Reciclagem: me ajude a te ajudar

Hoje vi uma cena curiosa. Estava em um lugar que faz coleta seletiva de lixo. Ou seja, tem aquelas latas coloridas, uma para papel, outra para plástico, etc. Política e ecologicamente correto, se não fosse por um detalhe: a faxineira passou recolhendo o lixo e juntou tudo em um único saco preto gigante. Fiquei olhando e pensando: pra que separar se depois vai juntar tudo?

Quer dizer então que a coleta seletiva é só para inglês ver, para mostrar aos outros que você é consciente e se preocupa com o planeta? Mas no fundo varre tudo para baixo do tapete, não separa nada e se bobear nem encaminha o lixo para a reciclagem.

Aliás, reciclagem é um assunto tão falado mas muito pouco entendido. Para onde vai todo aquele lixo que separamos? Nos nossos prédios, nas empresas, nos shoppings, nunca parei para pensar se tudo aquilo realmente é reciclado ou se no final eles juntam tudo e não reciclam nada. A gente separa cada coisa em sua lata e esquece, achando que a partir daí tudo é encaminhado para os devidos lugares. Mas na verdade, não temos como saber se todo mundo que diz fazer coleta seletiva realmente o faz. Não há fiscalização, cobrança nem nada. Sustentabilidade é a palavra da moda, toda empresa quer ser verde, reciclar é bonito, mas parece que tem gente optando pelo caminho mais fácil: a consciência ecológica de fachada.

Mas vamos ser otimistas e acreditar que a maioria realmente encaminha o lixo para reciclagem. Ainda sim temos um problema: a desinformação. O que é reciclável e o que não é? O que pode e o que não pode ser jogado em cada lata? Guardanapo usado, por exemplo. Muitos diriam que “é óbvio que é papel”, mas já me falaram que se estiver sujo com gordura, não dá para reciclar, e vira lixo comum. E palito de sorvete? Sachê de ketchup? Embalagem de toddynho? Eu nunca sei, já procurei saber e as informações são desencontradas, ninguém sabe ao certo o quê deve ir aonde. Só latas de refrigerante que eu não tenho dúvida. Pelos menos até inventarem latas de algum outro material.

O fato é que, por mais que queiramos ajudar, fica essa sensação de que estamos apenas fingindo preocupação e brincando de reciclar. Mas como tudo no Brasil, é feito nas coxas (o maldito jeitinho), ao invés de conscientização temos dúvidas e desinformação. Eu tento fazer a minha parte, separando o lixo e tentando jogar cada coisa em sua respectiva lata, mas cada praça de alimentação tem um esquema diferente e nunca sei se joguei o lixo nos lugares corretos. Se quisermos realmente uma reciclagem efetiva, precisamos saber exatamente como proceder com cada coisa que jogamos, pois só boas intenções não vão salvar o planeta.

Como diria um personagem famoso em um contexto completamente diferente, você tem que me ajudar a te ajudar.

Nunca seremos

Assistir Tropa de Elite 2 me deixou deprimido.

Não porque achei o filme ruim. Muito pelo contrário, ele é muito bom, pau a pau com o primeiro. Talvez seja até melhor, pois ao se aprofundar ainda mais nas entranhas do “sistema”, me mostrou uma realidade maldita que no fundo eu já sabia que existia, mas nunca tinha visto de maneira tão escancarada. E foi justamente isso que me deprimiu.

Não pense que sou ingênuo. Nós sempre soubemos que há corrupção em todas as esferas do poder, que aos que mandam não interessa educar as pessoas, dar moradia decente, equipar a polícia, zelar pelo bem do povo, nada disso. No fundo sabemos que tanto faz o partido que ganha as eleições, vai continuar sempre a mesma coisa. Talvez os meios mudem, mas o fim será sempre o mesmo: manter-se lá em cima, não importa como. Sempre soubemos disso. O que o filme faz é mostrar em detalhes como isso tudo se desenrola, como sempre haverá gente disposta a se aproveitar do sistema até as últimas consequências e como estamos vulneráveis a este inevitável cenário. E ao nos mostrar tudo isso acaba com qualquer esperança que alguém por acaso ainda possa ter. Não, o país não vai melhorar, não adianta correr, não adianta reclamar, não adianta desabafar no seu blog. Não há solução.

