Reciclagem: me ajude a te ajudar

Hoje vi uma cena curiosa. Estava em um lugar que faz coleta seletiva de lixo. Ou seja, tem aquelas latas coloridas, uma para papel, outra para plástico, etc. Política e ecologicamente correto, se não fosse por um detalhe: a faxineira passou recolhendo o lixo e juntou tudo em um único saco preto gigante. Fiquei olhando e pensando: pra que separar se depois vai juntar tudo?

Quer dizer então que a coleta seletiva é só para inglês ver, para mostrar aos outros que você é consciente e se preocupa com o planeta? Mas no fundo varre tudo para baixo do tapete, não separa nada e se bobear nem encaminha o lixo para a reciclagem.

Aliás, reciclagem é um assunto tão falado mas muito pouco entendido. Para onde vai todo aquele lixo que separamos? Nos nossos prédios, nas empresas, nos shoppings, nunca parei para pensar se tudo aquilo realmente é reciclado ou se no final eles juntam tudo e não reciclam nada. A gente separa cada coisa em sua lata e esquece, achando que a partir daí tudo é encaminhado para os devidos lugares. Mas na verdade, não temos como saber se todo mundo que diz fazer coleta seletiva realmente o faz. Não há fiscalização, cobrança nem nada. Sustentabilidade é a palavra da moda, toda empresa quer ser verde, reciclar é bonito, mas parece que tem gente optando pelo caminho mais fácil: a consciência ecológica de fachada.

Mas vamos ser otimistas e acreditar que a maioria realmente encaminha o lixo para reciclagem. Ainda sim temos um problema: a desinformação. O que é reciclável e o que não é? O que pode e o que não pode ser jogado em cada lata? Guardanapo usado, por exemplo. Muitos diriam que “é óbvio que é papel”, mas já me falaram que se estiver sujo com gordura, não dá para reciclar, e vira lixo comum. E palito de sorvete? Sachê de ketchup? Embalagem de toddynho? Eu nunca sei, já procurei saber e as informações são desencontradas, ninguém sabe ao certo o quê deve ir aonde. Só latas de refrigerante que eu não tenho dúvida. Pelos menos até inventarem latas de algum outro material.

O fato é que, por mais que queiramos ajudar, fica essa sensação de que estamos apenas fingindo preocupação e brincando de reciclar. Mas como tudo no Brasil, é feito nas coxas (o maldito jeitinho), ao invés de conscientização temos dúvidas e desinformação. Eu tento fazer a minha parte, separando o lixo e tentando jogar cada coisa em sua respectiva lata, mas cada praça de alimentação tem um esquema diferente e nunca sei se joguei o lixo nos lugares corretos. Se quisermos realmente uma reciclagem efetiva, precisamos saber exatamente como proceder com cada coisa que jogamos, pois só boas intenções não vão salvar o planeta.

Como diria um personagem famoso em um contexto completamente diferente, você tem que me ajudar a te ajudar.

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Nunca seremos

Assistir Tropa de Elite 2 me deixou deprimido.

Não porque achei o filme ruim. Muito pelo contrário, ele é muito bom, pau a pau com o primeiro. Talvez seja até melhor, pois ao se aprofundar ainda mais nas entranhas do “sistema”, me mostrou uma realidade maldita que no fundo eu já sabia que existia, mas nunca tinha visto de maneira tão escancarada. E foi justamente isso que me deprimiu.

Não pense que sou ingênuo. Nós sempre soubemos que há corrupção em todas as esferas do poder, que aos que mandam não interessa educar as pessoas, dar moradia decente, equipar a polícia, zelar pelo bem do povo, nada disso. No fundo sabemos que tanto faz o partido que ganha as eleições, vai continuar sempre a mesma coisa. Talvez os meios mudem, mas o fim será sempre o mesmo: manter-se lá em cima, não importa como. Sempre soubemos disso. O que o filme faz é mostrar em detalhes como isso tudo se desenrola, como sempre haverá gente disposta a se aproveitar do sistema até as últimas consequências e como estamos vulneráveis a este inevitável cenário. E ao nos mostrar tudo isso acaba com qualquer esperança que alguém por acaso ainda possa ter. Não, o país não vai melhorar, não adianta correr, não adianta reclamar, não adianta desabafar no seu blog. Não há solução.

