Mais uma pequena evidência da idiotização da sociedade

Hoje fui jantar com a namorada. Total: R$ 32,60. Como bom casal moderno que somos, decidimos dividir a conta. Cada um com seu cartão de débito em mãos, perguntamos para a moça do caixa: “Divide por 2?”. A resposta: “Estou sem calculadora”.

Para tudo.

Como assim? Ela não quis fazer uma porcaria de divisão por 2, alegando que não tinha calculadora? Tivemos que fazer a conta de cabeça na hora – o que convenhamos não é nenhum bicho de sete cabeças – senão não conseguiríamos dividir a conta. Minto, minha namorada fez a conta e informou a moça do caixa. Eu estava paralisado em semi-estado de choque, custando a acreditar no que tinha acabado de ouvir.

O fato pode parecer bobo e corriqueiro, mas para mim evidencia a situação ridícula que a educação atingiu neste país. É mais fácil se apoiar na muleta de uma calculadora do que ensinar a fazer continha de dividir. Se o cara não tiver a maldita calculadora por perto, não consegue nem somar 1 + 1. No caso supracitado, a mulher nem ao menos se esforçou para fazer a conta, ou sequer procurou um papel e caneta para tal. Ela respondeu de bate-pronto, como se aquilo fosse algo impossível de se fazer sem sua querida muleta de calcular.

Não estou dizendo para queimar todas as calculadoras em praça pública. Só acho que ela deve ser vista como uma ferramenta que facilita, mas que não seja tão essencial a ponto de ficarmos sem ação na sua ausência. Se tiver, tudo bem, use. Se não tiver, faça a conta no papel, ou se ela for fácil (como dividir 32,6 por 2, por exemplo) faça de cabeça, mas não venha me dizer que não dá.

Estamos criando um país não só de pessoas burras, mas de pessoas preguiçosas, sem vontade de deixar de ser burro. E o pior de tudo é que toda essa mediocridade é incentivada, quando o correto seria combatê-la.

A cada dia tenho menos esperança neste país.

Me engana que eu gosto

Sempre gostei de matemática. Mesmo sabendo que ela sempre me enganou.

Primeiro aprendi a somar. Muito fácil, se você tem 4 maçãs e compra mais 3, fica com 7. Uau. E não parou por aí, depois aprendi a subtrair. Dessas 7 maçãs, você come 2, e sobram 5 para mais tarde. Fantástico. Naquela época dava até para usar os dedos, para ajudar. Mas e se eu tivesse 7 maçãs e quisesse comer 10? Minha mãe provavelmente responderia que só depois de almoçar, e mesmo assim eu teria que ir ao mercado comprar as maçãs que faltavam. Mas a professora (que na época chamávamos de “tia”) respondeu que não, meu querido, não existe esse negócio de 7 – 10. Não dá para comer mais maçãs do que você tem (na infância as analogias são bem mais fáceis). Aceitei sem questionar, afinal, comer maçãs que não existem não devia ter a menor graça.

Depois veio a multiplicação, que nada mais era do que uma soma turbinada. E com ela, a tabuada, pesadelo de 10 em cada 10 crianças. Isso me fez esquecer por um tempo a história das maçãs-que-não-podiam-ser-comidas. Mas o bicho pegou mesmo quando veio a divisão. Das quatro operações básicas, esta é a mais traiçoeira. A que tem as regras mais complicadas. A que quase nunca dava um resultado exato. E a que possui várias facetas, revelando-as aos poucos: primeiro com 2 algarismos, depois com 3, com 4 e parece que não tem fim. Depois eu descobriria que o método é o mesmo para qualquer quantidade de algarismos, mas até então era um susto atrás do outro, um nível de dificuldade crescente que parecia não ter fim (era como se um jogo de videogame não se contentasse em ter os níveis “easy”, “normal” e “hard”, tinha que ter também o “very hard”, “ultra very hard”, “ultra very almost impossible fucking hard” e por aí vai). E no meio desse emaranhado de restos e quocientes, surgiu uma dúvida: como se divide 1 por 2? Adivinhe a resposta: “não dá”. Tudo bem, vieram as férias e deixei pra lá essa história.