Quebrou-se o tráfico, surgiram as milícias. Mata-se uma mosca, surge outra. O problema não são as moscas, e sim a merda. Enquanto ninguém limpá-la, vão surgir mais moscas. Não adianta aumentar a dose de inseticida, tem que botar uma rolha no cú de quem caga esta merda toda em cima de nós. Só que estes cús estão lá longe, intocáveis, em seus gabinetes cheios de parentes-assessores, usando e abusando do nosso dinheiro, protegidos pela burocracia e corrupção. E eles cagam em cima de nós, incessantemente, sem parar.

Escolas que não ensinam, hospitais que não curam, justiça que não pune, segurança que não protege, infraestrutura que não suporta, nada funciona e tudo tem um motivo para ser assim. Não há interesse em mudar, e os poucos que querem reverter este quadro estão sozinhos e não conseguem ir muito longe (alguns são desmoralizados, outros levam tiro pelas costas). Quantas vezes você não ouviu aquela história de que existem políticos honestos, mas são tão poucos e sua influência é tão pequena que nada podem fazer? Agora tivemos a triste confirmação. A merda que jogam em cima de nós é muito maior do que as pás que temos para limpá-la.

A conclusão do narrador, triste e real – ou triste porque real – tendo como fundo um vôo sobre Brasília, é a lápide de pedra posta sobre nós, é o golpe de misericórdia que encerra a sequência de socos no estômago que o filme nos dá, é a constatação final, cruel e inevitável de que no fim vai dar tudo errado, o que só faz aumentar a nossa melancolia, nossa miséria, nossa impotência, nossa eterna sina de sermos sempre o país do futuro, mas de um futuro que nunca chega, que nunca chegará.

A depressão que tomou conta de mim logo após os créditos surgiu não porque eu já sabia de tudo isso, mas sim porque esta visão foi ampliada, jogada na minha cara sem dó, em uma dimensão maior do que eu poderia supor. Assim como o protagonista, eu não fazia ideia do tamanho do problema. Já tinha lido matérias sobre as milícias, mas nunca nesse nível de detalhe. A corrupção rola solta, a população é usada como massa de manobra, vale até matar qualquer um para garantir mais votos. Eu sempre “soube” dessas coisas, mas meu descontentamento – e consequente distanciamento – com relação à política nunca me fez pensar a fundo nisso tudo. É muito, mas muito pior do que eu imaginava, e olha que eu já era bem pessimista com relação ao Brasil. E se pensarmos que o filme amenizou vários fatos e situações, saber que a realidade é bem pior me deixa ainda mais deprimido.

Talvez a única coisa que nos resta é fazer o que o próprio Nascimento disse: ao invés de se entregar à depressão, se tornou ainda mais forte e determinado. Não que isso vá mudar muita coisa, mas ao menos impedirá alguns suicídios. Afinal, como o próprio filme conclui, vai continuar morrendo muita gente inocente, e os verdadeiros responsáveis vão continuar não dando a mínima.

Brasil, país decente, sério e desenvolvido? Como diria o Bope: “Nunca serão!”

Previsões para a Copa

Assim como os videntes picaretas – ops, redundância – que sempre soltam previsões genéricas do tipo “Uma pessoa famosa vai morrer este ano” e “Fulano deve tomar muito cuidado com pessoas invejosas”, vou aproveitar o clima de loucura e alienação geral em torno da Copa do Mundo e exercitar minha capacidade de premonição.

A imprensa esportiva em geral, e o Galvão Bueno em particular, estarão mais insuportáveis do que nunca. Talvez pelo fato de aparecerem na TV por mais tempo do que o habitual, tendo como consequência a falta de assunto, levando-os a noticiar qualquer coisa, por mais imbecil que seja. Tudo bem, a imprensa já é assim hoje, mas na Copa isso é elevado à décima potência. Mas apenas na seção de esportes, as outras seções são esquecidas, pois nem a explosão de uma bomba atômica no (ou do) Irã ganharia mais destaque do que o close de um pedaço de grama na trava da chuteira do atacante da Costa do Marfim. 90% do jornal é sobre a Copa, todo o resto é resumido no espaço restante.