Quebrou-se o tráfico, surgiram as milícias. Mata-se uma mosca, surge outra. O problema não são as moscas, e sim a merda. Enquanto ninguém limpá-la, vão surgir mais moscas. Não adianta aumentar a dose de inseticida, tem que botar uma rolha no cú de quem caga esta merda toda em cima de nós. Só que estes cús estão lá longe, intocáveis, em seus gabinetes cheios de parentes-assessores, usando e abusando do nosso dinheiro, protegidos pela burocracia e corrupção. E eles cagam em cima de nós, incessantemente, sem parar.

Escolas que não ensinam, hospitais que não curam, justiça que não pune, segurança que não protege, infraestrutura que não suporta, nada funciona e tudo tem um motivo para ser assim. Não há interesse em mudar, e os poucos que querem reverter este quadro estão sozinhos e não conseguem ir muito longe (alguns são desmoralizados, outros levam tiro pelas costas). Quantas vezes você não ouviu aquela história de que existem políticos honestos, mas são tão poucos e sua influência é tão pequena que nada podem fazer? Agora tivemos a triste confirmação. A merda que jogam em cima de nós é muito maior do que as pás que temos para limpá-la.

A conclusão do narrador, triste e real – ou triste porque real – tendo como fundo um vôo sobre Brasília, é a lápide de pedra posta sobre nós, é o golpe de misericórdia que encerra a sequência de socos no estômago que o filme nos dá, é a constatação final, cruel e inevitável de que no fim vai dar tudo errado, o que só faz aumentar a nossa melancolia, nossa miséria, nossa impotência, nossa eterna sina de sermos sempre o país do futuro, mas de um futuro que nunca chega, que nunca chegará.

A depressão que tomou conta de mim logo após os créditos surgiu não porque eu já sabia de tudo isso, mas sim porque esta visão foi ampliada, jogada na minha cara sem dó, em uma dimensão maior do que eu poderia supor. Assim como o protagonista, eu não fazia ideia do tamanho do problema. Já tinha lido matérias sobre as milícias, mas nunca nesse nível de detalhe. A corrupção rola solta, a população é usada como massa de manobra, vale até matar qualquer um para garantir mais votos. Eu sempre “soube” dessas coisas, mas meu descontentamento – e consequente distanciamento – com relação à política nunca me fez pensar a fundo nisso tudo. É muito, mas muito pior do que eu imaginava, e olha que eu já era bem pessimista com relação ao Brasil. E se pensarmos que o filme amenizou vários fatos e situações, saber que a realidade é bem pior me deixa ainda mais deprimido.

Talvez a única coisa que nos resta é fazer o que o próprio Nascimento disse: ao invés de se entregar à depressão, se tornou ainda mais forte e determinado. Não que isso vá mudar muita coisa, mas ao menos impedirá alguns suicídios. Afinal, como o próprio filme conclui, vai continuar morrendo muita gente inocente, e os verdadeiros responsáveis vão continuar não dando a mínima.

Brasil, país decente, sério e desenvolvido? Como diria o Bope: “Nunca serão!”

Duelo dos Aeroportos (ou O Prenúncio do Caos)

Este ano fui para a Inglaterra 2 vezes (calma, foi a trabalho; não estou com essa bola toda) e foi interessante – para não dizer desanimador – ver as diferenças entre os aeroportos daqui e de lá. Sei que é covardia, mas vamos fazer uma comparação entre Cumbica (Guarulhos) e Heathrow (Londres).

As viagens que fiz foram em março e setembro, mas não era feriado em nenhum dos 2 países, nenhuma data especial que justificasse algum fluxo anormal, muito menos temporada de férias nem nada do tipo. Claro que apenas 2 viagens não constituem uma amostragem estatisticamente relevante, mas a menos que eu tenha sido muito azarado, o que eu presenciei não deve estar muito fora da realidade, acredito que deva estar “na média”. Os fatos relatados não estão necessariamente em ordem cronológica, já que misturei situações das 2 viagens, mas a ideia aqui é comparar os aeroportos e não relatar sequencialmente os fatos.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Embarque

Em Guarulhos tive 2 experiências: uma péssima e outra nem tanto. Na primeira vez, peguei uma fila de quase 1 hora e meia para fazer o check-in. Na segunda, tive mais sorte e demorei apenas 30 minutos.

