Duelo dos Aeroportos (ou O Prenúncio do Caos)

Este ano fui para a Inglaterra 2 vezes (calma, foi a trabalho; não estou com essa bola toda) e foi interessante – para não dizer desanimador – ver as diferenças entre os aeroportos daqui e de lá. Sei que é covardia, mas vamos fazer uma comparação entre Cumbica (Guarulhos) e Heathrow (Londres).

As viagens que fiz foram em março e setembro, mas não era feriado em nenhum dos 2 países, nenhuma data especial que justificasse algum fluxo anormal, muito menos temporada de férias nem nada do tipo. Claro que apenas 2 viagens não constituem uma amostragem estatisticamente relevante, mas a menos que eu tenha sido muito azarado, o que eu presenciei não deve estar muito fora da realidade, acredito que deva estar “na média”. Os fatos relatados não estão necessariamente em ordem cronológica, já que misturei situações das 2 viagens, mas a ideia aqui é comparar os aeroportos e não relatar sequencialmente os fatos.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Embarque

Em Guarulhos tive 2 experiências: uma péssima e outra nem tanto. Na primeira vez, peguei uma fila de quase 1 hora e meia para fazer o check-in. Na segunda, tive mais sorte e demorei apenas 30 minutos.

Já em Londres, demorei 5 minutos na primeira vez (nem dá pra chamar aquilo de fila) e 30 minutos na segunda. Não sei se dei uma puta sorte na primeira vez, mas de qualquer forma também dei sorte em Guarulhos na segunda vez, já que logo depois que eu despachei minha mala a fila tinha dobrado de tamanho. Acho que no fim não foi sorte, eu é que cheguei cedo mesmo.

Decolagem

Em Guarulhos tive atrasos de 2 horas na primeira vez e 1 hora na segunda, em Londres tive apenas atraso de meia hora na segunda vez. Na primeira viagem, acredite, o vôo saiu no horário! Foi a primeira vez na vida que eu vi um avião sair no horário, incrível não ter chovido.

Falando nisso, em nenhuma das vezes estava chovendo, nevando ou tendo qualquer outro fenômeno natural que justificasse o atraso. Deve ter sido incompetência mesmo.

Desembarque

Na primeira viagem, a fila da imigração em Londres foi rápida, uns 20 minutos. Na volta, em Guarulhos, demorou mais de 1 hora. Já na segunda vez, foi o contrário: em Londres fiquei mais de 1 hora, em Guarulhos fiquei uns 20 minutos. Vai entender.

Em compensação, pegar as malas em Londres é um processo absurdamente mais simples e menos penoso do que em Guarulhos. Em Londres as malas chegam na esteira muito antes de você (em Guarulhos é o contrário). Além disso as esteiras de Heathrow são grandes, comportando várias pessoas de uma vez, e o saguão é bem espaçoso, permitindo que todos consigam transitar com suas malas gigantes sem esbarrar em ninguém. E os carrinhos estão todos em perfeito estado, ao contrário de Guarulhos, onde tive que verificar 3 carrinhos até achar um decente (um tinha a roda torta, outro não virava, etc).

Já a esteira de Guarulhos é ridícula, na primeira vez ficamos 40 minutos que nem idiotas olhando para a esteira, esperando as malas começarem a ser descarregadas! É isso mesmo, chegamos todos na esteira (depois de 1 hora na fila da imigração), e depois de 40 minutos é anunciado que as nossas malas começaram a ser descarregadas! Isso porque eu olhei em volta e no painel, e vi que só tinha o nosso vôo!!! Simplesmente ridículo, será que eles levam as malas uma a uma?

Na segunda vez foi ainda pior. Tinha mais uns 5 vôos chegando na mesma hora e foi aí que eu vi uma cena epicamente patética: um congestionamento de carrinhos de mala! Isso mesmo, toda a galera dessa meia dúzia de vôos pegou as malas ao mesmo tempo (depois de esperar 40 minutos por elas, claro) e quando todos foram tentar sair, o negócio simplesmente travou! Era tanta gente tentando sair ao mesmo tempo que ninguém conseguia sair do lugar, foi ridículo!

