Feito para você… passar raiva

Odeio ir ao banco. Odeio ficar horas na fila, perdendo meu horário de almoço, esperando pelo gerente que, adivinhe, está almoçando. Odeio ver que tem 5 caixas, mas só 3 funcionando, e desses 3, somente 2 estão efetivamente atendendo. O outro está sempre fazendo alguma coisa que ninguém nunca sabe o que é. Isso quando ele não sai e só volta depois de meia hora, por motivos também desconhecidos.

Por isso mesmo adoro a internet. Graças a ela, posso pagar contas, ver extrato, transferir dinheiro, aplicá-lo, dá até para ver os cheques que passei, devidamente microfilmados. Se desse para imprimir dinheiro – legalmente, claro – eu nunca mais iria ao banco.

Mas nem tudo são flores. Hoje fui fazer um pagamento online, mas fui surpreendido com uma bela mensagem de “horário para esta operação excedido” ou algo assim. Que coisa, era muito tarde para fazer pagamento online. O problema é que não era tarde, eram umas 9 da noite. PORRA, até para tirar dinheiro na agência, no meio da rua, com todos os perigos que a maldita violência urbana oferece, o limite de horário é 22 horas. Por que para uma operação de pagamento pela intenet, no conforto e segurança de minha residência meu apartamento, o horário limite é mais cedo? E a suposta facilidade que eu supostamente deveria ter ao utilizar o bankline, onde fica? (essa é melhor nem responder)

Pior que já fiz pagamentos anteriormente, nesse mesmo banco, em horários que excediam facilmente as 21 horas. Será que depende do tipo de pagamento, ou pior ainda, do valor? (coincidência ou não, o valor de hoje era baixo, já o valor que consegui pagar de madrugada era bem mais alto)

Limite de horário para uma operação online sem interação humana é ridículo. Quer dizer, eu espero que seja sem interação humana, porque senão é uma estupidez sem tamanho. Consegue ser mais ridículo que o horário de funcionamento das agências (10h às 16h com pausa para almoço? Não sabia que os caixas eram todos estagiários)

Sim, eu sei que os pobre coitados que ficam no caixa não fazem só isso. Eu sei que depois que a agência fecha, eles ainda ficam lá fazendo sei-lá-o-que, e que eles fazem mais um monte de outras coisas que completam suas 8 horas de trabalho. Eu sei que os bancos não contratam pessoas exclusivas para o caixa porque o atendimento não é prioridade, já que é o que dá mais dor de cabeça e menos lucro. Sei que minhas reclamações, por mais válidas que sejam, jamais serão atendidas.

Mais uma série de motivos para odiar uma ida ao banco.

Queremos mesmo a paz mundial?

A violência acabou.

Não importa como, ela simplesmente acabou. Como já faz muito tempo, ninguém se lembra mais como foi. Só se sabe que não foi da noite para o dia. Ela começou a diminuir aos poucos, em uma taxa cada vez maior, até desaparecer por completo. Foram sumindo gradativamente os ladrões, sequestradores, estupradores, traficantes. Não se sabe se eles pararam de agir criminosamente ou se simplesmente morreram, os registros da época são imprecisos e conflitantes. O fato é que de repente nos demos conta de que não existia mais crime. Andar na rua sozinho às 3 da manhã com mil reais no bolso já não era mais perigoso.

As brigas por motivos fúteis – ou por qualquer motivo que seja – deixaram de virar notícias do Cidade Alerta e passaram a terminar sempre com diálogo e argumentação. Hoje 100% das pessoas – sem exceções, portanto – são civilizadas, nunca se estressam, nunca agem de forma irracional, nunca partem para a ignorância. A turma do fundão parou de zuar os nerds (dá para imaginar que faziam isso?). Ninguém dá em cima da mulher – ou do homem, ou de seja-lá-o-que-for – dos outros. Os chatos, é claro, continuaram existindo, mas hoje eles são tolerados ou simplesmente ignorados.

Não há mais guerras. Interesses financeiros, ideológicos, étnicos, políticos e religiosos (motivos de muitas guerras, senão de todas) foram deixados de lado, cada um vive no seu canto sem incomodar o outro.

Não existe mais paranóia. Grades na janela? Inúteis. Trancar a porta? Nunca usei chaves,  as únicas que vi foi no museu da violência. Nossa noção de auto-preservação é completamente diferente daquela época. Andamos na rua muito mais despreocupados, podemos parar no sinal vermelho com os vidros abertos a qualquer hora do dia ou da noite. Assim como as portas de casa, as do carro também não tem trancas. Permanecem só as travas de segurança para as crianças. O preço dos seguros despencou, e hoje cobrem apenas acidentes. Desastres naturais não. A violência acabou, mas nem tudo é perfeito.