Já em Londres, demorei 5 minutos na primeira vez (nem dá pra chamar aquilo de fila) e 30 minutos na segunda. Não sei se dei uma puta sorte na primeira vez, mas de qualquer forma também dei sorte em Guarulhos na segunda vez, já que logo depois que eu despachei minha mala a fila tinha dobrado de tamanho. Acho que no fim não foi sorte, eu é que cheguei cedo mesmo.

Decolagem

Em Guarulhos tive atrasos de 2 horas na primeira vez e 1 hora na segunda, em Londres tive apenas atraso de meia hora na segunda vez. Na primeira viagem, acredite, o vôo saiu no horário! Foi a primeira vez na vida que eu vi um avião sair no horário, incrível não ter chovido.

Falando nisso, em nenhuma das vezes estava chovendo, nevando ou tendo qualquer outro fenômeno natural que justificasse o atraso. Deve ter sido incompetência mesmo.

Desembarque

Na primeira viagem, a fila da imigração em Londres foi rápida, uns 20 minutos. Na volta, em Guarulhos, demorou mais de 1 hora. Já na segunda vez, foi o contrário: em Londres fiquei mais de 1 hora, em Guarulhos fiquei uns 20 minutos. Vai entender.

Em compensação, pegar as malas em Londres é um processo absurdamente mais simples e menos penoso do que em Guarulhos. Em Londres as malas chegam na esteira muito antes de você (em Guarulhos é o contrário). Além disso as esteiras de Heathrow são grandes, comportando várias pessoas de uma vez, e o saguão é bem espaçoso, permitindo que todos consigam transitar com suas malas gigantes sem esbarrar em ninguém. E os carrinhos estão todos em perfeito estado, ao contrário de Guarulhos, onde tive que verificar 3 carrinhos até achar um decente (um tinha a roda torta, outro não virava, etc).

Já a esteira de Guarulhos é ridícula, na primeira vez ficamos 40 minutos que nem idiotas olhando para a esteira, esperando as malas começarem a ser descarregadas! É isso mesmo, chegamos todos na esteira (depois de 1 hora na fila da imigração), e depois de 40 minutos é anunciado que as nossas malas começaram a ser descarregadas! Isso porque eu olhei em volta e no painel, e vi que só tinha o nosso vôo!!! Simplesmente ridículo, será que eles levam as malas uma a uma?

Na segunda vez foi ainda pior. Tinha mais uns 5 vôos chegando na mesma hora e foi aí que eu vi uma cena epicamente patética: um congestionamento de carrinhos de mala! Isso mesmo, toda a galera dessa meia dúzia de vôos pegou as malas ao mesmo tempo (depois de esperar 40 minutos por elas, claro) e quando todos foram tentar sair, o negócio simplesmente travou! Era tanta gente tentando sair ao mesmo tempo que ninguém conseguia sair do lugar, foi ridículo!

Na verdade não era tanta gente assim (meia dúzia de vôos para um aeroporto de uma cidade que quer receber uma Copa do mundo? Deveria ser pouco, mas esqueci que estamos no Brasil…), o problema é que aquele saguãozinho de merda não tem espaço suficiente (se chegarem 2 vôos ao mesmo tempo já fudeu tudo), as esteiras são pequenas e o serviço de levar as malas até elas é ineficiente. Além disso havia apenas uma funcionária tentando – em vão – organizar a fila. É isso aí, UMA pessoa tentando organizar centenas. E digo mais, uma pessoa totalmente perdida, sem preparo nenhum, gritando com os passageiros, perdendo o controle da situação, estressando a tudo e todos (inclusive ela própria). Preciso dizer que a fila foi improvisada, e por isso era toda torta e confusa? É com esse maldito jeitinho brasileiro que pretendemos receber milhares de turistas para a Copa?
E ainda por cima conseguiram a façanha de quebrar o cadeado da minha mala! Parabéns a todos os envolvidos!

