Quem foi que disse?

Diálogo hipotético, um chega e diz:

– Pessoal, a Ju me contou que teve um acidente com um caminhão lá na estrada!

A própria Ju, que também participava da conversa, rebate:

– Peraí, eu não te contei nada, não!

– E daí? O acidente aconteceu de verdade e é isso que importa.

Esse diálogo tem uma variação, que é quando uma terceira pessoa parte em defesa da Ju, dizendo que não foi ela que disse. A partir desse momento, deixa-se de lado o assunto principal – no caso, o acidente – e começa um debate sobre a autoria do relato. Foi a Ju que contou? Se não foi ela, então quem? Uns se importam mais com a autoria, outros nem tanto.

O curioso é que, em geral, nossa tendência é dar ao autor a mesma importância do fato narrado em si, ou até mais. Em casos nos quais a falsa autoria poderia nos comprometer, é até compreensível, mas agimos assim até quando isso é irrelevante. Parece que o ser humano não gosta que coloquem palavras em sua boca.

E se em um cenário limitado, onde todos se conhecem, já é difícil evitar as falsas atribuições de relatos, imagine em um ambiente tão abrangente e desorganizado como a Internet. Proliferam-se pela rede vários textos atribuídos a Millôr Fernandes, Luís – com “s” no final, por favor – Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor, só pra citar os mais manjados. Quantos textos já te mandaram por email, dizendo “mais um texto genial do Veríssimo”?

Não faz muito tempo, recebi pela milésima vez um texto desses, e como é de praxe, dizia que “esse Veríssimo é genial”, e foi mandado para mais 93252374238 pessoas além de mim. Uma delas de cara já disse que não era do Veríssimo. A pessoa que mandou agiu da mesma forma descrita no diálogo acima, dizendo que o que importa era o conteúdo, tanto faz se foi mesmo ele que escreveu. (se tanto faz, então pra que enfatizar o autor?)

Bom, eu concordo com a pessoa que alertou sobre a falsa autoria, afinal, eu não gostaria que usassem meu nome desta maneira. Não entendo porque alguém cria um texto e solta na rede dizendo que foi outra pessoa que escreveu. Alguns são até legais, não precisam de uma muleta para tentarem ser melhores. Depois que são desmascarados, perdem toda a credibilidade e ficam marcados como “o texto falso”.

O problema é que o negócio se espalhou demais, e a desinformação é tanta que nem uma busca no google esclarece se o texto é falso ou não, pois muita gente posta em seus blogs dizendo que é verdadeiro. Só sei que o texto do palavrão não é do Veríssimo, e não foi o Jabor que escreveu sobre a mulher perfeitinha. E todos aqueles que chegam por email geralmente são falsos. Os textos verdadeiros estão nos livros e nos sites de cada autor (quando têm), e plagiadores baratos são preguiçosos demais para transcreverem e burros demais para simplesmente linkarem.

Por fim, siga a regra básica de não acreditar cegamente em tudo que está na internet. E boas leituras!

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