Nunca seremos

Assistir Tropa de Elite 2 me deixou deprimido.

Não porque achei o filme ruim. Muito pelo contrário, ele é muito bom, pau a pau com o primeiro. Talvez seja até melhor, pois ao se aprofundar ainda mais nas entranhas do “sistema”, me mostrou uma realidade maldita que no fundo eu já sabia que existia, mas nunca tinha visto de maneira tão escancarada. E foi justamente isso que me deprimiu.

Não pense que sou ingênuo. Nós sempre soubemos que há corrupção em todas as esferas do poder, que aos que mandam não interessa educar as pessoas, dar moradia decente, equipar a polícia, zelar pelo bem do povo, nada disso. No fundo sabemos que tanto faz o partido que ganha as eleições, vai continuar sempre a mesma coisa. Talvez os meios mudem, mas o fim será sempre o mesmo: manter-se lá em cima, não importa como. Sempre soubemos disso. O que o filme faz é mostrar em detalhes como isso tudo se desenrola, como sempre haverá gente disposta a se aproveitar do sistema até as últimas consequências e como estamos vulneráveis a este inevitável cenário. E ao nos mostrar tudo isso acaba com qualquer esperança que alguém por acaso ainda possa ter. Não, o país não vai melhorar, não adianta correr, não adianta reclamar, não adianta desabafar no seu blog. Não há solução.

Quebrou-se o tráfico, surgiram as milícias. Mata-se uma mosca, surge outra. O problema não são as moscas, e sim a merda. Enquanto ninguém limpá-la, vão surgir mais moscas. Não adianta aumentar a dose de inseticida, tem que botar uma rolha no cú de quem caga esta merda toda em cima de nós. Só que estes cús estão lá longe, intocáveis, em seus gabinetes cheios de parentes-assessores, usando e abusando do nosso dinheiro, protegidos pela burocracia e corrupção. E eles cagam em cima de nós, incessantemente, sem parar.

Escolas que não ensinam, hospitais que não curam, justiça que não pune, segurança que não protege, infraestrutura que não suporta, nada funciona e tudo tem um motivo para ser assim. Não há interesse em mudar, e os poucos que querem reverter este quadro estão sozinhos e não conseguem ir muito longe (alguns são desmoralizados, outros levam tiro pelas costas). Quantas vezes você não ouviu aquela história de que existem políticos honestos, mas são tão poucos e sua influência é tão pequena que nada podem fazer? Agora tivemos a triste confirmação. A merda que jogam em cima de nós é muito maior do que as pás que temos para limpá-la.

A conclusão do narrador, triste e real – ou triste porque real – tendo como fundo um vôo sobre Brasília, é a lápide de pedra posta sobre nós, é o golpe de misericórdia que encerra a sequência de socos no estômago que o filme nos dá, é a constatação final, cruel e inevitável de que no fim vai dar tudo errado, o que só faz aumentar a nossa melancolia, nossa miséria, nossa impotência, nossa eterna sina de sermos sempre o país do futuro, mas de um futuro que nunca chega, que nunca chegará.

A depressão que tomou conta de mim logo após os créditos surgiu não porque eu já sabia de tudo isso, mas sim porque esta visão foi ampliada, jogada na minha cara sem dó, em uma dimensão maior do que eu poderia supor. Assim como o protagonista, eu não fazia ideia do tamanho do problema. Já tinha lido matérias sobre as milícias, mas nunca nesse nível de detalhe. A corrupção rola solta, a população é usada como massa de manobra, vale até matar qualquer um para garantir mais votos. Eu sempre “soube” dessas coisas, mas meu descontentamento – e consequente distanciamento – com relação à política nunca me fez pensar a fundo nisso tudo. É muito, mas muito pior do que eu imaginava, e olha que eu já era bem pessimista com relação ao Brasil. E se pensarmos que o filme amenizou vários fatos e situações, saber que a realidade é bem pior me deixa ainda mais deprimido.