E pensar que alguns minutos antes eu estava feliz porque a fila da imigração foi rápida. O Brasil é assim mesmo, quando não faz merda na entrada, faz na saída.

Infraestrutura

Até aqui estamos perdendo feio, mas se preparem que agora sim vem a humilhação.

Heathrow tem 3 estações do metrô que servem a diferentes terminais do aeroporto. TRÊS estações!! TRÊS!!!! No mesmo aeroporto!!! Guarulhos tem… cof cof… deixa pra lá.

Sem contar que você também pode ir para Heathrow de trem, ônibus e até de bicicleta! Ah sim, alguém já viu a estrutura de transportes públicos de Londres? É tudo integrado, pontual e eficiente. Claro que não é perfeito, deve atrasar e quebrar às vezes, mas mesmo assim deixa a gente no chinelo. Enquanto isso, São Paulo está em algum canto, se escondendo de vergonha, sonhando com o trem que vai até o aeroporto. Meu palpite é que NÃO vai ficar pronto até a Copa e que o preço vai ser abusivo.

Obviamente você também pode ir de carro ao aeroporto, e neste item também somos humilhados. Heathrow tem vários estacionamentos em volta, servidos por linhas de ônibus que te levam aos terminais do aeroporto de graça. Em um desses estacionamentos, tinha mais de 6 pontos! É isso mesmo, 6 pontos de ônibus DENTRO do estacionamento!! Correção: dentro de UM DOS estacionamentos!! Já mencionei que esses ônibus são de graça?

Enquanto isso, em Guarulhos, o único e pateticamente minúsculo estacionamento já estourou o limite. Como bem reparado neste fórum, qualquer Carrefour ou shopping center tem mais vagas que o nosso querido aeroporto de merda!

Sites

Para terminar a surra, compare os sites de Heathrow e de Cumbica e tire suas próprias conclusões. Não falo nem de layout e outras frescuras, falo da quantidade e qualidade das informações que cada um possui. Isso porque o nosso aeroporto é menor que o deles, teoricamente seria bem mais fácil fazer um site completo e abrangente sobre tudo que tem lá. Mas nem isso conseguimos fazer direito.

E para fechar com chave de “ouro”, uma pérola: achei um site que parece ser exclusivamente do estacionamento do aeroporto. Só tem um detalhe: não tem uma informação útil! Nem o “clique aqui” é clicável! (pode procurar, não é mesmo!)

Para piorar, às vezes parece que foi uma criança de 5 anos que escreveu os textos. Na seção de “Vantagens”, é dito que “O valor é outra vantagem, pois geralmente o aeroporto não fica próximo a sua residência e o valor do taxi fica alto”. É isso mesmo, táxi sem acento. Sem falar da constatação “genial” de que a maioria das pessoas mora longe do aeroporto. Já li todo o conteúdo – que não é muito – e não sei se choro ou dou risada.

Eu desisto.

Triste conclusão

Não adianta, podemos nos orgulhar de ser um povo alegre, “que não desiste nunca”, que sempre dá um jeito pra tudo, e aquela baboseira toda, mas nunca seremos um país realmente sério, onde as coisas funcionam de verdade. O nosso principal aeroporto está no limite (se é que já não passou) e o governo acha que está tudo certo para receber a Copa e as Olimpíadas. Nem vou entrar no mérito do nosso dinheiro sendo usado e abusado nesta “grande festa”, estou focando apenas na infraestrutura, que é só a ponta do iceberg.

Eu quero estar bem longe do aeroporto quando os turistas chegarem. Prevejo caos, desordem e o governo tentando encobrir e fingindo que está tudo bem (ainda mais se for a Dilma, que deve seguir o estilo Lula do “eu-não-sabia-é-tudo-invenção-da-imprensa”). Alguém duvida que vai ser diferente?

Brincar de Deus? Tá brincando…

A descoberta científica do momento – ou não, já que esse mundo globalizado muda tão rápido que qualquer notícia fica velha em questão de dias – é do Dr. James Craig Venter, que conseguiu, em termos bem simplistas, “criar vida sintética”.