Aliás, a mídia é aquela que se torna mais insuportável durante a Copa. Há mais de 20 anos que as reportagens são as mesmas, resumindo-se a 3 tipos igualmente chatos:

  • Imagens das ruas vazias no horário do jogo da seleção, narração do repórter dizendo que as ruas estão vazias por causa do jogo da seleção. Se por acaso tiver algum infeliz na rua, o mesmo é entrevistado. Das 2 uma: ou ele diz que está indo não-sei-onde ver o jogo ou faz alguma pergunta sobre… o jogo.
  • Imagens dos torcedores assistindo ao jogo num telão instalado em uma praça qualquer de uma cidade qualquer. A edição criativa mostra os melhores momentos da partida alternados com a respectiva reação dos torcedores, acompanhados da mais criativa ainda narração do repórter. Palavras como “sufoco” e “alívio” são frequentemente usadas quando o Brasil está sendo atacado ou faz um gol, respectivamente. Geralmente escolhe-se um torcedor mais exagerado para aparecer com mais frequencia, principalmente na hora do gol. No final, este mesmo torcedor é entrevistado e diz algo como “É Brasil!” ou qualquer patriotada do tipo.
  • Família do jogador reunida em casa, geralmente na favela onde o jogador nasceu, cresceu e aprendeu a jogar. O jogador escolhido pode ser o que se destacou na última partida ou o craque mais óbvio do momento. O pai diz que ele sempre sonhou estar na seleção, a mãe diz que era um garoto levado, algum tio/primo/irmão/amigo de infância faz outro comentário irrelevante. Mais uma vez a edição criativa alterna os depoimentos com fotos da infância do jogador – de preferência com uma bola de futebol – e lances inesquecíveis que ninguém lembrava.

Quando o repórter está realmente criativo e quer ousar pra valer, ele faz uma mistura dos 3 tipos acima descritos, como por exemplo a família do jogador assistindo ao jogo, tendo reações exageradas e saindo para comemorar na rua vazia. Dada a qualidade da nossa imprensa esportiva, não dá para esperar muito mais do que isso.

Claro, se Dunga ganhar a Copa, a imprensa vai babar ovo e lamber o saco dele, vai elogiar a coerência de não convocar os jogadores que todo mundo pediu e transformá-lo em herói nacional. Mas se ele perder, a mesma imprensa vai xingar, descer o cacete, humilhar e destruir, vai criticar a teimosia de não ter convocado os jogadores que todo mundo pediu e só ele não queria escutar, vai transformá-lo em vilão nacional. A mídia não precisa ser coerente, ela pode mudar de opinião ao sabor do vento e dos fatos, ela escreve o que for conveniente, pois afinal é preciso vender.

Além da mídia enlouquecida, teremos os torcedores enlouquecidos. Pessoas que só são patriotas a cada 4 anos surgirão aos montes, pensei até em mandar esse gráfico para o graphjam:

O patriotismo de conveniência do brasileiro

"Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor, com muita hipocrisia"

Eu sempre achei estranho esse negócio de só ser patriota quando tem Copa do mundo, mas se pensarmos bem, até que faz sentido. Acompanhe:

Vivemos num país de merda, lotado de bandidos de todas as espécies: assaltantes, estupradores, sequestradores, traficantes, políticos corruptos – duas redundâncias no mesmo texto, assim não dá – que infelizmente predominam, mandam e comandam. Quem prefere ser otário honesto, é massacrado por impostos de mão única (eles só vão, nunca voltam), que comem mais de 4 meses do nosso trabalho todo ano, que vão parar no bolso dos filhos da puta que foram eleitos por este povo ignorante. Um desses malditos em particular resolveu fazer acordos nucleares com países que só ele acredita serem pacíficos e bonzinhos. Eu estou só esperando até surgirem os primeiros embargos e sanções econômicas, e se hoje reclamamos que o Brasil tem o iPod mais caro do mundo, pode ser que amanhã não tenhamos nenhum.

Vivemos num país desgraçado, onde todos querem se dar bem e ninguém pensa no coletivo (exceto, é claro, no treino coletivo da seleção). Os guardanapos do MacDonald’s deixaram de ser à vontade porque a galera abusava, pegava 20 mas só usava 2. Hoje temos que nos contentar com 1 folhinha vagabunda miguelada. Em Berlim tem um restaurante onde você escolhe quanto quer pagar (que nem as Casas Bahia, só que de verdade) e adivinha, os brasileiros são os que mais dão problema. Em vários países tem avisos alertando contra a presença de brasileiros, que são sinônimo de problema. Nossa má reputação nos precede, somos um povinho desgraçado vivendo num país idem.