Acabou-se também outra praga urbana: os flanelinhas. Como não existem mais ladrões de carro, deixar o carro em qualquer lugar é seguro. Como ninguém mais briga e resolve tudo pacificamente, simplesmente ninguém paga mais. Afinal, antigamente, quando ainda existia violência, pagávamos o flanelinha mais por medo dele fazer algo conosco e/ou com o carro do que por achar que ele estava prestando-nos um excelente serviço. Mas agora as pessoas se lembraram que a rua é um espaço público, que ninguém pode declarar que “aqui é minha área” e que não faz sentido pagar o flanela.

As empresas de segurança, pelo que dizem, eram a polícia particular, contratada por quem tinha grana. Não vou chamá-las de “polícia paga” porque a outra também era. Falando nisso, os impostos são uma das poucas formas de violência que infelizmente não sumiram. Peraí, você também não sabe o que era a polícia? Eram – teoricamente – os mocinhos que – de novo, teoricamente – nos defendiam da violência. Quando esta começou a diminuir, as funções dos policiais ficaram tão restritas que estes acabaram se fundindo ao corpo de bombeiros. Isso mesmo, naquela época, se o seu vizinho ligasse o som no máximo às 2 da manhã de uma segunda-feira, você ligava para a polícia. E como 90% das – cada vez mais raras – ocorrências eram de vizinhos perturbando o sono alheio, acharam melhor juntas as duas corporações.

Como à noite não é mais tão perigoso, as pessoas saem com muito mais frequência. Aumentou a quantidade de bares e casas noturnas. Os prostíbulos ainda existem, claro (a profissão mais antiga é também a que mais resiste ao longo da história), mas a figura do cafetão perdeu-se no tempo. Devido à lei seca – essa realmente pegou – as pessoas agora voltam para casa a pé.  A maioria acha melhor, pois além de fazer exercício, não correr mais perigo de ser assaltado e poder vomitar no caminho – e não no banco do carro ou no sofá da sala – ainda economiza no táxi. Até tentaram reverter esta situação acabando com a bandeira 2 – espécie de adicional noturno que os taxistas cobravam – mas sem sucesso. Algum marqueteiro até criou o termo “bandeira 1/2” fazendo alusão ao preço especial da madrugada, mas as pessoas ainda preferem voltar a pé. Táxi, só em caso de emergência.

Armas? Só no museu da violência. Aliás, é o melhor lugar para saber mais sobre aquela época selvagem e caótica. Lá podemos ver todos os tipos de armas usadas ao longo da história. Até hoje me lembro do estardalhaço que foi quando a Colt anunciou que iria doar todo o seu estoque – encalhado há anos, quase enferrujando – para o museu. O ponto alto é a sala dos mísseis teleguiados, onde nos damos conta do quanto o dinheiro dos contribuintes era desperdiçado. Tudo bem que hoje ainda é, mas pelo menos não se criam mais “coisas que matam”.

O mundo hoje parece tão perfeito, não? Ninguém mais vive com medo, trancado dentro de casa. Os pais podem dormir sossegados enquanto os filhos estão se divertindo na noite. Dizem até que por causa disso, a idade média em que um adulto começa a ter cabelos brancos aumentou para 70 anos. Coincidência ou não, de uns anos pra cá 95% das marcas de tinturas masculinas (Grecin 2000 e similares, lembra?) simplesmente sumiram do mercado. As tinturas femininas continuam existindo, pois as senhoras da terceira melhor idade estão cada vez mais vaidosas.

Mas o fim da violência acabou gerando outros problemas. As empresas de segurança tiveram que mudar de ramo, mas nem todas conseguiram. E das que conseguiram, a maioria não durava muito tempo. E nem todos os policiais arranjaram outro emprego. Os fabricantes de armas quebraram consideravelmente, tiveram que doar todo o estoque para o museu – que possui filiais em todo o mundo, dada a quantidade inacreditável de armas que recebeu – pois ninguém mais queria comprá-las. Todos os serviços relacionados à violência diminuíram consideravelmente ou já não existem mais. Seguradoras, chaveiros, fabricantes de alarmes, de trancas, de cofres, todos quebraram. Alguns mudaram de ramo, se reinventaram, mas infelizmente muitos ficaram desempregados.

