Brincar de Deus? Tá brincando…

A descoberta científica do momento – ou não, já que esse mundo globalizado muda tão rápido que qualquer notícia fica velha em questão de dias – é do Dr. James Craig Venter, que conseguiu, em termos bem simplistas, “criar vida sintética”.

Claro que o feito é bem mais complicado do que qualquer leigo poderia explicar. E por leigos leia-se a penca de jornalistas que, na falta de compreensão e criatividade, recorrem à velha expressão idiota e deveras sensacionalista que diz: “Cientista brinca de Deus” ou qualquer outra comparação superficial envolvendo o todo poderoso. Não é exatamente o que ele está fazendo, mas vende muito mais jornal do que “Cientista replica DNA de bactéria”. (Neste artigo você pode encontrar uma descrição mais detalhada, além de uma análise genial sobre o assunto e suas implicações filosóficas. Leitura mais do que recomendada.)

Os mais afoitos, devotos e/ou desinformados adoram usar a expressão “brincar de Deus”, geralmente de modo pejorativo, repulsivo ou com um certo desdém, toda vez que surge algum avanço da ciência, em especial no campo da genética. Só que eles esquecem que esses mesmos avanços possuem um potencial muito maior de salvar vidas do que qualquer ajuda divina que possa existir.

Um cientista que pesquisa células-tronco, por exemplo, não está brincando de Deus. Para começar, ele não está nem brincando, ele está fazendo um trabalho sério que pode salvar vidas, inclusive a dessas pessoas que acham que zigotos têm alma. Imagine que num futuro não muito distante, após termos ignorado os protestos da igreja, as pesquisas evoluíram a tal ponto que encontraram a cura para doenças hoje incuráveis. Imagine agora que um desses religiosos teve um filho com uma dessas doenças. Será que ele vai preferir rezar ou vai apelar para um médico e seu tratamento do demônio?

Cientistas não brincam de Deus justamente por adotarem abordagens diferentes. Preferem o “ver para crer” ao invés do “crer sem ver”, mudam suas verdades quando há provas concretas que a refutem e é graças a eles que você e eu podemos escrever em nossos blogs e qualquer pessoa do mundo pode ler. É graças aos cientistas que temos luz elétrica, celulares, carros, combustível para fazer esses carros funcionarem, eletrodomésticos e outras facilidades da vida moderna que os religiosos também usam e não conseguiriam viver sem. Se dependesse da igreja, não teríamos nem lampiões, ainda estaríamos queimando bruxas e pensando que a Terra é plana e fica no centro do universo.

Agora pense comigo, quem é que sempre quis ditar como é que as pessoas deveriam agir, pensar, falar, transar (só casando), (não) se masturbar, enfim, viver? Quem é que sempre foi dona da verdade absoluta, inquestionável, indiscutível, infalível (embora nem sempre plausível), que julga e condena quem questiona, que não nos dá provas, diz simplesmente que você deve acreditar e ponto, que resume todas as explicações a um único ser (ou seja, tem a resposta padrão para tudo), que já matou e causou guerras em nome de suas crenças?

Quem é que sempre achou que podia controlar a tudo e todos? Resumindo, quem é que sempre brincou de Deus? Isso mesmo, a religião! Dada a sua natureza, é mais do que esperado que ela fizesse isso, afinal, ela é a filial de Deus na Terra, não é mesmo? É ridículo ver que hoje a igreja é uma das primeiras a atacar a ciência, acusando-os de “brincar de Deus”, sendo que é algo que ela sempre fez, muitas vezes de forma autoritária e cruel (pergunte para os enforcados pela Inquisição).

E mesmo que a ciência esteja de fato brincando de Deus – não está, caramba! – ela com certeza produzirá algo infinitamente mais útil do que qualquer religião jamais conseguirá. Pena que os próprios religiosos não enxerguem isso.