Ou seja, tirando o futebol, nada, absolutamente NADA que existe nesse país tem alguma chance de nos dar orgulho de ter nascido aqui. O futebol é a única coisa que tem alguma chance de dar algum orgulho, de acender, nem que seja só um pouquinho, a chama do patriotismo, mesmo que seja esse pseudo-patriotismo capenga que temos. Todo o resto só nos dá vergonha, não dá para bater no peito e dizer que somos campeões mundiais em pedidos de retirada de conteúdo do google, nem que somos foda pra caralho porque temos uma das piores distribuições de renda do mundo.

Por todo o resto do país ser uma merda, a única coisa que às vezes nos dá alegria é o futebol. Não é o ideal em termos de patriotismo, sequer em termos de país, mas infelizmente é o que temos. Só nos resta torcer, e por algo que nem vai mudar nossas vidas.

Pelo menos vou poder me gabar de ter acertado todas as previsões. Infelizmente.

É Natal!

Pelo menos para o comércio, já é. Há um mês atrás já estavam vendendo panetones – por sinal cada vez mais caros – e agora os shoppings já começam a montar suas espalhafatosas decorações. Luzes e mais luzes piscando sem parar, gastando toda a energia que seria economizada com o horário de verão.

Que o Natal hoje em dia é uma data puramente comercial, não há mais dúvida. Só que a cada ano que passa, ele “começa” com mais antecedência, o que não deixa de ser coerente. Resolveram assumir de vez o aspecto puramente capitalista desta data e estão tentando lucrar o máximo possível. Pra que esperar até dezembro? Vamos tentar vender os estoques encalhados desde o dia dos pais, e quanto antes começarmos, melhor. Esperar o verão chegar para lançar a nova coleção? Com o clima do planeta cada vez mais maluco, nada garante que vai fazer calor na estação mais quente do ano. E aquela massa de panetone que não usamos no ano passado e mesmo fazendo milhões de colombas pascais, ainda assim sobrou? Não precisa jogar fora, pode guardar que até no máximo setembro começaremos a usar de novo.

Não vai demorar muito para termos um Natal comercial que dura o ano todo. Talvez a decoração não chegue a tanto – pode ser que o apagão definitivo ocorra antes – mas que teremos panetones nos 12 meses do ano eu não tenho dúvida. É apenas uma questão de tempo.

É uma pena que isso só ocorre com um dos lados do Natal. Já o outro lado – aquele do amor, paz, etc e tal – é meio que esquecido. Só aparece em 2 lugares: nas frases bonitas da publicidade, com o intuito de vender, e nos cartões de Natal, nem sempre sinceros. Ambos sempre dizem que o Natal é época de paz, amor, harmonia e compreensão entre as pessoas. Eu discordo.

TODO DIA deveria ser época de ser bom, educado, compreensivo e de tratar bem as pessoas. Será possível que nos tornamos tão hipócritas a ponto de só lembrar disso uma vez por ano, e mesmo assim raramente agir de acordo? Se todo mundo se lembrasse de tudo isso pelo menos uma vez por dia, o mundo seria um lugar menos insuportável de se viver.

Infelizmente o lado $$$$$ do natal é o único que tem grandes chances de ocupar os 12 meses do ano. Já o lado que realmente faria alguma diferença nas nossas vidas tende a desaparecer completamente.

Pois é, pelo jeito Papai-Noel literal e metaforicamente não existe mesmo.

Cascão hoje em dia não teria chance

Domingo passado fui ver a exposição de 50 anos de Maurício de Souza. Simplesmente fantástica! Adorei saber um pouco mais sobre um dos ídolos da minha infância. Desde suas origens, do primeiro quadrinho até a fama internacional, é impossível não perceber toda a simplicidade e sensibilidade que só se encontra nos gênios. Entre tantas curiosidades, pude ver o verdadeiro Sansão de pelúcia – idêntico ao do gibi, só que um pouco mais sujo e rasgado – e descobrir algo bombástico: você sabia que – é melhor se segurar, a revelação é inacreditavelmente chocante – o Cascão já tomou banho?

