mais de 1 hora. Já na segunda vez, foi o contrário: em Londres fiquei mais de 1 hora, em Guarulhos fiquei uns 20 minutos. Vai entender.

Em compensação, pegar as malas em Londres é um processo absurdamente mais simples e menos penoso do que em Guarulhos. Em Londres as malas chegam na esteira muito antes de você (em Guarulhos é o contrário). Além disso as esteiras de Heathrow são grandes, comportando várias pessoas de uma vez, e o saguão é bem espaçoso, permitindo que todos consigam transitar com suas malas gigantes sem esbarrar em ninguém. E os carrinhos estão todos em perfeito estado, ao contrário de Guarulhos, onde tive que verificar 3 carrinhos até achar um decente (um tinha a roda torta, outro não virava, etc).

Já a esteira de Guarulhos é ridícula, na primeira vez ficamos 40 minutos que nem idiotas olhando para a esteira, esperando as malas começarem a ser descarregadas! É isso mesmo, chegamos todos na esteira (depois de 1 hora na fila da imigração), e depois de 40 minutos é anunciado que as nossas malas começaram a ser descarregadas! Isso porque eu olhei em volta e no painel, e vi que só tinha o nosso vôo!!! Simplesmente ridículo, será que eles levam as malas uma a uma?

Na segunda vez foi ainda pior. Tinha mais uns 5 vôos chegando na mesma hora e foi aí que eu vi uma cena epicamente patética: um congestionamento de carrinhos de mala! Isso mesmo, toda a galera dessa meia dúzia de vôos pegou as malas ao mesmo tempo (depois de esperar 40 minutos por elas, claro) e quando todos foram tentar sair, o negócio simplesmente travou! Era tanta gente tentando sair ao mesmo tempo que ninguém conseguia sair do lugar, foi ridículo!

Na verdade não era tanta gente assim (meia dúzia de vôos para um aeroporto de uma cidade que quer receber uma Copa do mundo? Deveria ser pouco, mas esqueci que estamos no Brasil…), o problema é que aquele saguãozinho de merda não tem espaço suficiente (se chegarem 2 vôos ao mesmo tempo já fudeu tudo), as esteiras são pequenas e o serviço de levar as malas até elas é ineficiente. Além disso havia apenas uma funcionária tentando – em vão – organizar a fila. É isso aí, UMA pessoa tentando organizar centenas. E digo mais, uma pessoa totalmente perdida, sem preparo nenhum, gritando com os passageiros, perdendo o controle da situação, estressando a tudo e todos (inclusive ela própria). Preciso dizer que a fila foi improvisada, e por isso era toda torta e confusa? É com esse maldito jeitinho brasileiro que pretendemos receber milhares de turistas para a Copa?
E ainda por cima conseguiram a façanha de quebrar o cadeado da minha mala! Parabéns a todos os envolvidos!

E pensar que alguns minutos antes eu estava feliz porque a fila da imigração foi rápida. O Brasil é assim mesmo, quando não faz merda na entrada, faz na saída.

Infraestrutura

Até aqui estamos perdendo feio, mas se preparem que agora sim vem a humilhação.

Heathrow tem 3 estações do metrô que servem a diferentes terminais do aeroporto. TRÊS estações!! TRÊS!!!! No mesmo aeroporto!!! Guarulhos tem… cof cof… deixa pra lá.

Sem contar que você também pode ir para Heathrow de trem, ônibus e até de bicicleta! Ah sim, alguém já viu a estrutura de transportes públicos de Londres? É tudo integrado, pontual e eficiente. Claro que não é perfeito, deve atrasar e quebrar às vezes, mas mesmo assim deixa a gente no chinelo. Enquanto isso, São Paulo está em algum canto, se escondendo de vergonha, sonhando com o trem que vai até o aeroporto. Meu palpite é que NÃO vai ficar pronto até a Copa e que o preço vai ser abusivo.

Obviamente você também pode ir de carro ao aeroporto, e neste item também somos humilhados. Heathrow tem vários estacionamentos em volta, servidos por linhas de ônibus que te levam aos terminais do aeroporto de graça. Em um desses estacionamentos, tinha mais de 6 pontos! É isso mesmo, 6 pontos de ônibus DENTRO do estacionamento!! Correção: dentro de UM DOS estacionamentos!! Já mencionei que esses ônibus são de graça?

