Duelo dos Aeroportos (ou O Prenúncio do Caos)

Este ano fui para a Inglaterra 2 vezes (calma, foi a trabalho; não estou com essa bola toda) e foi interessante – para não dizer desanimador – ver as diferenças entre os aeroportos daqui e de lá. Sei que é covardia, mas vamos fazer uma comparação entre Cumbica (Guarulhos) e Heathrow (Londres).

As viagens que fiz foram em março e setembro, mas não era feriado em nenhum dos 2 países, nenhuma data especial que justificasse algum fluxo anormal, muito menos temporada de férias nem nada do tipo. Claro que apenas 2 viagens não constituem uma amostragem estatisticamente relevante, mas a menos que eu tenha sido muito azarado, o que eu presenciei não deve estar muito fora da realidade, acredito que deva estar “na média”. Os fatos relatados não estão necessariamente em ordem cronológica, já que misturei situações das 2 viagens, mas a ideia aqui é comparar os aeroportos e não relatar sequencialmente os fatos.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Embarque

Em Guarulhos tive 2 experiências: uma péssima e outra nem tanto. Na primeira vez, peguei uma fila de quase 1 hora e meia para fazer o check-in. Na segunda, tive mais sorte e demorei apenas 30 minutos.

Já em Londres, demorei 5 minutos na primeira vez (nem dá pra chamar aquilo de fila) e 30 minutos na segunda. Não sei se dei uma puta sorte na primeira vez, mas de qualquer forma também dei sorte em Guarulhos na segunda vez, já que logo depois que eu despachei minha mala a fila tinha dobrado de tamanho. Acho que no fim não foi sorte, eu é que cheguei cedo mesmo.

Decolagem

Em Guarulhos tive atrasos de 2 horas na primeira vez e 1 hora na segunda, em Londres tive apenas atraso de meia hora na segunda vez. Na primeira viagem, acredite, o vôo saiu no horário! Foi a primeira vez na vida que eu vi um avião sair no horário, incrível não ter chovido.

Falando nisso, em nenhuma das vezes estava chovendo, nevando ou tendo qualquer outro fenômeno natural que justificasse o atraso. Deve ter sido incompetência mesmo.

Desembarque

Na primeira viagem, a fila da imigração em Londres foi rápida, uns 20 minutos. Na volta, em Guarulhos, demorou mais de 1 hora. Já na segunda vez, foi o contrário: em Londres fiquei mais de 1 hora, em Guarulhos fiquei uns 20 minutos. Vai entender.

Em compensação, pegar as malas em Londres é um processo absurdamente mais simples e menos penoso do que em Guarulhos. Em Londres as malas chegam na esteira muito antes de você (em Guarulhos é o contrário). Além disso as esteiras de Heathrow são grandes, comportando várias pessoas de uma vez, e o saguão é bem espaçoso, permitindo que todos consigam transitar com suas malas gigantes sem esbarrar em ninguém. E os carrinhos estão todos em perfeito estado, ao contrário de Guarulhos, onde tive que verificar 3 carrinhos até achar um decente (um tinha a roda torta, outro não virava, etc).

Já a esteira de Guarulhos é ridícula, na primeira vez ficamos 40 minutos que nem idiotas olhando para a esteira, esperando as malas começarem a ser descarregadas! É isso mesmo, chegamos todos na esteira (depois de 1 hora na fila da imigração), e depois de 40 minutos é anunciado que as nossas malas começaram a ser descarregadas! Isso porque eu olhei em volta e no painel, e vi que só tinha o nosso vôo!!! Simplesmente ridículo, será que eles levam as malas uma a uma?

Na segunda vez foi ainda pior. Tinha mais uns 5 vôos chegando na mesma hora e foi aí que eu vi uma cena epicamente patética: um congestionamento de carrinhos de mala! Isso mesmo, toda a galera dessa meia dúzia de vôos pegou as malas ao mesmo tempo (depois de esperar 40 minutos por elas, claro) e quando todos foram tentar sair, o negócio simplesmente travou! Era tanta gente tentando sair ao mesmo tempo que ninguém conseguia sair do lugar, foi ridículo!