É isso mesmo. Foi em uma daquelas tirinhas antigas, em preto e branco, quando os personagens tinham um traço bem diferente do atual. Cascão aparece limpo, e Cebolinha pergunta abismado o que aconteceu. Cascão responde que sua mãe não pediu presente de dia das mães, pediu apenas que ele tomasse um banho. “Ela merece”, diz ele, com uma lágrima escorrendo do canto do olho. Sem grande alarde, sem uma capa chamativa com letras garrafais anunciando o momento histórico, sem nada dessas coisas que fariam atualmente. Aliás, os roteiristas deveriam pesquisar um pouco mais antes de afirmar nas historinhas que o Cascão nunca tomou banho. Tiraria toda a mística do personagem, mas fazer o quê.

Mas uma coisa é certa: somos gratos por Maurício de Souza ter criado seus personagens naquela época. Hoje em dia, nestes tempos terrivelmente chatos politicamente corretos, Cascão e todo o resto da turma não teriam a menor chance. Legiões de pais enfurecidos fariam campanha contra ele, por ser uma péssima influência para seus filhos. Imagina, uma turma só de crianças desajustadas: uma não toma banho, outra fala elado, outra bate em todo mundo, outra come sem parar. Talvez os três últimos ainda pudessem ter alguma chance, mas o Cascão seria massacrado. E tudo isso, claro, para “proteger nossos filhos”.

Acho que Maurício só não é pentelhado por pais insandecidos porque os personagens já são famosos. Pobre Adão Iturrusgarai que não tem a mesma sorte. Além disso, o tempo provou que a turma da Mônica não influencia negativamente as crianças, do contrário teríamos uma geração inteira fedendo e uma lefolma oltogláfica abolindo de vez o “R”. Outro fator que pode ter ajudado é que os pais antigamente se preocupavam mais em educar seus filhos do que em deixar que a escola e a TV fizessem isso por eles. Traduzindo, minha mãe deixava eu ler os gibis do Cascão, mas logo depois mandava eu ir tomar banho, explicando porque isso é importante, etc e tal. E uma boa educação supera qualquer suposta influência que um gibi possa ter.

A praga do politicamente correto está deixando o mundo muito chato e sem graça. O humor já não é mais o mesmo, todo mundo patrulha tudo, procurando cabelo em ovo e pior, encontrando dizendo que encontrou! Ninguém pode zuar as “minorias” (entenda isso como quiser), as únicas piadas permitidas são as de argentino. Ninguém mais entende um texto irônico, quanto mais um comentário com sarcasmo. Foi criada uma variação da lei de Murphy: se existe a possibilidade de alguém se ofender com a piada, então alguém certamente se ofenderá. E geralmente processará o autor, e em muitos casos poderá até ganhar. É um saco.

Muitos exaltam por aí os nossos “tempos modernos”, a (r)evolução da sociedade, blábláblá. Tecnologicamente pode até ser, mas humoristicamente falando estamos regredindo. Saudades da época em que Didi podia ser chamado de cearense cabeça-chata sem ninguém acionando os advogados para tirar o programa do ar. Daqui a pouco só vão restar porcarias no estilo Zorra Total.

Nem Maurício de Souza quis se arriscar. Ao lançar a versão teen da turma da Mônica, retirou tudo que é ofensivo politicamente incorreto: o Cebolinha passou a ir na fono e agora fala certo, o Cascão toma banho, a Magali não engole mais uma melancia de uma vez e por aí vai. Na boa, sou muito mais esta versão aqui.

Essa merda de politicamente correto já atingiu o limite do insuportável. Nem gênios como Maurício de Souza escapam dessa praga maldita. Qualquer tentativa de um humor mais ácido é vista como ofensiva e não raro é processada. Neste cenário desolador, não há a menor chance de surgir o melhor tipo de comediante: os sarcásticos. Se nunca viu um, eu sugiro George Carlin.

Assista antes que alguém se ofenda e resolva processar o youtube.

Update: falando em politicamente correto, hoje li um post genial sobre o assunto.

Hipócrita ou ingênuo?

Outro dia escrevi sobre pirataria. Disse que estava maravilhado pelo fato de, depois de muito tempo, ter comprado um CD original por um preço justo (não aquele absurdo que costumam cobrar). Fiquei tão empolgado que comecei a escrever sobre as vantagens de se comprar original, que CD e DVD pirata não vale a pena, etc e tal.