Claro que o feito é bem mais complicado do que qualquer leigo poderia explicar. E por leigos leia-se a penca de jornalistas que, na falta de compreensão e criatividade, recorrem à velha expressão idiota e deveras sensacionalista que diz: “Cientista brinca de Deus” ou qualquer outra comparação superficial envolvendo o todo poderoso. Não é exatamente o que ele está fazendo, mas vende muito mais jornal do que “Cientista replica DNA de bactéria”. (Neste artigo você pode encontrar uma descrição mais detalhada, além de uma análise genial sobre o assunto e suas implicações filosóficas. Leitura mais do que recomendada.)

Os mais afoitos, devotos e/ou desinformados adoram usar a expressão “brincar de Deus”, geralmente de modo pejorativo, repulsivo ou com um certo desdém, toda vez que surge algum avanço da ciência, em especial no campo da genética. Só que eles esquecem que esses mesmos avanços possuem um potencial muito maior de salvar vidas do que qualquer ajuda divina que possa existir.

Um cientista que pesquisa células-tronco, por exemplo, não está brincando de Deus. Para começar, ele não está nem brincando, ele está fazendo um trabalho sério que pode salvar vidas, inclusive a dessas pessoas que acham que zigotos têm alma. Imagine que num futuro não muito distante, após termos ignorado os protestos da igreja, as pesquisas evoluíram a tal ponto que encontraram a cura para doenças hoje incuráveis. Imagine agora que um desses religiosos teve um filho com uma dessas doenças. Será que ele vai preferir rezar ou vai apelar para um médico e seu tratamento do demônio?

Cientistas não brincam de Deus justamente por adotarem abordagens diferentes. Preferem o “ver para crer” ao invés do “crer sem ver”, mudam suas verdades quando há provas concretas que a refutem e é graças a eles que você e eu podemos escrever em nossos blogs e qualquer pessoa do mundo pode ler. É graças aos cientistas que temos luz elétrica, celulares, carros, combustível para fazer esses carros funcionarem, eletrodomésticos e outras facilidades da vida moderna que os religiosos também usam e não conseguiriam viver sem. Se dependesse da igreja, não teríamos nem lampiões, ainda estaríamos queimando bruxas e pensando que a Terra é plana e fica no centro do universo.

Agora pense comigo, quem é que sempre quis ditar como é que as pessoas deveriam agir, pensar, falar, transar (só casando), (não) se masturbar, enfim, viver? Quem é que sempre foi dona da verdade absoluta, inquestionável, indiscutível, infalível (embora nem sempre plausível), que julga e condena quem questiona, que não nos dá provas, diz simplesmente que você deve acreditar e ponto, que resume todas as explicações a um único ser (ou seja, tem a resposta padrão para tudo), que já matou e causou guerras em nome de suas crenças?

Quem é que sempre achou que podia controlar a tudo e todos? Resumindo, quem é que sempre brincou de Deus? Isso mesmo, a religião! Dada a sua natureza, é mais do que esperado que ela fizesse isso, afinal, ela é a filial de Deus na Terra, não é mesmo? É ridículo ver que hoje a igreja é uma das primeiras a atacar a ciência, acusando-os de “brincar de Deus”, sendo que é algo que ela sempre fez, muitas vezes de forma autoritária e cruel (pergunte para os enforcados pela Inquisição).

E mesmo que a ciência esteja de fato brincando de Deus – não está, caramba! – ela com certeza produzirá algo infinitamente mais útil do que qualquer religião jamais conseguirá. Pena que os próprios religiosos não enxerguem isso.

Quem foi que disse?

Diálogo hipotético, um chega e diz:

– Pessoal, a Ju me contou que teve um acidente com um caminhão lá na estrada!

A própria Ju, que também participava da conversa, rebate:

– Peraí, eu não te contei nada, não!

– E daí? O acidente aconteceu de verdade e é isso que importa.

Esse diálogo tem uma variação, que é quando uma terceira pessoa parte em defesa da Ju, dizendo que não foi ela que disse. A partir desse momento, deixa-se de lado o assunto principal – no caso, o acidente – e começa um debate sobre a autoria do relato. Foi a Ju que contou? Se não foi ela, então quem? Uns se importam mais com a autoria, outros nem tanto.