Na verdade não era tanta gente assim (meia dúzia de vôos para um aeroporto de uma cidade que quer receber uma Copa do mundo? Deveria ser pouco, mas esqueci que estamos no Brasil…), o problema é que aquele saguãozinho de merda não tem espaço suficiente (se chegarem 2 vôos ao mesmo tempo já fudeu tudo), as esteiras são pequenas e o serviço de levar as malas até elas é ineficiente. Além disso havia apenas uma funcionária tentando – em vão – organizar a fila. É isso aí, UMA pessoa tentando organizar centenas. E digo mais, uma pessoa totalmente perdida, sem preparo nenhum, gritando com os passageiros, perdendo o controle da situação, estressando a tudo e todos (inclusive ela própria). Preciso dizer que a fila foi improvisada, e por isso era toda torta e confusa? É com esse maldito jeitinho brasileiro que pretendemos receber milhares de turistas para a Copa?
E ainda por cima conseguiram a façanha de quebrar o cadeado da minha mala! Parabéns a todos os envolvidos!

E pensar que alguns minutos antes eu estava feliz porque a fila da imigração foi rápida. O Brasil é assim mesmo, quando não faz merda na entrada, faz na saída.

Infraestrutura

Até aqui estamos perdendo feio, mas se preparem que agora sim vem a humilhação.

Heathrow tem 3 estações do metrô que servem a diferentes terminais do aeroporto. TRÊS estações!! TRÊS!!!! No mesmo aeroporto!!! Guarulhos tem… cof cof… deixa pra lá.

Sem contar que você também pode ir para Heathrow de trem, ônibus e até de bicicleta! Ah sim, alguém já viu a estrutura de transportes públicos de Londres? É tudo integrado, pontual e eficiente. Claro que não é perfeito, deve atrasar e quebrar às vezes, mas mesmo assim deixa a gente no chinelo. Enquanto isso, São Paulo está em algum canto, se escondendo de vergonha, sonhando com o trem que vai até o aeroporto. Meu palpite é que NÃO vai ficar pronto até a Copa e que o preço vai ser abusivo.

Obviamente você também pode ir de carro ao aeroporto, e neste item também somos humilhados. Heathrow tem vários estacionamentos em volta, servidos por linhas de ônibus que te levam aos terminais do aeroporto de graça. Em um desses estacionamentos, tinha mais de 6 pontos! É isso mesmo, 6 pontos de ônibus DENTRO do estacionamento!! Correção: dentro de UM DOS estacionamentos!! Já mencionei que esses ônibus são de graça?

Enquanto isso, em Guarulhos, o único e pateticamente minúsculo estacionamento já estourou o limite. Como bem reparado neste fórum, qualquer Carrefour ou shopping center tem mais vagas que o nosso querido aeroporto de merda!

Sites

Para terminar a surra, compare os sites de Heathrow e de Cumbica e tire suas próprias conclusões. Não falo nem de layout e outras frescuras, falo da quantidade e qualidade das informações que cada um possui. Isso porque o nosso aeroporto é menor que o deles, teoricamente seria bem mais fácil fazer um site completo e abrangente sobre tudo que tem lá. Mas nem isso conseguimos fazer direito.

E para fechar com chave de “ouro”, uma pérola: achei um site que parece ser exclusivamente do estacionamento do aeroporto. Só tem um detalhe: não tem uma informação útil! Nem o “clique aqui” é clicável! (pode procurar, não é mesmo!)

Para piorar, às vezes parece que foi uma criança de 5 anos que escreveu os textos. Na seção de “Vantagens”, é dito que “O valor é outra vantagem, pois geralmente o aeroporto não fica próximo a sua residência e o valor do taxi fica alto”. É isso mesmo, táxi sem acento. Sem falar da constatação “genial” de que a maioria das pessoas mora longe do aeroporto. Já li todo o conteúdo – que não é muito – e não sei se choro ou dou risada.

Eu desisto.

Triste conclusão

Não adianta, podemos nos orgulhar de ser um povo alegre, “que não desiste nunca”, que sempre dá um jeito pra tudo, e aquela baboseira toda, mas nunca seremos um país realmente sério, onde as coisas funcionam de verdade. O nosso principal aeroporto está no limite (se é que já não passou) e o governo acha que está tudo certo para receber a Copa e as Olimpíadas. Nem vou entrar no mérito do nosso dinheiro sendo usado e abusado nesta “grande festa”, estou focando apenas na infraestrutura, que é só a ponta do iceberg.

Eu quero estar bem longe do aeroporto quando os turistas chegarem. Prevejo caos, desordem e o governo tentando encobrir e fingindo que está tudo bem (ainda mais se for a Dilma, que deve seguir o estilo Lula do “eu-não-sabia-é-tudo-invenção-da-imprensa”). Alguém duvida que vai ser diferente?