Hoje esta opinião está um pouco, digamos, abalada, ela não está mais tão radical. No caso de DVD’s, continuo achando que não vale a pena. Os filmes piratas são toscos, muitos são filmados no cinema com vultos passando na frente da tela, som horrível misturado com as conversas, enfim, uma merda total. Claro que os DVD’s ainda não estão com um preço que eu considero justo (40 reais por uma caixinha vagabunda, sem encarte nem porra nenhuma? Por favor…), mas não estão tão fora da realidade, e eu acabo comprando. Tem CD que custa mais que isso, e nem é tão bom assim. Sem contar que downloads são demorados e nem sempre vem o que você quer.

No caso dos CD’s, é meio discutível. O álbum que eu menciono no link acima custou menos de 20 reais. E eu comprei no ano passado. E era lançamento. Tudo bem, foi uma promoção, mas hoje não está tão mais caro assim. O preço era justo e realista. Agora se esse mesmo CD custasse o que costuma custar um lançamento, provavelmente eu não compraria. Ou faria o download, ou pediria para alguém que já fez o download, ou desencanaria. Enquanto a Amazon, Apple ou qualquer outra empresa não decidir vender mp3 no Brasil, são as únicas opções que temos. Sim, eu pagaria 2 reais por uma música, melhor que pagar 40 reais num CD e descobrir que só 3 músicas prestam.

Mas o que abalou mesmo as minhas opiniões foram os jogos de video-game. Eu já havia comprado God of War 2 original, veio cheio de extras, entrevistas, enfim, valeu a pena o investimento. Mas daí eu resolvi jogar Guitar Hero. Esse jogo está muito, mas muito longe de ter preços realistas. Importar pode ser uma opção, mas a Amazon não entrega no Brasil (entrega até pra Arábia Saudita, mas pro Brasil, neca). Já tentei comprar em outros sites, mas o frete sai tão caro que acaba saindo quase o mesmo preço. Comprar original? PQP, se eu cagasse dinheiro, quem sabe.

Pois é, a questão do preço, que muitos usam como desculpa para piratear sem dó, no meu caso conseguiu abalar minha outrora forte convicção de que nunca mais compraria nada pirata. Mas não resisti, comprei um jogo de video-game de “déiz reáu”, depois de muito relutar. Também comprei a guitarra “genérica”. Não sei se fui hipócrita por comprar o jogo alguns meses depois de afirmar que não o faria, ou se fui ingênuo ao achar que, só porque comprei um CD original de 19 reais, nunca mais sucumbiria às tentações da pirataria.

Acho que no fundo, fui um pouco dos dois, pendendo mais para a hipocrisia. Podem jogar as pedras.

Economizando não só em casa

Outro dia vi uma reportagem interessante mostrando onde a água do mundo todo é usada. E algo que me chamou muito a atenção é que, de toda a água que a humanidade usa, nada menos do que 90% (preste atenção, noventa porcento, ou seja, quase tudo) é usada pela agropecuária e indústria. Apenas 10% é consumida por nós, meras pessoas físicas mortais.

Agora pense comigo, até que ponto são realmente efetivas as campanhas para economizar água? Não estou dizendo para desperdiçarmos, afinal escovar os dentes com a torneira ligada e tomar banhos de meia-hora são uma grande estupidez, com consequências direta$ e indiretas. Mas eu não vejo campanhas para conscientizar e incentivar a indústria e o agro-negócio a economizarem água. Afinal, se eles são responsáveis por 90% do consumo, é injusto jogar toda a culpa nos usuários domésticos.

Algo parecido deve acontecer com a energia elétrica. Um hiper-mercado 24 horas deve gastar mais em um dia do que todos os clientes que passaram por ali nesse mesmo dia. A empresa onde trabalho também deve gastar mais do que todos os funcionários juntos, já que muita gente passa mais tempo ali do que em casa. E mesmo que não passe, a maior parte do tempo que ficamos em casa estamos dormindo. Pelo menos é o meu caso, só uso as luzes de casa durante poucas horas do dia. Já no trabalho, são mais de 8 horas diárias. No entanto, as campanhas são sempre voltadas para o usuário doméstico. Nesse mundo politicamente correto, onde toda empresa quer ser “verde”, parece uma incoerência direcionar todo o esforço justamente para quem gasta menos.

Claro que, como cidadãos conscientes, responsáveis e etc, devemos fazer a nossa parte. Mas não adianta nada se os “grandes” não fizerem.

update: O Sávio deu uma grande idéia para economizarmos água. Ainda é focada no usuário doméstico, mas creio ser adaptável para o usuário, digamos, “corporativo”