Um dia seremos todos Bauers

O mais impressionante não é Jack Bauer enfrentar terroristas na raça, pois isso já foi feito milhares de vezes no cinema. O que eu acho mais incrível é o fato dele – e de todos os outros personagens – não precisar dormir. Ora, por mais indestrutível que seja, todo herói tem suas necessidades básicas: precisa de comida, uma pausa para ir ao banheiro, umas horinhas de sono e uma ou mais <nome-do-herói>-girls, estejam elas a serviço do inimigo ou não.

O fato é que Jack Bauer fica acordado por 24 horas seguidas sem perder o ritmo (o que é ótimo, pois seria um tédio ter 8 episódios mostrando ele dormindo). E isto é um fato admirável. Eu até consigo ficar um dia sem dormir, mas depois da vigésima hora não conte comigo para mais nada. Dormir é algo fundamental na minha vida, embora tenhamos a cada dia menos tempo para dedicar a esta atividade tão relaxante. Não sei se é só impressão minha, mas temos cada vez menos tempo para tudo, inclusive dormir. Enquanto a quantidade de coisas a serem feitas aumentava, o dia continuou com suas míseras 24 horas.

Lembro que quando eu era pequenininho lá em Barbacena Bauru, os super-mercados não abriam de domingo. O comércio muito menos. Farmácia, banca de jornal, açougue? Nem pensar. Isso fazia com que as pessoas se planejassem e fizessem as compras até no máximo sábado. E até o fim da tarde, porque nenhum estabelecimento comercial – pelo menos os familiares – ficava aberto até altas horas.

E então num belo dia – eventos marcantes nunca acontecem em dias feios – um super-mercado resolveu abrir no domingo. E a partir daí, como diriam os mais nerds, ocorreu uma mudança de paradigma. Ninguém mais precisava programar suas compras. Se faltasse algo, ou se não desse tempo de ir no sábado, podia deixar pra domingo. Hoje parece banal, mas na época não foi.

O que veio depois foi consequência – ou evolução, dependendo do ponto de vista – natural: estabelecimentos abertos até 22 horas, até meia-noite, até o dia de São Nunca (mais conhecidos como 24 horas). Foi aí que ninguém precisava planejar mais nada mesmo. Agora podemos ir na hora em que quisermos, sem aquela pulga da urgência saltitando em nossas orelhas. Pra que fazer hoje o que posso deixar pra amanhã?

Isso acabou gerando um fenômeno interessante: as pessoas com turno invertido. Enquanto você dorme a noite inteira, tem gente trabalhando e vice-versa. Embora alguns pertencentes ao vice-versa não trabalhem enquanto você dorme, e muito menos enquanto você trabalha, o fato é que já existe muita gente que faz o esquema corujão.

E a equação falta de tempo versus mais coisas pra fazer faz com que a demanda por serviços 24 horas aumente cada vez mais. Tem muita gente que prefere fazer compras de madrugada, ou porque tem menos fila (a chance de ter uma velhinha que demora 2 horas para lembrar a senha do cartão é muito menor) ou porque é o único horário disponível.

Quanto mais corrida fica a nossa vida, mais queremos que os horários destes serviços se alarguem. Hoje existem várias coisas que posso fazer depois das 20h: ir ao mercado, cortar o cabelo, abastecer o carro. Nem tudo isso era possível há 20 anos atrás. Infelizmente, vários lugares ainda seguem o maldito horário comercial: agências bancárias, correios, órgãos públicos, etc. Quando tenho que ir a um destes lugares é um saco, porque tenho que ir durante o horário em que eu deveria estar trabalhando/almoçando, e a sensação de ter perdido tempo é enorme. Já quando vou ao mercado depois do serviço, eu agradeço por ele não fechar às 17h.

E mesmo faltando no serviço, nem todas as pendências burocráticas – quase nenhuma, eu diria – podem ser resolvidas em uma tarde. Se for em órgãos públicos, então, só tirando férias e olha lá (mas ninguém em sã consciência vai querer fazer isso nas férias). Por isso acredito que a tendência é que mais e mais serviços acabem virando 24 horas, ou pelo menos esticando os horários. Com exceção, é claro, dos órgãos públicos e agências bancárias, já que estes dão prioridade zero ao atendimento, e não acredito que um dia mudem.

De qualquer modo, neste hipotético futuro utópico, todos os mercados, lojas, restaurantes, parques, shopping centers e tudo mais serão 24 horas. Como não há ser humano que aguente tamanha jornada de trabalho, todos estes estabelecimentos farão os famosos turnos. As pessoas seriam divididas em diurnas e noturnas. Teremos mais de um horário comercial, ou então nenhum, já que toda hora será, por definição, comercial. Ser 24 horas deixará de ser um diferencial para virar algo normal.

Teremos pessoas de turnos diferentes que nunca se encontrarão. Se hoje já existem famílias cujos integrantes não se encontram por incompatibilidade de horários, agora ficará ainda pior, caso cada um trabalhe em um turno diferente. Aquela história de “quando eu chego em casa meu pai está dormindo, e antes de eu acordar ele já saiu” alcançará seu nível máximo. O porteiro da noite não achará mais seu turno tão monótono. Todas as baladas serão como as raves, pelo menos no que diz respeito aos horários. Falando em horários, os filmes eróticos da madrugada terão que ir para um canal específico com acesso restrito (ou não), pois como até as escolas terão turmas de madrugada, não fará mais sentido esse papo de “depois das 22h, quando teoricamente as crianças já foram dormir”.

Esta sociedade 24 horas aumentará absurdamente o consumo de energia, a demanda por alimentos e a produção de lixo. Sem contar que em cidades como São Paulo, teríamos trânsito até de madrugada (não que esteja muito longe disso), piorando ainda mais a qualidade de vida. Nossos quartos terão que ter paredes a prova de som, para que não sejamos perturbados pela hora do rush alheia. Neste cenário desolador, até o caos urbano será 24 horas, não nos dando trégua nem na hora de dormir.

Dessa, nem Jack Bauer nos salvará.

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Pensamento do dia

Estamos acabando com o meio ambiente de tal forma, que daqui a pouco se chamará terço ambiente.

Ou menos.