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Oi, tudo bem? Claro que não!!

Depois da experiência anterior com a Net, achei que havia chegado ao fundo do poço do inferno dos call centers. Mas não há nada tão ruim que não possa piorar. Desta vez precisei ligar para o atendimento da Oi.

No primeiro contato, a ligação estava péssima, mal dava para entender o que o atendente falava. Eu pedi para ele repetir, e é claro que ele ficou irritado, começou a gritar de forma mal educada e disse para esperar enquanto verificava sei-lá-o-que no sistema. Claro que também me pediram o DDD, número do celular, nome completo e data de nascimento (isso porque teoricamente o call center já deveria detectar qual o telefone que está ligando, mas isso seria exigir demais de uma empresa de telefonia, não é mesmo?). Depois de 5 minutos de completo silêncio, a ligação do nada é transferida.

Atende outro sujeito, a ligação novamente está ruim (o problema não é com meu aparelho, já que fiz outras ligações no mesmo dia e estava normal) e novamente o sujeito ficou irritado quando eu pedi para ele repetir o que disse devido à péssima qualidade da ligação. De novo ele me pede o DDD, número do celular, nome completo e data de nascimento (para que integrar os sistemas, não é mesmo? vamos complicar tudo para o atendimento demorar mais). Novamente silêncio de 5 minutos e nova transferência.

Atende outra pessoa, eu digo que já fui transferido 2 vezes e só gostaria de saber quem é que poderia resolver meu problema (que em tese é simples: habilitar o roaming internacional). Ela pede meus dados de novo (DDD, número de celular, nome completo e data de nascimento) e me transfere de novo.

Quarto atendente, a ligação continua ruim, eu peço para repetir e mais uma vez o sujeito fica irritado. Ora, eu não tenho culpa se um call center que basicamente usa o telefone não consegue ter a competência de ter uma linha decente sem ruídos, fique irritado com quem fez esta merda, não comigo, porra! Eu digo que quero habilitar roaming internacional e o sujeito entende que é cancelamento. (se eu quisesse cancelar, talvez não fosse tão fácil assim). Eu digo que não, explico tudo de novo, novamente é pedido meu DDD, número de celular, nome completo e data de nascimento. Silêncio de 5 minutos e… finalmente sou atendido.

Ou não? Sei lá, me deu um medo enorme do sujeito ter cancelado tudo ou feito qualquer outra coisa bizarra no sistema. Pior que só vou descobrir quando já for tarde.

Ah sim, para fechar com chave de ouro, os filhos da puta não me deram um número de protocolo! Já fiz a devida reclamação na Anatel, vamos ver se funciona (não estou muito otimista, mas vamos dar uma chance, né?)

Por fim, concluo que, por pior que seja o call center da Net, existem coisas ainda piores e muito mais horrendas, como esta porcaria da Oi. Não dá nem para chamar de call center, de tão ruim que é. Espero NUNCA MAIS precisar desta bosta. Voltando de viagem vou começar a procurar outra operadora.

Update: algumas horas depois chegou o número do protocolo (por que não informar na mesma ligação como todos os outros call-centers fazem?). Para finalizar,  quando eu estava lá na gringa, toda vez que alguém me ligava aparecia o meu próprio número no identificador de chamadas! Eu consegui ligar para mim mesmo, olha só! Sensacional, não? 🙂

Quem diria, reclamar às vezes funciona

Há algumas semanas atrás, alguns canais da Net estavam fora. Liguei para o call center já esperando aquela aporrinhação característica, mas dessa vez superaram qualquer expectativa. Fui atendido pela atendente mais mal educada, mal humorada e provavelmente mal comida que nenhum call center jamais concebeu. Mal acabei de falar meu CPF e já fui tratado com descaso, desdém, tom de voz agressivo e vários “aff” durante a conversa. Isso porque ainda nem tinha explicado meu problema. Foi a pior experiência que tive, bem pior que ficar uma hora escutando musiquinha para ser atendido, muito pior que a ligação “cair” no exato instante em que eu disse que iria cancelar o serviço.

Em compensação, o técnico que veio em casa alguns dias depois resolveu o problema de maneira rápida e eficiente. Mas o péssimo atendimento do call center ficou entalado na garganta. Resolvi enviar uma reclamação para a Net, mesmo sabendo – baseado em experiências anteriores com empresas que não estão nem aí para os clientes – que não daria em nada. Entrei no site, loguei na minha conta de assinante, preenchi o formulário informando o gigantesco número de protocolo e desencanei, achando que a minha reclamação iria parar em um limbo qualquer.