Enquanto isso, em Guarulhos, o único e pateticamente minúsculo estacionamento já estourou o limite. Como bem reparado neste fórum, qualquer Carrefour ou shopping center tem mais vagas que o nosso querido aeroporto de merda!

Sites

Para terminar a surra, compare os sites de Heathrow e de Cumbica e tire suas próprias conclusões. Não falo nem de layout e outras frescuras, falo da quantidade e qualidade das informações que cada um possui. Isso porque o nosso aeroporto é menor que o deles, teoricamente seria bem mais fácil fazer um site completo e abrangente sobre tudo que tem lá. Mas nem isso conseguimos fazer direito.

E para fechar com chave de “ouro”, uma pérola: achei um site que parece ser exclusivamente do estacionamento do aeroporto. Só tem um detalhe: não tem uma informação útil! Nem o “clique aqui” é clicável! (pode procurar, não é mesmo!)

Para piorar, às vezes parece que foi uma criança de 5 anos que escreveu os textos. Na seção de “Vantagens”, é dito que “O valor é outra vantagem, pois geralmente o aeroporto não fica próximo a sua residência e o valor do taxi fica alto”. É isso mesmo, táxi sem acento. Sem falar da constatação “genial” de que a maioria das pessoas mora longe do aeroporto. Já li todo o conteúdo – que não é muito – e não sei se choro ou dou risada.

Eu desisto.

Triste conclusão

Não adianta, podemos nos orgulhar de ser um povo alegre, “que não desiste nunca”, que sempre dá um jeito pra tudo, e aquela baboseira toda, mas nunca seremos um país realmente sério, onde as coisas funcionam de verdade. O nosso principal aeroporto está no limite (se é que já não passou) e o governo acha que está tudo certo para receber a Copa e as Olimpíadas. Nem vou entrar no mérito do nosso dinheiro sendo usado e abusado nesta “grande festa”, estou focando apenas na infraestrutura, que é só a ponta do iceberg.

Eu quero estar bem longe do aeroporto quando os turistas chegarem. Prevejo caos, desordem e o governo tentando encobrir e fingindo que está tudo bem (ainda mais se for a Dilma, que deve seguir o estilo Lula do “eu-não-sabia-é-tudo-invenção-da-imprensa”). Alguém duvida que vai ser diferente?

Previsões para a Copa

Assim como os videntes picaretas – ops, redundância – que sempre soltam previsões genéricas do tipo “Uma pessoa famosa vai morrer este ano” e “Fulano deve tomar muito cuidado com pessoas invejosas”, vou aproveitar o clima de loucura e alienação geral em torno da Copa do Mundo e exercitar minha capacidade de premonição.

A imprensa esportiva em geral, e o Galvão Bueno em particular, estarão mais insuportáveis do que nunca. Talvez pelo fato de aparecerem na TV por mais tempo do que o habitual, tendo como consequência a falta de assunto, levando-os a noticiar qualquer coisa, por mais imbecil que seja. Tudo bem, a imprensa já é assim hoje, mas na Copa isso é elevado à décima potência. Mas apenas na seção de esportes, as outras seções são esquecidas, pois nem a explosão de uma bomba atômica no (ou do) Irã ganharia mais destaque do que o close de um pedaço de grama na trava da chuteira do atacante da Costa do Marfim. 90% do jornal é sobre a Copa, todo o resto é resumido no espaço restante.

Aliás, a mídia é aquela que se torna mais insuportável durante a Copa. Há mais de 20 anos que as reportagens são as mesmas, resumindo-se a 3 tipos igualmente chatos:

  • Imagens das ruas vazias no horário do jogo da seleção, narração do repórter dizendo que as ruas estão vazias por causa do jogo da seleção. Se por acaso tiver algum infeliz na rua, o mesmo é entrevistado. Das 2 uma: ou ele diz que está indo não-sei-onde ver o jogo ou faz alguma pergunta sobre… o jogo.
  • Imagens dos torcedores assistindo ao jogo num telão instalado em uma praça qualquer de uma cidade qualquer. A edição criativa mostra os melhores momentos da partida alternados com a respectiva reação dos torcedores, acompanhados da mais criativa ainda narração do repórter. Palavras como “sufoco” e “alívio” são frequentemente usadas quando o Brasil está sendo atacado ou faz um gol, respectivamente. Geralmente escolhe-se um torcedor mais exagerado para aparecer com mais frequencia, principalmente na hora do gol. No final, este mesmo torcedor é entrevistado e diz algo como “É Brasil!” ou qualquer patriotada do tipo.
  • Família do jogador reunida em casa, geralmente na favela onde o jogador nasceu, cresceu e aprendeu a jogar. O jogador escolhido pode ser o que se destacou na última partida ou o craque mais óbvio do momento. O pai diz que ele sempre sonhou estar na seleção, a mãe diz que era um garoto levado, algum tio/primo/irmão/amigo de infância faz outro comentário irrelevante. Mais uma vez a edição criativa alterna os depoimentos com fotos da infância do jogador – de preferência com uma bola de futebol – e lances inesquecíveis que ninguém lembrava.

