Cascão hoje em dia não teria chance

Domingo passado fui ver a exposição de 50 anos de Maurício de Souza. Simplesmente fantástica! Adorei saber um pouco mais sobre um dos ídolos da minha infância. Desde suas origens, do primeiro quadrinho até a fama internacional, é impossível não perceber toda a simplicidade e sensibilidade que só se encontra nos gênios. Entre tantas curiosidades, pude ver o verdadeiro Sansão de pelúcia – idêntico ao do gibi, só que um pouco mais sujo e rasgado – e descobrir algo bombástico: você sabia que – é melhor se segurar, a revelação é inacreditavelmente chocante – o Cascão já tomou banho?

É isso mesmo. Foi em uma daquelas tirinhas antigas, em preto e branco, quando os personagens tinham um traço bem diferente do atual. Cascão aparece limpo, e Cebolinha pergunta abismado o que aconteceu. Cascão responde que sua mãe não pediu presente de dia das mães, pediu apenas que ele tomasse um banho. “Ela merece”, diz ele, com uma lágrima escorrendo do canto do olho. Sem grande alarde, sem uma capa chamativa com letras garrafais anunciando o momento histórico, sem nada dessas coisas que fariam atualmente. Aliás, os roteiristas deveriam pesquisar um pouco mais antes de afirmar nas historinhas que o Cascão nunca tomou banho. Tiraria toda a mística do personagem, mas fazer o quê.

Mas uma coisa é certa: somos gratos por Maurício de Souza ter criado seus personagens naquela época. Hoje em dia, nestes tempos terrivelmente chatos politicamente corretos, Cascão e todo o resto da turma não teriam a menor chance. Legiões de pais enfurecidos fariam campanha contra ele, por ser uma péssima influência para seus filhos. Imagina, uma turma só de crianças desajustadas: uma não toma banho, outra fala elado, outra bate em todo mundo, outra come sem parar. Talvez os três últimos ainda pudessem ter alguma chance, mas o Cascão seria massacrado. E tudo isso, claro, para “proteger nossos filhos”.

Acho que Maurício só não é pentelhado por pais insandecidos porque os personagens já são famosos. Pobre Adão Iturrusgarai que não tem a mesma sorte. Além disso, o tempo provou que a turma da Mônica não influencia negativamente as crianças, do contrário teríamos uma geração inteira fedendo e uma lefolma oltogláfica abolindo de vez o “R”. Outro fator que pode ter ajudado é que os pais antigamente se preocupavam mais em educar seus filhos do que em deixar que a escola e a TV fizessem isso por eles. Traduzindo, minha mãe deixava eu ler os gibis do Cascão, mas logo depois mandava eu ir tomar banho, explicando porque isso é importante, etc e tal. E uma boa educação supera qualquer suposta influência que um gibi possa ter.

A praga do politicamente correto está deixando o mundo muito chato e sem graça. O humor já não é mais o mesmo, todo mundo patrulha tudo, procurando cabelo em ovo e pior, encontrando dizendo que encontrou! Ninguém pode zuar as “minorias” (entenda isso como quiser), as únicas piadas permitidas são as de argentino. Ninguém mais entende um texto irônico, quanto mais um comentário com sarcasmo. Foi criada uma variação da lei de Murphy: se existe a possibilidade de alguém se ofender com a piada, então alguém certamente se ofenderá. E geralmente processará o autor, e em muitos casos poderá até ganhar. É um saco.

Muitos exaltam por aí os nossos “tempos modernos”, a (r)evolução da sociedade, blábláblá. Tecnologicamente pode até ser, mas humoristicamente falando estamos regredindo. Saudades da época em que Didi podia ser chamado de cearense cabeça-chata sem ninguém acionando os advogados para tirar o programa do ar. Daqui a pouco só vão restar porcarias no estilo Zorra Total.

Nem Maurício de Souza quis se arriscar. Ao lançar a versão teen da turma da Mônica, retirou tudo que é ofensivo politicamente incorreto: o Cebolinha passou a ir na fono e agora fala certo, o Cascão toma banho, a Magali não engole mais uma melancia de uma vez e por aí vai. Na boa, sou muito mais esta versão aqui.

Essa merda de politicamente correto já atingiu o limite do insuportável. Nem gênios como Maurício de Souza escapam dessa praga maldita. Qualquer tentativa de um humor mais ácido é vista como ofensiva e não raro é processada. Neste cenário desolador, não há a menor chance de surgir o melhor tipo de comediante: os sarcásticos. Se nunca viu um, eu sugiro George Carlin.

Assista antes que alguém se ofenda e resolva processar o youtube.

Update: falando em politicamente correto, hoje li um post genial sobre o assunto.

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