E não é que, para minha surpresa, alguns dias depois a Net me liga? Eles não só pediram “desculpas por todo o constrangimento”, como também me ofereceram um aumento na velocidade da internet, por um preço promocional. Desconfiado que sou, fui conferir no site e lá estava o preço que me ofereceram. Mas no site a promoção era por tempo limitado (dizem), já no meu caso eles fariam esse preço “para sempre”. Bom, como este tipo de situação é raro, aceitei. A velocidade realmente aumentou, e por enquanto o preço está certo.

Pois é, reclamar às vezes funciona.

Reflexões em torno do Grill do boxeador

Comprei um George Foreman Grill. Pois é, justo eu, que sempre fui extremamente cético com relação a qualquer produto cujos comerciais seguem o estilo bizarro do PoliShop, que consistem em mostrar que o produto é a última Coca-cola (ainda tem hífen?) do deserto, que resiste à chuva, sol, fogo e tiros de metralhadora, que além de conservar os alimentos, melhora sua pele, evita a queda dos cabelos, desencrava as unhas, emagrece, faz o carro andar mais, dobra a autonomia da bateria do celular, é prático, fácil de usar, durável, econômico, versátil, cura o câncer em estágio avançado, faz os aleijados andarem e os cegos enxergarem (não confundir com igrejas evangélicas picaretas), e as primeiras duzentas pessoas que ligarem levam inteiramente grátis um brinde qualquer que é tão incrível quanto o produto principal, que nem dá para entender porque estão dando de graça.

Esse meu ceticismo teve início basicamente na época das meias Vivarina (que nunca desfiavam, nem mesmo se você tentasse cortá-las com uma faca) e das facas Ginsu (que cortavam tudo, menos as meias Vivarina). O negócio era tão absurdo que beirava o ridículo, um dos comerciais mostrava a faca cortando um cano de chumbo! Para quê alguém vai querer ter uma faca dessa em casa? E a narração ensandecida, estilo Galvão Bueno, só reforçava o inverossímil da situação. Isso tudo fez com que eu desenvolvesse um preconceito enorme com qualquer produto que fosse anunciado dessa maneira.

Mas eis que, algumas semanas atrás, vi o Grill do boxeador em funcionamento. Deixando de lado todo aquele exagero ridículo dos comerciais, pode-se dizer que o negócio funciona de maneira satisfatória. Claro, ao contrário do que a propaganda quer que acreditemos, ele não é a solução de todos os problemas culinários do mundo, mas percebi que seria muito útil para mim, que moro sozinho, não tenho fogão nem saco para cozinhar, e já enjoei de comida de micro-ondas (e esse aqui, tem hífen?).

Para começar, ele é bem simples. Você liga na tomada e pronto. Não tem milhares de botões, regulagem de temperatura, programas para fazer a comida X ou Y, nada disso. Ele liga e desliga, e só. Quer preparar algo? Liga. Ficou pronto? Desliga. Esqueça a balela que você vê na propaganda, o negócio é só uma sanduicheira turbinada, nada mais. O que é ótimo, pois eu sempre quis fazer o hambúrguer direto na sanduicheira.

Muitos dizem que não é necessário lavar louça, mas isso é mais ou menos verdade. Porque a bandeja para onde vai a gordura tem que ser lavada sim, senão fica um nojo e com o tempo pode até criar vida própria e sair andando pela casa. E o tempo que você gastaria lavando panelas mais a água e detergente são compensados pela quantidade obcena de papel toalha necessária para limpar o grill. Mas tudo bem, não existe nada auto-limpante neste mundo, ao contrário do que os fabricantes de micro-ondas querem que a gente pense.

A única irritação gerada por esta aquisição foi o fato dela seguir o novo e ridículo padrão de tomada, o de 3 pinos juntinhos. Não sei quem foi o imbecil que resolveu criar MAIS UM padrão – dizem que padrões são bons, por isso temos vários – pois nenhuma tomada do meu apartamento é compatível. Isso porque meu prédio só foi construído há 2 anos. Por causa dessa merda de padrão que ninguém segue tive que comprar um adaptador. E adivinha quanto custa essa pecinha VAGABUNDA de plástico, tão mal-feita que parece que vai quebrar só de você tocá-la? Sete reais! Por um adaptador vagabundo!