Na verdade não era tanta gente assim (meia dúzia de vôos para um aeroporto de uma cidade que quer receber uma Copa do mundo? Deveria ser pouco, mas esqueci que estamos no Brasil…), o problema é que aquele saguãozinho de merda não tem espaço suficiente (se chegarem 2 vôos ao mesmo tempo já fudeu tudo), as esteiras são pequenas e o serviço de levar as malas até elas é ineficiente. Além disso havia apenas uma funcionária tentando – em vão – organizar a fila. É isso aí, UMA pessoa tentando organizar centenas. E digo mais, uma pessoa totalmente perdida, sem preparo nenhum, gritando com os passageiros, perdendo o controle da situação, estressando a tudo e todos (inclusive ela própria). Preciso dizer que a fila foi improvisada, e por isso era toda torta e confusa? É com esse maldito jeitinho brasileiro que pretendemos receber milhares de turistas para a Copa?
E ainda por cima conseguiram a façanha de quebrar o cadeado da minha mala! Parabéns a todos os envolvidos!

E pensar que alguns minutos antes eu estava feliz porque a fila da imigração foi rápida. O Brasil é assim mesmo, quando não faz merda na entrada, faz na saída.

Infraestrutura

Até aqui estamos perdendo feio, mas se preparem que agora sim vem a humilhação.

Heathrow tem 3 estações do metrô que servem a diferentes terminais do aeroporto. TRÊS estações!! TRÊS!!!! No mesmo aeroporto!!! Guarulhos tem… cof cof… deixa pra lá.

Sem contar que você também pode ir para Heathrow de trem, ônibus e até de bicicleta! Ah sim, alguém já viu a estrutura de transportes públicos de Londres? É tudo integrado, pontual e eficiente. Claro que não é perfeito, deve atrasar e quebrar às vezes, mas mesmo assim deixa a gente no chinelo. Enquanto isso, São Paulo está em algum canto, se escondendo de vergonha, sonhando com o trem que vai até o aeroporto. Meu palpite é que NÃO vai ficar pronto até a Copa e que o preço vai ser abusivo.

Obviamente você também pode ir de carro ao aeroporto, e neste item também somos humilhados. Heathrow tem vários estacionamentos em volta, servidos por linhas de ônibus que te levam aos terminais do aeroporto de graça. Em um desses estacionamentos, tinha mais de 6 pontos! É isso mesmo, 6 pontos de ônibus DENTRO do estacionamento!! Correção: dentro de UM DOS estacionamentos!! Já mencionei que esses ônibus são de graça?

Enquanto isso, em Guarulhos, o único e pateticamente minúsculo estacionamento já estourou o limite. Como bem reparado neste fórum, qualquer Carrefour ou shopping center tem mais vagas que o nosso querido aeroporto de merda!

Sites

Para terminar a surra, compare os sites de Heathrow e de Cumbica e tire suas próprias conclusões. Não falo nem de layout e outras frescuras, falo da quantidade e qualidade das informações que cada um possui. Isso porque o nosso aeroporto é menor que o deles, teoricamente seria bem mais fácil fazer um site completo e abrangente sobre tudo que tem lá. Mas nem isso conseguimos fazer direito.

E para fechar com chave de “ouro”, uma pérola: achei um site que parece ser exclusivamente do estacionamento do aeroporto. Só tem um detalhe: não tem uma informação útil! Nem o “clique aqui” é clicável! (pode procurar, não é mesmo!)

Para piorar, às vezes parece que foi uma criança de 5 anos que escreveu os textos. Na seção de “Vantagens”, é dito que “O valor é outra vantagem, pois geralmente o aeroporto não fica próximo a sua residência e o valor do taxi fica alto”. É isso mesmo, táxi sem acento. Sem falar da constatação “genial” de que a maioria das pessoas mora longe do aeroporto. Já li todo o conteúdo – que não é muito – e não sei se choro ou dou risada.

Eu desisto.

Triste conclusão

Não adianta, podemos nos orgulhar de ser um povo alegre, “que não desiste nunca”, que sempre dá um jeito pra tudo, e aquela baboseira toda, mas nunca seremos um país realmente sério, onde as coisas funcionam de verdade. O nosso principal aeroporto está no limite (se é que já não passou) e o governo acha que está tudo certo para receber a Copa e as Olimpíadas. Nem vou entrar no mérito do nosso dinheiro sendo usado e abusado nesta “grande festa”, estou focando apenas na infraestrutura, que é só a ponta do iceberg.