Quando o repórter está realmente criativo e quer ousar pra valer, ele faz uma mistura dos 3 tipos acima descritos, como por exemplo a família do jogador assistindo ao jogo, tendo reações exageradas e saindo para comemorar na rua vazia. Dada a qualidade da nossa imprensa esportiva, não dá para esperar muito mais do que isso.

Claro, se Dunga ganhar a Copa, a imprensa vai babar ovo e lamber o saco dele, vai elogiar a coerência de não convocar os jogadores que todo mundo pediu e transformá-lo em herói nacional. Mas se ele perder, a mesma imprensa vai xingar, descer o cacete, humilhar e destruir, vai criticar a teimosia de não ter convocado os jogadores que todo mundo pediu e só ele não queria escutar, vai transformá-lo em vilão nacional. A mídia não precisa ser coerente, ela pode mudar de opinião ao sabor do vento e dos fatos, ela escreve o que for conveniente, pois afinal é preciso vender.

Além da mídia enlouquecida, teremos os torcedores enlouquecidos. Pessoas que só são patriotas a cada 4 anos surgirão aos montes, pensei até em mandar esse gráfico para o graphjam:

O patriotismo de conveniência do brasileiro

"Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor, com muita hipocrisia"

Eu sempre achei estranho esse negócio de só ser patriota quando tem Copa do mundo, mas se pensarmos bem, até que faz sentido. Acompanhe:

Vivemos num país de merda, lotado de bandidos de todas as espécies: assaltantes, estupradores, sequestradores, traficantes, políticos corruptos – duas redundâncias no mesmo texto, assim não dá – que infelizmente predominam, mandam e comandam. Quem prefere ser otário honesto, é massacrado por impostos de mão única (eles só vão, nunca voltam), que comem mais de 4 meses do nosso trabalho todo ano, que vão parar no bolso dos filhos da puta que foram eleitos por este povo ignorante. Um desses malditos em particular resolveu fazer acordos nucleares com países que só ele acredita serem pacíficos e bonzinhos. Eu estou só esperando até surgirem os primeiros embargos e sanções econômicas, e se hoje reclamamos que o Brasil tem o iPod mais caro do mundo, pode ser que amanhã não tenhamos nenhum.

Vivemos num país desgraçado, onde todos querem se dar bem e ninguém pensa no coletivo (exceto, é claro, no treino coletivo da seleção). Os guardanapos do MacDonald’s deixaram de ser à vontade porque a galera abusava, pegava 20 mas só usava 2. Hoje temos que nos contentar com 1 folhinha vagabunda miguelada. Em Berlim tem um restaurante onde você escolhe quanto quer pagar (que nem as Casas Bahia, só que de verdade) e adivinha, os brasileiros são os que mais dão problema. Em vários países tem avisos alertando contra a presença de brasileiros, que são sinônimo de problema. Nossa má reputação nos precede, somos um povinho desgraçado vivendo num país idem.

Ou seja, tirando o futebol, nada, absolutamente NADA que existe nesse país tem alguma chance de nos dar orgulho de ter nascido aqui. O futebol é a única coisa que tem alguma chance de dar algum orgulho, de acender, nem que seja só um pouquinho, a chama do patriotismo, mesmo que seja esse pseudo-patriotismo capenga que temos. Todo o resto só nos dá vergonha, não dá para bater no peito e dizer que somos campeões mundiais em pedidos de retirada de conteúdo do google, nem que somos foda pra caralho porque temos uma das piores distribuições de renda do mundo.

Por todo o resto do país ser uma merda, a única coisa que às vezes nos dá alegria é o futebol. Não é o ideal em termos de patriotismo, sequer em termos de país, mas infelizmente é o que temos. Só nos resta torcer, e por algo que nem vai mudar nossas vidas.