Resumindo, no final das contas, o produto que eu achava picaretagem foi o que me deixou mais satisfeito, e o produto que ninguém precisava – a não ser o dono da fábrica de adaptadores, que provavelmente é deputado e/ou participou do lobby para aprovar este “padrão” – foi o que mais me deu dor-de-cabeça. O que me leva a crer que George Foreman é um empreendedor de sucesso – ou no mínimo um ótimo garoto-propaganda – e que o governo brasileiro é o mais imbecil do mundo, pois concentra esforços em coisas desnecessárias como anti-padrões e acordos nucleares com países de reputação duvidosa.

Minhas pequenas paranoias

Antes de começar, ainda não me acostumei com a ideia de escrever paranoia sem acento. Mas este não é o assunto do post.

Acho que todos, em maior ou menor grau, têm algum tipo de paranoia, por menor que seja. Neste mundo moderno em que vivemos, com milhares de picaretas, estelionatários, bandidos e afins, a paranoia mais comum é a da violência urbana. Sempre que estou dirigindo e paro em um semáforo ou congestionamento, olho o tempo todo para os lados, para o retrovisor, para a frente, quase nunca fico tranquilo. Geralmente procuro não ficar muito colado ao carro à frente e tento verificar possíveis rotas de fuga. Se estou a pé, ando rápido e olhando para trás em intervalos regulares. Se estou no meio de uma multidão, checo os bolsos a toda hora. Também visualizo rotas de fuga, chegando ao cúmulo de analisar se o piso é escorregadio, se a rua é movimentada e outros fatores que possam me atrapalhar em minha “corrida para salvar a vida”. Qualquer pessoa que não conheço é suspeita, eu olho torto para todos, sempre esperando o pior.

Claro que nem sempre fui assim. Essa maluquice toda começou após meu primeiro assalto – evidentemente no papel de vítima – e foi aumentando com o tempo. Hoje contabilizo 4 assaltos, totalizando alguns poucos trocados (não costumo andar com muito dinheiro), uma blusa, um celular e um vidro do carro quebrado (a última vez que me distraí no trânsito). Uma vez quiseram levar meu tênis, mas quando o ladrão viu que o dele era melhor, desistiu. A cada assalto a paranoia aumentava. Depois do quarto, aumentou tanto que passei a ter as atitudes malucas do parágrafo anterior. Ainda não precisei utilizar as rotas de fuga, e nem sei se na hora conseguiria reagir desse modo, mas de qualquer forma não me distraio mais na rua.

Outra paranoia começou quando comecei a receber muita correspondência bizarra. A mais estranha foi uma carta do clube dos comerciários, dizendo que eu ganhei uma câmera digital em um sorteio realizado em postos de gasolina (cuma?) e que deveria retirar o prêmio pessoalmente no referido clube, além de pagar uma taxa de qualquer coisa. Ou seja, eu ganhei um prêmio de qualidade duvidosa (pois era uma marca desconhecida) em um sorteio do qual não participei, e teria que ir até a puta que pariu (que eu nem sei se existe mesmo) para pagar por algo que não entendi do que se trata. Na hora achei que era golpe. Mesmo que não seja, não é a melhor maneira de se promover um clube, é spam da pior qualidade.

E foi após este “sorteio” que começou minha paranoia mais estranha. Sempre que vou jogar fora alguma correspondência, eu sempre rasgo meu nome e endereço em vários pedaços, de forma que em nenhum deles seja possível identifcar algum dado completo. Depois eu jogo esses pedaços em vários lixos diferentes. Aqui em casa tem um na sala, outro na cozinha e um em cada banheiro, totalizando 4 sacolas de supermercados diferentes. Além disso, eu também jogo um pedacinho em cada privada. E eu nunca levo as sacolas para o “lixo geral” do prédio no mesmo dia, dificultando assim o trabalho de eventuais vasculhadores de lixo alheio.

Claro que isso não resolve tudo. Existem outros meios de se conseguir o endereço de alguém. O link ao lado está desatualizado (meu endereço não consta, ainda bem), mas para golpistas desocupados é um prato cheio. Ainda bem que me mudei há pouco tempo, e só atualizei meu endereço em meia dúzia de lugares essenciais. Por isso hoje só recebo contas e eventuais propagandas do banco. Mas acho que vai levar um bom tempo para eu ganhar outro “sorteio”.

Who’s dead?

O título é um trocadilho meio óbvio e infame, mas eu não podia deixar de falar na morte de Michael Jackson. Acho que o fato pegou todo mundo de surpresa. Tudo bem que a situação dele não era das melhores, mas eu achei que ele fosse durar mais uma ou duas décadas pelo menos.