Os empregos alternativos não são mais alternativa. Os camelôs trabalhavam sob ameaça dos bandidos-fornecedores, por isso esse tipo de comércio popular não existe há muito tempo. Ninguém mais explora os filhos, mandando-os vender balas ou limpar os vidros dos carros no semáforo. Trabalhar para criminosos? Se eles ainda existissem…

Com o fim dos assassinatos, a população cresceu ainda mais. A equação mais-gente-viva versus menos-lugares-para-trabalhar gerou uma taxa de desemprego nunca antes vista. Como eles não conseguem emprego, não podem mais cuidar de carros na rua, não exploram mais os filhos nos semáforos e nem a última alternativa – o agora extinto crime – existe mais, muitos chegaram ao extremo: canibalismo. É isso mesmo, cada vez mais pessoas estão descendo ao fundo do poço da condição humana, e no desespero estão comendo os próprios filhos (não no sentido sexual, lembre-se que os pedófilos não existem mais). Muitos ficam meses sem comer – outros aguentam até alguns anos, não sei como – até que sucumbem aos seus instintos mais básicos e devoram sua prole. Fazem planos a longo prazo: “vamos comer só um, o outro vamos esperar crescer mais um pouco” ou “Se você engravidar agora, podemos deixar para comer o júnior no mês que vem”. Quem não tem filhos tenta pegar o dos outros, quando não consegue acaba cortando algum pedaço de si mesmo.

Mas espera aí, quer dizer então que eles estão matando? Mas isso aí não é violência? Alguns estudiosos defendem que não, pois do mesmo modo que matamos animais para nos alimentar, e o homem também é um animal – mais civilizado do que nunca, mas ainda sim um animal – os “canibas” (termo pejorativo que tem se tornado cada vez mais comum) estão apenas fazendo o que lhes é possível, dadas as suas condições. Esses mesmos estudiosos completam criticando a ineficiente ajuda dos governos, que se resume a criar mais e mais cargos públicos para tentar absorver a enorme massa de desempregados. Como os contribuintes já chegaram ao seu limite, o número de empregos tapa-buraco criados, mesmo sendo assustadoramente grande, não é suficiente para acabar com o desemprego. Sem falar que os serviços públicos estão sendo ocupados por pessoas cada vez mais despreparadas e o atendimento está pior do que nunca.

Já outros estudiosos, mais polêmicos e radicais, alertam que o fenômeno do canibalismo selvagem – mais um termo imbecil criado pela imprensa – pode ser o início do retorno da violência. Eles explicam que a maioria dos canibais prefere comer os filhos por serem mais fáceis de matar, apesar de terem menos carne. Isso ocorre porque, devido à fome, eles ficam cada vez mais fracos, e não consideram vantajoso matar um adulto, por ser uma ação que gasta muita energia, além de ser bem mais difícil e arriscada. Porém, vai chegar um momento em que não terão mais crianças para serem devoradas, e os “canibas” terão que recorrer aos vizinhos. E quando acabarem os vizinhos, todos sairão das favelas e começarão a atacar adivinha quem? Isso mesmo, você! Existem várias comunidades no orkut em homenagem a esta teoria, a mais famosa é “Resident Evil vai virar realidade!!!”.

Esta linha de pensamento é muito controversa, pois a maioria não acredita que um dia a violência irá voltar. Ela desapareceu há tanto tempo que já não faz parte da natureza humana (outro ponto polêmico, até hoje os estudiosos discutem se a violência era uma consequência da época caótica em que vivíamos ou se é intrínseca ao ser humano e está apenas adormecida esperando o momento certo para despertar). O surgimento de um imenso grupo de canibais, para 95% da população – como mostra uma pesquisa feita pelo IBGE em parceria com o Centro de Estudos do Canibalismo, da Universidade de São Paulo – nada mais é que uma aberração, uma sub-raça que não foi forte o suficiente para lutar e ter uma vida digna, e que agora precisam recorrer a atos extremos para sobreviver. Ainda bem que eles moram bem longe de nós, em regiões isoladas onde ninguém queria morar. Devido a baixíssima procura por estes lugares, os terrenos foram abandonados pelas imobiliárias e acabaram sendo ocupados pelos canibais.

A pesquisa também mostra que esses mesmos 95% acreditam que os canibais são um fenômeno passageiro, que eles vão acabar se devorando uns aos outros e não terão forças para vir nos atacar. Portanto, a maioria esmagadora não acredita no retorno da violência.

Em todo caso, desmontei minha mesa e construí uma grade de janela improvisada. Também já pesquisei alguns sites que ensinam a fazer chaves e fechaduras, e eles garantem que ficam iguais às que eram usadas antigamente. Tem um cara no mercadolivre que está vendendo uma metralhadora que foi rejeitada pelo museu, mas desconfiei e acabei não comprando. Também estou estudando meios de me defender dos “canibas”.

Pois é, eu também respondi a pesquisa. E faço parte dos 5%.