Pelo menos vou poder me gabar de ter acertado todas as previsões. Infelizmente.

Reflexões em torno do Grill do boxeador

Comprei um George Foreman Grill. Pois é, justo eu, que sempre fui extremamente cético com relação a qualquer produto cujos comerciais seguem o estilo bizarro do PoliShop, que consistem em mostrar que o produto é a última Coca-cola (ainda tem hífen?) do deserto, que resiste à chuva, sol, fogo e tiros de metralhadora, que além de conservar os alimentos, melhora sua pele, evita a queda dos cabelos, desencrava as unhas, emagrece, faz o carro andar mais, dobra a autonomia da bateria do celular, é prático, fácil de usar, durável, econômico, versátil, cura o câncer em estágio avançado, faz os aleijados andarem e os cegos enxergarem (não confundir com igrejas evangélicas picaretas), e as primeiras duzentas pessoas que ligarem levam inteiramente grátis um brinde qualquer que é tão incrível quanto o produto principal, que nem dá para entender porque estão dando de graça.

Esse meu ceticismo teve início basicamente na época das meias Vivarina (que nunca desfiavam, nem mesmo se você tentasse cortá-las com uma faca) e das facas Ginsu (que cortavam tudo, menos as meias Vivarina). O negócio era tão absurdo que beirava o ridículo, um dos comerciais mostrava a faca cortando um cano de chumbo! Para quê alguém vai querer ter uma faca dessa em casa? E a narração ensandecida, estilo Galvão Bueno, só reforçava o inverossímil da situação. Isso tudo fez com que eu desenvolvesse um preconceito enorme com qualquer produto que fosse anunciado dessa maneira.

Mas eis que, algumas semanas atrás, vi o Grill do boxeador em funcionamento. Deixando de lado todo aquele exagero ridículo dos comerciais, pode-se dizer que o negócio funciona de maneira satisfatória. Claro, ao contrário do que a propaganda quer que acreditemos, ele não é a solução de todos os problemas culinários do mundo, mas percebi que seria muito útil para mim, que moro sozinho, não tenho fogão nem saco para cozinhar, e já enjoei de comida de micro-ondas (e esse aqui, tem hífen?).

Para começar, ele é bem simples. Você liga na tomada e pronto. Não tem milhares de botões, regulagem de temperatura, programas para fazer a comida X ou Y, nada disso. Ele liga e desliga, e só. Quer preparar algo? Liga. Ficou pronto? Desliga. Esqueça a balela que você vê na propaganda, o negócio é só uma sanduicheira turbinada, nada mais. O que é ótimo, pois eu sempre quis fazer o hambúrguer direto na sanduicheira.

Muitos dizem que não é necessário lavar louça, mas isso é mais ou menos verdade. Porque a bandeja para onde vai a gordura tem que ser lavada sim, senão fica um nojo e com o tempo pode até criar vida própria e sair andando pela casa. E o tempo que você gastaria lavando panelas mais a água e detergente são compensados pela quantidade obcena de papel toalha necessária para limpar o grill. Mas tudo bem, não existe nada auto-limpante neste mundo, ao contrário do que os fabricantes de micro-ondas querem que a gente pense.

A única irritação gerada por esta aquisição foi o fato dela seguir o novo e ridículo padrão de tomada, o de 3 pinos juntinhos. Não sei quem foi o imbecil que resolveu criar MAIS UM padrão – dizem que padrões são bons, por isso temos vários – pois nenhuma tomada do meu apartamento é compatível. Isso porque meu prédio só foi construído há 2 anos. Por causa dessa merda de padrão que ninguém segue tive que comprar um adaptador. E adivinha quanto custa essa pecinha VAGABUNDA de plástico, tão mal-feita que parece que vai quebrar só de você tocá-la? Sete reais! Por um adaptador vagabundo!

Resumindo, no final das contas, o produto que eu achava picaretagem foi o que me deixou mais satisfeito, e o produto que ninguém precisava – a não ser o dono da fábrica de adaptadores, que provavelmente é deputado e/ou participou do lobby para aprovar este “padrão” – foi o que mais me deu dor-de-cabeça. O que me leva a crer que George Foreman é um empreendedor de sucesso – ou no mínimo um ótimo garoto-propaganda – e que o governo brasileiro é o mais imbecil do mundo, pois concentra esforços em coisas desnecessárias como anti-padrões e acordos nucleares com países de reputação duvidosa.

