A vida começa aos (coloque aqui sua idade)

Uns dizem que é aos 30. Outros acham que é aos 40. Há quem diga que é só aos 50. E assim por diante, até os 90, 100, até o limite humanamente possível da idade. E sempre em múltiplos de 10 (ninguém diz que a vida começa aos 47, por exemplo). E pode reparar: quem diz isso sempre está próximo da idade que colocou na frase. Geralmente está quase chegando ou acabou de fazer.

Eu acho isso meio estranho. Se o sujeito diz que a vida começa aos X anos, dá-se a impressão de que tudo que ele fez antes disso não vale nada. Se formos pegar as idades mais comumente usadas neste caso (30, 40 e 50, pelo que costumo ouvir) veremos que muitos já serão casados, com filhos e uma carreira profissional. Se o infeliz afirma que só agora, depois de ter vivido tudo isso, é que a vida vai realmente começar, só posso ter pena dele.

Veja bem, eu não sou contra encarar a velhice com otimismo, e entendo quem vislumbra uma determinada idade como um marco para a próxima etapa de amadurecimento pessoal (embora eu ache que este seja um processo contínuo que não depende de idades múltiplas de 10). Muitos acham que ao dizer que a vida começa em determinada idade, estão demonstrando uma vontade de viver intensamente, um espírito jovem, um recado do tipo “não vou virar um velho ranzinza”. A intenção é boa e até desejável, mas o modo como escolhem dizer isso é que eu acho errado. Se você tem 50 anos e diz para os jovens que a vida só começa aos 50, está desprezando tudo que eles fazem ou ainda farão, está diminuindo todos os que são mais novos que você. E está de certa forma assumindo que nunca fez nada de bom, nada certo, nada que valha a pena lembrar.

Se você quer aproveitar sua meia-idade, sua velhice “melhor-idade” (malditos marketeiros) ou sejá-lá-qual-for-sua-idade com alegria, faça-o. Mas não me diga que a vida só começa aí. Ninguém sabe quando ela começa. Muitos acham que é no parto, com pessoas vestidas de branco e um tapa na bunda. Outros acham que é 9 meses antes, quando você sai para jantar com seu pai e volta com sua mãe. Mas o fato é que, a partir do momento em que temos alguma consciência e controle dos nossos atos, nossas vidas são por nossa conta. Ela já começou, isso não importa mais. O que importa é o que você está fazendo com ela agora, e aonde isso vai te levar.

Odeio quando as pessoas repetem frases feitas sem pensar a respeito.