Apesar de nos últimos anos ele não ter feito nada de musicalmente relevante (muito pelo contrário), eu já fui fã dele. Nos longínquos anos 80, quando ainda tínhamos discos de vinil. Era uma época em que achar discos de artistas internacionais era muito difícil, e quando achávamos, o dinheiro da mesada não era suficiente. Uma época em que o Fantástico ficava anunciando a cada 5 minutos que iria passar “o mais novo clipe de Michael Jackson, que custou trocentos milhões de dólares”, e o clipe só passava no finalzinho do programa. Sempre ficava aquela tensão: e se minha mãe mandar eu dormir antes de passar o clipe? Você não imagina como era angustiante.

Enfim, na minha infância e uma pequena parte da adolescência, a época da vida em que somos mais suscetíveis à cultura pop, eu vi o auge de Michael Jackson. Até hoje gosto das músicas daquela época. Aquilo tudo foi realmente uma revolução. Clipes de orçamentos milionários, com 20 minutos de duração e efeitos especias incrivelmente inovadores para a época. Um estilo único de se vestir e dançar, que assim como Elvis – e em menor escala Silvio Santos – gerou uma legião de imitadores.

Depois vieram os jogos de videogame. Na verdade era só um (MoonWalker), mas tinha versões para fliperama e Mega Drive (tinha alguma outra? não lembro). A melhor de todas era a do fliperama. Curiosamente Ironicamente Coincidência ou não, o objetivo do jogo era salvar criancinhas. Será que desde aquela época ele já tinha tendências papa-anjísticas?

Bom, o tempo passou, ele ficou branco – e anunciou isso com uma música que diz justamente que a cor não importa – e depois começou a decadência. Processos de pedofilia, bebê balançando na janela, construção de um parque temático particular – com o sugestivo nome de Terra do Nunca, onde as crianças não crescem e ele poderia tê-las jovens para sempre – e plásticas cada vez mais bizarras.

Mas tudo isso acabou. Agora é só esperar alguém fazer a paródia “Who’s dead?”. Será que ficaria tão boa quanto esta?

Viadagem pode não ser o que você pensa

Não sei se você sabe, mas existe uma diferença entre vEado e vIado.

O veado é aquele bicho – atenção, eu disse bichO, ou seja, animal – saltitante, delicado e chifrudo – ainda estou falando do animal – imortalizado em um desenho da Disney (no referido desenho, apenas o veado é imortalizado; o mesmo não se pode dizer da mãe dele).

Já o viado é aquele sujeito esquisitão que tem na sua empresa/faculdade/vizinhança, que todo mundo sabe (por “sabe” entenda-se “desconfia”) que joga no outro time. É aquele cabeleireiro que sua mulher adora, é aquele sujeito metido a machão que à noite sai por aí dando uma de Ronaldo. Sim, na minha opinião, o sujeito que sai com traveco, no fundo – e nos fundos – é viado.

Enfim, viado é aquela minoria que você vê em toda parte.

Apesar desta diferença sutil na grafia, eu sempre achei que a palavra “viado” era apenas gíria, e que não existia oficialmente no nosso idioma. Mas eis que para minha surpresa, ela não só existe como tem um significado completamente inesperado:

viado
vi.a.do
sm Antigo pano listrado.

Não acredita? Tá no Michaelis. Como achei isso tudo meio estranho, resolvi pesquisar em outros dicionários e encontrei o mesmo resultado. Das duas uma: ou os dicionários online aderiram a uma das regras fundamentais piores práticas da internet (a cópia descarada de conteúdo) ou nós, pra variar, estamos usando mais um termo incorretamente.

Pensei em incluir algum comentário manjado dizendo que isso tudo é uma grande viadagem, mas achei que seria mais interessante divagar sobre o significado da palavra que até ontem eu achava que sabia.

Fico imaginando que raios de pano listrado é esse. Será que ele tinha 7 listras coloridas e servia para guardar moedas (ou qualquer outro objeto que possa ser colocado em um cofrinho) de ouro? Em que época a palavra “viado” foi usada para designar este maldito pano? Aliás, ela algum dia foi usada para designar alguma outra coisa que não fosse um… viado? Será que o pano virou moda entre as bibas e passou a ser sinônimo? Quem veio antes, o pano ou o homossexual?

Não que isso faça diferença na vida de alguém, mas essa língua portuguesa vive nos surpreendendo.