Lá vem o maldito leão

E novamente vem aí o maldito imposto de renda. Assim como todos os outros impostos, tem um valor maior do que deveria, não sonegamos porque somos honestos (ou otários) demais, não sabemos como toda essa grana é usada – na verdade sabemos – e por mais que eu reclame não vai mudar nada.

Só que o imposto de renda é mais irritante ainda porque sou eu que tenho que calcular. Imagina, eu chego pra você e digo que você tem que me pagar. Digo que é obrigado por lei, senão você se fode bonito. E digo que é você que vai ter que se virar para adivinhar o valor, já que eu não vou te dizer. E se você for burro demais para calcular o valor correto, sinto muito, vou te colocar em uma listinha especial e você vai ter que rebolar para sair dela.

Nem venham me dizer que o governo não tem como calcular. Porra, todo mês ele já me fode capando meu salário direto da fonte, eu nem chego a ver aquele dinheiro. O banco já me manda um informe dizendo tudo que eu tenho que declarar. Se ele pode mandar para mim, por que não pode mandar para a Receita Federal e ela que se vire para calcular? Caralho, a carta do banco e o holerite já tem o CNPJ da fonte pagadora e os valores, manda tudo pra Receita e ela que faça as contas, porra! Afinal, é interesse dela receber, não?

Os bancos e empresas já poderiam mandar todo mês, assim a Receita poderia ir processando ao longo do ano, ao invés de concentrar tudo em apenas 2 meses e promover a correria geral, site congestionado e tantos outros problemas que surgem nesta época. Se o sujeito compra um carro ou uma casa, é obrigado a registrar. Bom, por que a prefeitura e o Detran já não avisam a Receita? Despesas médicas poderiam ser avisadas pelas operadoras de planos de saúde. Escolas poderiam enviar os dados de mensalidade e por aí vai. E para as coisas que não se encaixam nestas categorias (que nem sei quais são) poderia ter a opção da própria pessoa avisar a Receita (via formulário, internet, postos de atendimento, qualquer coisa) mas que isso também pudesse ser feito o ano todo.

Será possível que não dá pra fazer isso? Porque declarar essa merda é um saco, já que além do desgosto de ter que pagar algo que eu sei que não vai ter retorno, tem a perda de tempo de calcular o valor e o medo de ter preenchido algo errado e entrar na lista negra.

E o leão, que não tem nada a ver com a história, foi escolhido como símbolo deste maldito imposto. Mas até que faz sentido. Ele morde para sobreviver, e as presas que se fodam. O governo também. A única diferença é que uma hora o leão sacia a fome e para.

Mais uma pequena evidência da idiotização da sociedade

Hoje fui jantar com a namorada. Total: R$ 32,60. Como bom casal moderno que somos, decidimos dividir a conta. Cada um com seu cartão de débito em mãos, perguntamos para a moça do caixa: “Divide por 2?”. A resposta: “Estou sem calculadora”.

Para tudo.

Como assim? Ela não quis fazer uma porcaria de divisão por 2, alegando que não tinha calculadora? Tivemos que fazer a conta de cabeça na hora – o que convenhamos não é nenhum bicho de sete cabeças – senão não conseguiríamos dividir a conta. Minto, minha namorada fez a conta e informou a moça do caixa. Eu estava paralisado em semi-estado de choque, custando a acreditar no que tinha acabado de ouvir.

O fato pode parecer bobo e corriqueiro, mas para mim evidencia a situação ridícula que a educação atingiu neste país. É mais fácil se apoiar na muleta de uma calculadora do que ensinar a fazer continha de dividir. Se o cara não tiver a maldita calculadora por perto, não consegue nem somar 1 + 1. No caso supracitado, a mulher nem ao menos se esforçou para fazer a conta, ou sequer procurou um papel e caneta para tal. Ela respondeu de bate-pronto, como se aquilo fosse algo impossível de se fazer sem sua querida muleta de calcular.

Não estou dizendo para queimar todas as calculadoras em praça pública. Só acho que ela deve ser vista como uma ferramenta que facilita, mas que não seja tão essencial a ponto de ficarmos sem ação na sua ausência. Se tiver, tudo bem, use. Se não tiver, faça a conta no papel, ou se ela for fácil (como dividir 32,6 por 2, por exemplo) faça de cabeça, mas não venha me dizer que não dá.