Eu quero estar bem longe do aeroporto quando os turistas chegarem. Prevejo caos, desordem e o governo tentando encobrir e fingindo que está tudo bem (ainda mais se for a Dilma, que deve seguir o estilo Lula do “eu-não-sabia-é-tudo-invenção-da-imprensa”). Alguém duvida que vai ser diferente?

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O Caos sempre existiu

Nunca fui muito fã de aeroportos. Quando pequeno só fui no aeroporto de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça (desses sim eu era fã). Mas eu não era aficcionado por aviões, nem queria ser piloto. E acredito ser exceção, pois pelas minhas estatísticas pessoais e portanto não confiáveis (mais conhecidas como “achômetro”), quase toda criança já quis ser piloto de avião. Não que eu odiasse aeronaves. Tive um jatinho de brinquedo (devia ser do Comandos em Ação, febre da época), e gostava de brincar com ele. Joguei muito Super Trunfo, inclusive o de aviões. Mas o fato dessas brincadeiras envolverem aviões não tinha nada de especial. Era apenas mais um brinquedo, nem melhor, nem pior.

Apesar disso, na primeira vez que fui para o aeroporto de Guarulhos, não resisti à vontade de ir ver os aviões pousando e decolando. Lá tinha – faz tempo que não vejo, mas ainda deve ter – uma parede de vidro pela qual podíamos ver a pista, e dava para ter uma visão perfeita dos aviões subindo e descendo. Após o pouso, o avião se aproximava de nós lentamente e ia ficando cada vez maior. Muito legal. Meu primeiro vôo não foi nesse dia, tinha ido apenas buscar um parente que voltava do Japão. Nesse dia percebi que era uma ótima distração ver os aviões indo e vindo do aeroporto: “Olha, um da JAL! Será que é esse?”

Alguns anos depois (entre 2002 e 2003, não me lembro direito), fiz minha primeira viagem aérea. Pena que não foi um passeio. Embarquei na ponte-aérea, o ridículo-de-tão-rápido trajeto de 40 minutos – de vôo, porque na verdade demora bem mais – entre São Paulo e Rio. Apesar da experiência de voar pela primeira vez – que nem é tão fascinante assim, como algumas pessoas costumam dizer – o que me marcou mesmo foi a desorganização. Achei incrível que nenhum vôo conseguia sair no horário. Pior, muitos atrasavam horas. Até a presente data eu só tinha viajado de ônibus, e na rodoviária os atrasos eram raros. E quando ocorriam, nunca duravam mais do que 30 minutos. Pensei que aviões, por serem mais caros, avançados e modernos, fossem mais pontuais. Quanta ingenuidade.

Foi a partir daí que eu passei a detestar aeroportos. Nunca – nunca mesmo – consegui embarcar no horário, mesmo chegando duas horas antes para fazer o maldito check-in (um procedimento burocrático ridículo para o qual já deveriam ter pensado em uma alternativa menos trabalhosa) e esperando o horário do vôo, apenas para ser informado que o mesmo vai atrasar em algumas horas. E olha que todos os meus vôos foram antes do acidente da Gol, quando ainda não existia todo esse caos aéreo.

Pois quer saber? Eu acho que existia sim. Podia ser em uma escala bem menor que a atual, e sem uma cobertura maciça da mídia, mas de certa forma existia. Desde sempre – pelo menos, desde que voei pela primeira vez – os vôos atrasam, alguns de forma absurda. Já fiquei horas perambulando pelo aeroporto esperando um vôo sem previsão de saída. Não aguentava mais ficar de pé – não tinha mais lugar para sentar, dada a quantidade de gente esperando por seus vôos, também atrasados – nem ficar andando pelo aeroporto. Já havia lido todas as revistas que tinha e não estava disposto a comprar mais – se eu tivesse feito isso, ficaria sem dinheiro, dada a demora daquele maldito vôo. E isso foi bem antes dessa confusão toda de Anac, fechamento do aeroporto, etc etc etc. Hoje deve estar pior.

Ainda bem que não viajo de avião com frequência. Pode ser o meio estatisticamente mais seguro, mais rápido e mais moderno, mas para mim também é o mais estressante, mais trabalhoso (na rodoviária não tem check-in, você simplesmente chega e sobe no ônibus) e mais desorganizado (overbook deveria ser proibido, e o valor da passagem ressarcido de forma proporcional ao atraso, algo como 50% do valor por hora de atraso).

E minha bagagem nunca extraviou na rodoviária.