O curioso é que, em geral, nossa tendência é dar ao autor a mesma importância do fato narrado em si, ou até mais. Em casos nos quais a falsa autoria poderia nos comprometer, é até compreensível, mas agimos assim até quando isso é irrelevante. Parece que o ser humano não gosta que coloquem palavras em sua boca.

E se em um cenário limitado, onde todos se conhecem, já é difícil evitar as falsas atribuições de relatos, imagine em um ambiente tão abrangente e desorganizado como a Internet. Proliferam-se pela rede vários textos atribuídos a Millôr Fernandes, Luís – com “s” no final, por favor – Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor, só pra citar os mais manjados. Quantos textos já te mandaram por email, dizendo “mais um texto genial do Veríssimo”?

Não faz muito tempo, recebi pela milésima vez um texto desses, e como é de praxe, dizia que “esse Veríssimo é genial”, e foi mandado para mais 93252374238 pessoas além de mim. Uma delas de cara já disse que não era do Veríssimo. A pessoa que mandou agiu da mesma forma descrita no diálogo acima, dizendo que o que importa era o conteúdo, tanto faz se foi mesmo ele que escreveu. (se tanto faz, então pra que enfatizar o autor?)

Bom, eu concordo com a pessoa que alertou sobre a falsa autoria, afinal, eu não gostaria que usassem meu nome desta maneira. Não entendo porque alguém cria um texto e solta na rede dizendo que foi outra pessoa que escreveu. Alguns são até legais, não precisam de uma muleta para tentarem ser melhores. Depois que são desmascarados, perdem toda a credibilidade e ficam marcados como “o texto falso”.

O problema é que o negócio se espalhou demais, e a desinformação é tanta que nem uma busca no google esclarece se o texto é falso ou não, pois muita gente posta em seus blogs dizendo que é verdadeiro. Só sei que o texto do palavrão não é do Veríssimo, e não foi o Jabor que escreveu sobre a mulher perfeitinha. E todos aqueles que chegam por email geralmente são falsos. Os textos verdadeiros estão nos livros e nos sites de cada autor (quando têm), e plagiadores baratos são preguiçosos demais para transcreverem e burros demais para simplesmente linkarem.

Por fim, siga a regra básica de não acreditar cegamente em tudo que está na internet. E boas leituras!

Minhas pequenas paranoias

Antes de começar, ainda não me acostumei com a ideia de escrever paranoia sem acento. Mas este não é o assunto do post.

Acho que todos, em maior ou menor grau, têm algum tipo de paranoia, por menor que seja. Neste mundo moderno em que vivemos, com milhares de picaretas, estelionatários, bandidos e afins, a paranoia mais comum é a da violência urbana. Sempre que estou dirigindo e paro em um semáforo ou congestionamento, olho o tempo todo para os lados, para o retrovisor, para a frente, quase nunca fico tranquilo. Geralmente procuro não ficar muito colado ao carro à frente e tento verificar possíveis rotas de fuga. Se estou a pé, ando rápido e olhando para trás em intervalos regulares. Se estou no meio de uma multidão, checo os bolsos a toda hora. Também visualizo rotas de fuga, chegando ao cúmulo de analisar se o piso é escorregadio, se a rua é movimentada e outros fatores que possam me atrapalhar em minha “corrida para salvar a vida”. Qualquer pessoa que não conheço é suspeita, eu olho torto para todos, sempre esperando o pior.

Claro que nem sempre fui assim. Essa maluquice toda começou após meu primeiro assalto – evidentemente no papel de vítima – e foi aumentando com o tempo. Hoje contabilizo 4 assaltos, totalizando alguns poucos trocados (não costumo andar com muito dinheiro), uma blusa, um celular e um vidro do carro quebrado (a última vez que me distraí no trânsito). Uma vez quiseram levar meu tênis, mas quando o ladrão viu que o dele era melhor, desistiu. A cada assalto a paranoia aumentava. Depois do quarto, aumentou tanto que passei a ter as atitudes malucas do parágrafo anterior. Ainda não precisei utilizar as rotas de fuga, e nem sei se na hora conseguiria reagir desse modo, mas de qualquer forma não me distraio mais na rua.