Estamos criando um país não só de pessoas burras, mas de pessoas preguiçosas, sem vontade de deixar de ser burro. E o pior de tudo é que toda essa mediocridade é incentivada, quando o correto seria combatê-la.

A cada dia tenho menos esperança neste país.

O Caos sempre existiu

Nunca fui muito fã de aeroportos. Quando pequeno só fui no aeroporto de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça (desses sim eu era fã). Mas eu não era aficcionado por aviões, nem queria ser piloto. E acredito ser exceção, pois pelas minhas estatísticas pessoais e portanto não confiáveis (mais conhecidas como “achômetro”), quase toda criança já quis ser piloto de avião. Não que eu odiasse aeronaves. Tive um jatinho de brinquedo (devia ser do Comandos em Ação, febre da época), e gostava de brincar com ele. Joguei muito Super Trunfo, inclusive o de aviões. Mas o fato dessas brincadeiras envolverem aviões não tinha nada de especial. Era apenas mais um brinquedo, nem melhor, nem pior.

Apesar disso, na primeira vez que fui para o aeroporto de Guarulhos, não resisti à vontade de ir ver os aviões pousando e decolando. Lá tinha – faz tempo que não vejo, mas ainda deve ter – uma parede de vidro pela qual podíamos ver a pista, e dava para ter uma visão perfeita dos aviões subindo e descendo. Após o pouso, o avião se aproximava de nós lentamente e ia ficando cada vez maior. Muito legal. Meu primeiro vôo não foi nesse dia, tinha ido apenas buscar um parente que voltava do Japão. Nesse dia percebi que era uma ótima distração ver os aviões indo e vindo do aeroporto: “Olha, um da JAL! Será que é esse?”

Alguns anos depois (entre 2002 e 2003, não me lembro direito), fiz minha primeira viagem aérea. Pena que não foi um passeio. Embarquei na ponte-aérea, o ridículo-de-tão-rápido trajeto de 40 minutos – de vôo, porque na verdade demora bem mais – entre São Paulo e Rio. Apesar da experiência de voar pela primeira vez – que nem é tão fascinante assim, como algumas pessoas costumam dizer – o que me marcou mesmo foi a desorganização. Achei incrível que nenhum vôo conseguia sair no horário. Pior, muitos atrasavam horas. Até a presente data eu só tinha viajado de ônibus, e na rodoviária os atrasos eram raros. E quando ocorriam, nunca duravam mais do que 30 minutos. Pensei que aviões, por serem mais caros, avançados e modernos, fossem mais pontuais. Quanta ingenuidade.

Foi a partir daí que eu passei a detestar aeroportos. Nunca – nunca mesmo – consegui embarcar no horário, mesmo chegando duas horas antes para fazer o maldito check-in (um procedimento burocrático ridículo para o qual já deveriam ter pensado em uma alternativa menos trabalhosa) e esperando o horário do vôo, apenas para ser informado que o mesmo vai atrasar em algumas horas. E olha que todos os meus vôos foram antes do acidente da Gol, quando ainda não existia todo esse caos aéreo.

Pois quer saber? Eu acho que existia sim. Podia ser em uma escala bem menor que a atual, e sem uma cobertura maciça da mídia, mas de certa forma existia. Desde sempre – pelo menos, desde que voei pela primeira vez – os vôos atrasam, alguns de forma absurda. Já fiquei horas perambulando pelo aeroporto esperando um vôo sem previsão de saída. Não aguentava mais ficar de pé – não tinha mais lugar para sentar, dada a quantidade de gente esperando por seus vôos, também atrasados – nem ficar andando pelo aeroporto. Já havia lido todas as revistas que tinha e não estava disposto a comprar mais – se eu tivesse feito isso, ficaria sem dinheiro, dada a demora daquele maldito vôo. E isso foi bem antes dessa confusão toda de Anac, fechamento do aeroporto, etc etc etc. Hoje deve estar pior.

Ainda bem que não viajo de avião com frequência. Pode ser o meio estatisticamente mais seguro, mais rápido e mais moderno, mas para mim também é o mais estressante, mais trabalhoso (na rodoviária não tem check-in, você simplesmente chega e sobe no ônibus) e mais desorganizado (overbook deveria ser proibido, e o valor da passagem ressarcido de forma proporcional ao atraso, algo como 50% do valor por hora de atraso).

E minha bagagem nunca extraviou na rodoviária.