Previsões para a Copa

Assim como os videntes picaretas – ops, redundância – que sempre soltam previsões genéricas do tipo “Uma pessoa famosa vai morrer este ano” e “Fulano deve tomar muito cuidado com pessoas invejosas”, vou aproveitar o clima de loucura e alienação geral em torno da Copa do Mundo e exercitar minha capacidade de premonição.

A imprensa esportiva em geral, e o Galvão Bueno em particular, estarão mais insuportáveis do que nunca. Talvez pelo fato de aparecerem na TV por mais tempo do que o habitual, tendo como consequência a falta de assunto, levando-os a noticiar qualquer coisa, por mais imbecil que seja. Tudo bem, a imprensa já é assim hoje, mas na Copa isso é elevado à décima potência. Mas apenas na seção de esportes, as outras seções são esquecidas, pois nem a explosão de uma bomba atômica no (ou do) Irã ganharia mais destaque do que o close de um pedaço de grama na trava da chuteira do atacante da Costa do Marfim. 90% do jornal é sobre a Copa, todo o resto é resumido no espaço restante.

Aliás, a mídia é aquela que se torna mais insuportável durante a Copa. Há mais de 20 anos que as reportagens são as mesmas, resumindo-se a 3 tipos igualmente chatos:

  • Imagens das ruas vazias no horário do jogo da seleção, narração do repórter dizendo que as ruas estão vazias por causa do jogo da seleção. Se por acaso tiver algum infeliz na rua, o mesmo é entrevistado. Das 2 uma: ou ele diz que está indo não-sei-onde ver o jogo ou faz alguma pergunta sobre… o jogo.
  • Imagens dos torcedores assistindo ao jogo num telão instalado em uma praça qualquer de uma cidade qualquer. A edição criativa mostra os melhores momentos da partida alternados com a respectiva reação dos torcedores, acompanhados da mais criativa ainda narração do repórter. Palavras como “sufoco” e “alívio” são frequentemente usadas quando o Brasil está sendo atacado ou faz um gol, respectivamente. Geralmente escolhe-se um torcedor mais exagerado para aparecer com mais frequencia, principalmente na hora do gol. No final, este mesmo torcedor é entrevistado e diz algo como “É Brasil!” ou qualquer patriotada do tipo.
  • Família do jogador reunida em casa, geralmente na favela onde o jogador nasceu, cresceu e aprendeu a jogar. O jogador escolhido pode ser o que se destacou na última partida ou o craque mais óbvio do momento. O pai diz que ele sempre sonhou estar na seleção, a mãe diz que era um garoto levado, algum tio/primo/irmão/amigo de infância faz outro comentário irrelevante. Mais uma vez a edição criativa alterna os depoimentos com fotos da infância do jogador – de preferência com uma bola de futebol – e lances inesquecíveis que ninguém lembrava.

Quando o repórter está realmente criativo e quer ousar pra valer, ele faz uma mistura dos 3 tipos acima descritos, como por exemplo a família do jogador assistindo ao jogo, tendo reações exageradas e saindo para comemorar na rua vazia. Dada a qualidade da nossa imprensa esportiva, não dá para esperar muito mais do que isso.

Claro, se Dunga ganhar a Copa, a imprensa vai babar ovo e lamber o saco dele, vai elogiar a coerência de não convocar os jogadores que todo mundo pediu e transformá-lo em herói nacional. Mas se ele perder, a mesma imprensa vai xingar, descer o cacete, humilhar e destruir, vai criticar a teimosia de não ter convocado os jogadores que todo mundo pediu e só ele não queria escutar, vai transformá-lo em vilão nacional. A mídia não precisa ser coerente, ela pode mudar de opinião ao sabor do vento e dos fatos, ela escreve o que for conveniente, pois afinal é preciso vender.

Além da mídia enlouquecida, teremos os torcedores enlouquecidos. Pessoas que só são patriotas a cada 4 anos surgirão aos montes, pensei até em mandar esse gráfico para o graphjam:

O patriotismo de conveniência do brasileiro

"Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor, com muita hipocrisia"

Eu sempre achei estranho esse negócio de só ser patriota quando tem Copa do mundo, mas se pensarmos bem, até que faz sentido. Acompanhe:

Vivemos num país de merda, lotado de bandidos de todas as espécies: assaltantes, estupradores, sequestradores, traficantes, políticos corruptos – duas redundâncias no mesmo texto, assim não dá – que infelizmente predominam, mandam e comandam. Quem prefere ser otário honesto, é massacrado por impostos de mão única (eles só vão, nunca voltam), que comem mais de 4 meses do nosso trabalho todo ano, que vão parar no bolso dos filhos da puta que foram eleitos por este povo ignorante. Um desses malditos em particular resolveu fazer acordos nucleares com países que só ele acredita serem pacíficos e bonzinhos. Eu estou só esperando até surgirem os primeiros embargos e sanções econômicas, e se hoje reclamamos que o Brasil tem o iPod mais caro do mundo, pode ser que amanhã não tenhamos nenhum.

Vivemos num país desgraçado, onde todos querem se dar bem e ninguém pensa no coletivo (exceto, é claro, no treino coletivo da seleção). Os guardanapos do MacDonald’s deixaram de ser à vontade porque a galera abusava, pegava 20 mas só usava 2. Hoje temos que nos contentar com 1 folhinha vagabunda miguelada. Em Berlim tem um restaurante onde você escolhe quanto quer pagar (que nem as Casas Bahia, só que de verdade) e adivinha, os brasileiros são os que mais dão problema. Em vários países tem avisos alertando contra a presença de brasileiros, que são sinônimo de problema. Nossa má reputação nos precede, somos um povinho desgraçado vivendo num país idem.

Ou seja, tirando o futebol, nada, absolutamente NADA que existe nesse país tem alguma chance de nos dar orgulho de ter nascido aqui. O futebol é a única coisa que tem alguma chance de dar algum orgulho, de acender, nem que seja só um pouquinho, a chama do patriotismo, mesmo que seja esse pseudo-patriotismo capenga que temos. Todo o resto só nos dá vergonha, não dá para bater no peito e dizer que somos campeões mundiais em pedidos de retirada de conteúdo do google, nem que somos foda pra caralho porque temos uma das piores distribuições de renda do mundo.

Por todo o resto do país ser uma merda, a única coisa que às vezes nos dá alegria é o futebol. Não é o ideal em termos de patriotismo, sequer em termos de país, mas infelizmente é o que temos. Só nos resta torcer, e por algo que nem vai mudar nossas vidas.

Pelo menos vou poder me gabar de ter acertado todas as previsões. Infelizmente.

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