Talvez a única coisa que nos resta é fazer o que o próprio Nascimento disse: ao invés de se entregar à depressão, se tornou ainda mais forte e determinado. Não que isso vá mudar muita coisa, mas ao menos impedirá alguns suicídios. Afinal, como o próprio filme conclui, vai continuar morrendo muita gente inocente, e os verdadeiros responsáveis vão continuar não dando a mínima.

Brasil, país decente, sério e desenvolvido? Como diria o Bope: “Nunca serão!”

Onde está WALL-E?

WALL-E é foda. Ponto.

Fazia muito tempo que eu não ficava maluco com um filme. De uns tempos pra cá eu simplesmente gostava dos filmes, mais de uns, menos de outros, mas nenhum me deixava realmente empolgado. Nenhum tinha o mesmo efeito que tiveram, por exemplo, Indiana Jones (todos os três), De Volta Para o Futuro (os três que na verdade são um só) e o trio-brucutu (Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis). Talvez porque eu era adolescente na época, e ainda não tinha adquirido o discernimento e o cinismo típicos dos adultos. Ou então fiquei exigente – ou seria chato? – demais.

Nesse longo intervalo de nenhum-filme-me-empolga, talvez apenas Matrix tenha surtido algum efeito. Só que o terceiro filme jogou tudo para o ralo, dando aquela sensação de que nunca mais eu seria “fisgado” por um filme.

Calma, não quero dizer que odiei todos os filmes dos últimos 20 anos. Gostei de vários, tanto que não caberiam neste espaço. Muitos foram fantásticos (Clube da Luta, Tropa de Elite, O Guia do Mochileiro das Galáxias,  e por aí vai). Mas nenhum deles me deixou ao mesmo tempo maluco, viciado, maravilhado, admirado, hipnotizado, pensativo, emocionado, entorpecido.

Até hoje.

Confesso que quando vi os primeiros trailers e cartazes de WALL-E, não fiquei muito emplogado. Achei que seria apenas mais uma animação com aquela historinha de sempre: protagonista puro e ingênuo ou irresponsável mas de bom coração, par romântico que vive brigando e/ou dando broncas no protagonista mas não troca ele por nada, situações de humor,  romance, perigo, crescimento e superação (necessariamente nesta ordem, ou não), aquelas “sacadas” típicas (mostrar similaridades entre situações cotidianas e elementos inusitados, como um lava-rápido para baleias, um algodão-doce de moscas e teia de aranha ou uma maçã montanha-russa com um carrinho-minhoca) e só.

Felizmente me enganei. WALL-E é foda. Muito foda.

Bom, todo mundo já deve saber da história, das críticas, das referências e tudo mais, então não vou perder tempo escrevendo tudo de novo. Vou contar como me senti.

WALL-E é um filme que me fez pensar o tempo todo. Seja para tentar adivinhar o que estava acontecendo  (O que tanto esse robozinho branco procura? O que aconteceu com a Terra?), seja para refletir sobre tudo aquilo (E se um dia ficarmos iguais aos humanos do filme? E se a Terra ficar igual?). Você pode até achar que essa temática ecológica é batida, e infelizmente é. Mas o que importa é o modo como ela foi abordada. Existem mil maneiras de falar sobre preservação ambiental. Muitas são chatas. Outras são inteligentes. E raríssimas são como WALL-E, geniais.

Não foi só a mensagem ecológica que me prendeu, o filme todo é feito de uma maneira que me fez ficar concentrado na tela, sem piscar, sem olhar pro lado, sem lembrar que existia um mundo à minha volta. A sala do lado podia explodir, o teto cair e o chão pegar fogo e nem assim eu conseguiria desgrudar os olhos do filme. O modo como a história é contada – sem precisar de muitos diálogos – assim como a própria história em si, todas as mensagens e situações,  tudo aquilo me fez mergulhar em pensamentos e reflexões, sensações de alegria e  angústia, tristeza e alívio, raiva e ternura, preocupações de adulto e olhos brilhantes de criança, tudo de uma vez, em uma única seção de cinema. Mais que um filme, uma verdadeira experiência, uma lavada na alma e no final a sensação de leveza e um leve e discreto sorriso de satisfação.

WALL-E é o filme que eu sempre quis saber onde estava. E finalmente encontrei.

Só tenho a agradecer.