Falso moralismo faz mal até para os ouvidos

Uma coisa que sempre reparei nos vídeo-clipes norte-americanos é que muitas vezes eles censuram retiram algumas palavras das músicas. Tais palavras são as chamadas four-letter words (que em português seriam os palavrões): fuck, shit, dick e outras. Acredito que a “F-word” deva ser a mais utilizada. Curiosamente, a segunda mais utilizada (segundo meu chutômetro pessoal) é uma three-letter word (três letras e chamam de palavrão? Kiss my ass!), e talvez por isso ela tenha ficado para trás (com trocadilho).

Um ponto curioso é que, ao invés de usarem um sonoro “piiiii” – muito utilizado por estas terras do terceiro mundo – lá eles preferem o silêncio. Na hora em que o cantor enche a boca para gritar “fuck you!”, a habilidosa edição de som, a serviço da moral e dos bons costumes, e porque não dizer, do American Way of Life, simplesmente retira o trecho mal-educado da música, e o substitui por… nada! O resultado é um enorme vazio no meio da música, algo que quebra o ritmo e destrói a nossa experiência auditiva. Em outras palavras: Oh shit! They fucked that fucking song!

Pelo menos era assim há algum tempo atrás, quando eu ainda assistia MTV. Era uma época em que ela ainda exibia clipes e não essas porcarias de hoje.

Mas nem tudo estava perdido – estou falando da censura retirada de palavrões das músicas, e não da programação da MTV, pois desta última, já perdi as esperanças. Há algumas semanas escutei o acústico do Korn. Na música Freak on a Leash, claro, cortaram a palavra “fuck”. Mas para minha surpresa, o som dos instrumentos permaneceu. Claro que eu preferia que a música permanecesse intacta, mas já é um avanço. Continua sendo estranho, dá para perceber que algo foi tirado dali. Ainda há a sensação de vazio, de corta-barato. Mas entre o som dos instrumentos e nada, eu prefiro a primeira opção. Se for para escolher, é melhor perder um braço do que todos os membros.

Agora uma coisa que me deixou indignado foi a música Falling Away From Me. Ela tem apenas um palavrão no final – adivinha qual – e mais nada. Pode conferir. Mas para minha surpresa raiva indignação, logo na terceira estrofe percebo que a palavra “suicide” foi retirada. (pausa para um “what the fuck?“)

Ora, vejam só. Agora, além de poupar as pessoas de escutar terríveis palavras de baixo calão, o fantástico moralismo norte-americano também quer impedir que essas mesmas pessoas se matem por causa de músicas malvadas e tendenciosas. Claro, como se escutar a palavra suicídio fosse levar todo mundo a uma auto-matança generalizada. Olha, eu até entendo que queiram retirar palavrões das músicas – no caso deles, “palavrinhas”, já que a maioria tem quatro letras – mas desde quando suicídio é palavrão? O ato em si pode ser reprovável, e talvez por isso não deva ser incentivado, mas a palavra por si só não representa uma ofensa, queda de nível cultural, falta de respeito ou o que quer que palavrões signifiquem para as pessoas que os ouvem. Se fôssemos levar esse raciocínio adiante, teríamos que censurar – vou usar esse verbo mesmo, I don’t give a shit – todas as palavras que representam atos, comportamentos e situações ruins.

Só para ficar em alguns exemplos, por que não censurar também as palavras “die”, “death” e “kill” das músicas? Afinal, ninguém quer se lembrar de uma coisa tão desagradável quanto a morte enquanto faz algo tão alegre e positivo como escutar música. Se já censuraram o suicídio, por que não fazer o mesmo com o assassinato? Ou com o estupro? Que tal censurar palavras, frases, ou até mesmo músicas inteiras que incentivam o uso de drogas ou comportamentos socialmente inaceitáveis?

Por que ninguém censurou o álbum Steal This Album, do System of a Down? O título é bem mais enfático e direto que o trecho da música do Korn , que diz apenas “flirt with suicide”. Isso para mim não incentiva porra nenhuma de suicídio, ao contrário de “roube este álbum”, que na minha modesta opinião é algo bem mais imperativo, mas que mesmo assim vai no máximo influenciar meia dúzia de mentes inferiores e servir como desculpa para algum marginalzinho idiota (ops, redundância) que for pego roubando o disco. E apesar do nome extremamente sugestivo, ninguém colocou uma tarja no título do CD nem obrigou a banda a mudar o nome, sob o pretexto de não incentivar as pessoas a realmente roubarem o disco.

E já que estamos censurando tudo, podemos começar a monitorar também os nomes das bandas, afinal elas são tão conhecidas quanto suas músicas (salvo exceções onde apenas um é mais conhecido). De cara, cortaríamos as bandas The Killers, The Kills, e é claro, Suicidal Tendencies. Estas seriam obrigadas a mudar de nome, ou então parar de tocar. Já pensou? (dúvida: o Suicidal ainda toca?)

Espero sinceramente que nenhum dos 5 visitantes diários deste blog trabalhe na indústria fonográfica, pois do contrário existe o sério risco de um deles querer realmente implementar a censura geral. Já chega o que fizeram com “suicide”, é o cúmulo do falso moralismo. Daqui a pouco vão começar a fazer isso com filmes e jogos e ops… já fazem. Melhor parar por aqui então.

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Uma resposta

  1. Existem as versões clean (limpa, cheia de cortes, e gritos sem som) e dirty (suja, sem cortes, palavroes a vontade) dos albúns e clipes (geralmente), e na TV sempre passa a versão clean. Coisa que eu acho ridículo, afinal, já que tem conteúdo ofencivo, não passe então oras, tem música que fica com metade da letra cortada.
    Isso acontece muito com rappers gringos, veja o exemplo da música I Wanna Love You, do Snoop Dogg e Akon, que na versão original se chama: I Wanna Fuck You.

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