Outra paranoia começou quando comecei a receber muita correspondência bizarra. A mais estranha foi uma carta do clube dos comerciários, dizendo que eu ganhei uma câmera digital em um sorteio realizado em postos de gasolina (cuma?) e que deveria retirar o prêmio pessoalmente no referido clube, além de pagar uma taxa de qualquer coisa. Ou seja, eu ganhei um prêmio de qualidade duvidosa (pois era uma marca desconhecida) em um sorteio do qual não participei, e teria que ir até a puta que pariu (que eu nem sei se existe mesmo) para pagar por algo que não entendi do que se trata. Na hora achei que era golpe. Mesmo que não seja, não é a melhor maneira de se promover um clube, é spam da pior qualidade.

E foi após este “sorteio” que começou minha paranoia mais estranha. Sempre que vou jogar fora alguma correspondência, eu sempre rasgo meu nome e endereço em vários pedaços, de forma que em nenhum deles seja possível identifcar algum dado completo. Depois eu jogo esses pedaços em vários lixos diferentes. Aqui em casa tem um na sala, outro na cozinha e um em cada banheiro, totalizando 4 sacolas de supermercados diferentes. Além disso, eu também jogo um pedacinho em cada privada. E eu nunca levo as sacolas para o “lixo geral” do prédio no mesmo dia, dificultando assim o trabalho de eventuais vasculhadores de lixo alheio.

Claro que isso não resolve tudo. Existem outros meios de se conseguir o endereço de alguém. O link ao lado está desatualizado (meu endereço não consta, ainda bem), mas para golpistas desocupados é um prato cheio. Ainda bem que me mudei há pouco tempo, e só atualizei meu endereço em meia dúzia de lugares essenciais. Por isso hoje só recebo contas e eventuais propagandas do banco. Mas acho que vai levar um bom tempo para eu ganhar outro “sorteio”.

A vida começa aos (coloque aqui sua idade)

Uns dizem que é aos 30. Outros acham que é aos 40. Há quem diga que é só aos 50. E assim por diante, até os 90, 100, até o limite humanamente possível da idade. E sempre em múltiplos de 10 (ninguém diz que a vida começa aos 47, por exemplo). E pode reparar: quem diz isso sempre está próximo da idade que colocou na frase. Geralmente está quase chegando ou acabou de fazer.

Eu acho isso meio estranho. Se o sujeito diz que a vida começa aos X anos, dá-se a impressão de que tudo que ele fez antes disso não vale nada. Se formos pegar as idades mais comumente usadas neste caso (30, 40 e 50, pelo que costumo ouvir) veremos que muitos já serão casados, com filhos e uma carreira profissional. Se o infeliz afirma que só agora, depois de ter vivido tudo isso, é que a vida vai realmente começar, só posso ter pena dele.

Veja bem, eu não sou contra encarar a velhice com otimismo, e entendo quem vislumbra uma determinada idade como um marco para a próxima etapa de amadurecimento pessoal (embora eu ache que este seja um processo contínuo que não depende de idades múltiplas de 10). Muitos acham que ao dizer que a vida começa em determinada idade, estão demonstrando uma vontade de viver intensamente, um espírito jovem, um recado do tipo “não vou virar um velho ranzinza”. A intenção é boa e até desejável, mas o modo como escolhem dizer isso é que eu acho errado. Se você tem 50 anos e diz para os jovens que a vida só começa aos 50, está desprezando tudo que eles fazem ou ainda farão, está diminuindo todos os que são mais novos que você. E está de certa forma assumindo que nunca fez nada de bom, nada certo, nada que valha a pena lembrar.

Se você quer aproveitar sua meia-idade, sua velhice “melhor-idade” (malditos marketeiros) ou sejá-lá-qual-for-sua-idade com alegria, faça-o. Mas não me diga que a vida só começa aí. Ninguém sabe quando ela começa. Muitos acham que é no parto, com pessoas vestidas de branco e um tapa na bunda. Outros acham que é 9 meses antes, quando você sai para jantar com seu pai e volta com sua mãe. Mas o fato é que, a partir do momento em que temos alguma consciência e controle dos nossos atos, nossas vidas são por nossa conta. Ela já começou, isso não importa mais. O que importa é o que você está fazendo com ela agora, e aonde isso vai te levar.

Odeio quando as pessoas repetem frases feitas sem pensar a respeito.