Mas eis que, no ano seguinte, surgem os números negativos. Eles servem para indicar que você pegou mais do que tem, e por isso ficou devendo. Isso mesmo, as maçãs inexistentes da minha infância eram, na verdade, uma dívida. Se você tem 7 maçãs e quer comer 10, então vou ficar te devendo 3, ok? Ou seja, descobri que era possível fazer a tal conta de 7 – 10. Malditos, me enganaram direitinho! O pior é que agora a analogia frutífera já não funcionava tão bem. Era meio difícil imaginar uma maçã negativa.

Não satisfeitos em quebrar meu mundinho, resolveram repetir a dose logo em seguida. Lembra aquela divisão que eu achava não existir? Pois é, meu caro, é possível sim dividir 1 por 2. Aliás, é possível dividir qualquer número por outro, desde que esse outro não seja zero. (Isso pelo menos continua sendo verdade. Quer dizer, por enquanto) Para piorar, descobri que alguns números são racionais (eles pensam? não, não é possível) enquanto outros são irracionais. Sempre quis saber quem inventou esses nomes.

Depois dessas revelações, achei que estava tudo bem. Mas a matemática ainda me traria algumas surpresas. Após descobrir a exponenciação (uma forma dos preguiçosos abreviarem uma multiplicação) e algum tempo depois, sua cara-metade, a radiciação, ouço novamente aquele discurso, no melhor estilo padre Quevedo: “non ecsiste!”. Não, raiz quadrada de número negativo não existe! Pior, qualquer raiz par de um número negativo não existe! Se for raiz ímpar, tudo bem, mas se for par, nem tente calcular (rima não proposital). Só faltou um aviso do tipo “não tente isso em casa”. Mesmo sem o aviso, eu nunca tentei.

E claro, acreditei. Se falaram que não existe, é melhor nem se preocupar muito com isso, pensei. Já é difícil calcular as raízes que existem, imagine então as que não existem. Como eu era ingênuo. Mal sabia o que o futuro me reservava. De repente, no meio de uma aula, o professor escreve “i” na lousa e diz a todos que aquilo era um número. Pior, aquilo era a raiz quadrada de um número negativo!

Como assim, fui enganado de novo?! E pior, por uma história muito mal contada. As “mentiras” anteriores eram muito mais convincentes, porque pelo menos usavam números. E matemática nada mais é que um monte de números, não? (Eu era ingênuo mesmo. Se soubesse que um dia iria descobrir que matemática de verdade só tem letras gregas…) Mas afinal de contas, como inventaram esse tal de “i”? Bom, na verdade, não inventaram. Imaginaram.

Sim, foi um choque quando o professor disse que o “i” era um número imaginário. Sensacional, hein? Quer dizer que, para resolver um problema que não tem solução, basta imaginar uma e pronto? Na hora lembrei das maçãs negativas, que também eram imaginárias, porém muito mais palpáveis do ponto de vista matemático. Claro que depois o susto passaria, e eu até descobriria que essa imaginação toda tem utilidade, mas na época achei tudo uma grande gambiarra. A matemática me pregando mais uma peça. Se eu não gostasse tanto dela, já teria desistido das ciências exatas.

A essa altura, já estava mais cético. Nunca mais acreditaria nessas limitações do tipo não-existe/não-dá, sempre haveria um cálculo maluco ou uma idéia mirabolante para resolver um problema, por mais bizarro que fosse. E depois que entrei na faculdade, bizarrices não faltaram. O problema era que agora não era tão fácil assim questionar, pois as coisas estavam muito mais difíceis de entender. Muitos teoremas (e suas famigeradas provas “dado x > y existe z tal que blá blá blá cqd.”) eram empurrados goela abaixo, apesar de muitos serem intragáveis e inquestionáveis. Saudades do tempo em que a matemática apenas me enganava, não por maldade, mas para me poupar das terríveis revelações que eu ainda não estava pronto para ouvir.

Apesar de tudo isso, ainda gosto de matemática. Mesmo depois de tantas tentativas de me enganar. Qual será a próxima?