Futebol: a gloriosa paixão nacional

De uma forma geral, gosto de assistir esportes. Desde os mais “comuns” como futebol, vôlei, basquete e tênis até aqueles que só assisto a cada quatro anos, como ginástica olímpica, saltos ornamentais e atletismo (vai dizer que esses últimos não passam só quando tem olimpíada). E na minha opinião, dentre esses esportes, futebol é sem dúvida o mais desleal de todos.

Em nenhum outro esporte se vê tanto desrespeito, tanto pelas regras quanto pelas pessoas. Jogadores reclamando com o juiz o tempo todo, questionando cada marcação, disparando ofensas a ele (e à mãe dele) , querendo praticamente apitar o jogo. Só no futebol vemos esse tipo de coisa. Não quer dizer que jogadores de vôlei, por exemplo, nunca reclamem da arbitragem, mas é raro. Até hoje só vi uma vez um jogo ser parado, e mesmo assim o jogador reclamou de forma educada e sem desrespeitar ninguém. Se fosse um jogador de futebol, provavelmente o faria gritando, xingando, empurrando, apontando o dedo na cara (ou como adoram os comentaristas: “de forma assintosa”) e caso o juiz não concordasse, o jogador faria aquela expressão de indignação, que costuma ser bem exagerada. E claro, ao final do jogo, reclamaria da arbitragem para toda a imprensa.

Mas o maior desrespeito é pelas regras. No futebol, muitos são dissimulados, vulgo malandros. É só fazer uma falta que imediatamente o jogador levanta os braços dizendo que não foi nada. Afinal, sempre existe a chance do juiz não ter visto direito o lance e a falta passar batida. O mesmo acontece em lances em que, logo após uma dividida, a bola vai para fora. Muitos desses lances são difíceis porque os jogadores tocam na bola quase ao mesmo tempo, e não é raro ver os dois jogadores envolvidos no lance levantarem os braços. Curioso como esse gesto de erguer os braços é frequente em uma partida. Parece até que a marcação de lances a favor de um time não seja em função do que aconteceu, mas sim de acordo com a capacidade de dissimulação e a convicção com a qual um jogador afirma não ter feito a falta. Em outras palavras, leva a melhor quem tem mais cara-de-pau.

Isso me lembra um lance que vi há muito tempo, no qual Renato Gaúcho estava com a bola, em direção à grande área. Ao topar com o zagueiro, ocorre um choque entre eles, e a bola escapa ao seu controle. Renato Gaúcho leva as mãos ao rosto, inclina a cabeça para trás e todos tem a impressão de que está doendo muito. Provavelmente o zagueiro o acertou, num gesto desesperado para impedir o gol, certo? Errado! Enquanto Renato Gaúcho se contorcia e caprichava na simulação de sua dor, ele percebe que a bola não escapou tanto assim, e que se ele corresse ainda conseguiria alcançá-la, ficando na cara do gol. Ocorre então o “milagre”: o jogador esquece a dor no rosto e dispara em direção a bola. Será que a vontade de fazer o gol era tanta que foi capaz de superar toda a dor? Não creio. A primeira coisa que um jogador faz quando sente dor em qualquer parte do corpo é parar e pedir que o juiz faça o mesmo com o jogo.

Mas isso não seria problema se fosse apenas um caso isolado. Infelizmente, a dissimulação é uma coisa que se vê o tempo todo no futebol. Jogadores que simulam faltas existem aos montes. Dá-se a impressão de que faz parte das regras – e até mesmo da estratégia – se jogar de repente, geralmente quando se perde a bola e as chances de recuperá-la são mínimas. E não contentes em se jogar no chão, alguns incrementam a simulação rolando, gritando e caprichando nas expressões de dor. Sempre existe a chance do juiz acreditar, e na dúvida, parece que o melhor é sempre simular. Mas não para por aí: muitos ainda ficam bravos quando a arbitragem não acredita e começam a se portar da maneira descrita no segundo parágrafo.

Outra coisa que faz com que eu tenha essa imagem de deslealdade com relação ao futebol é a catimba. Um caso clássico é quando um jogador faz uma falta e fica com a posse de bola. Em vez de devolvê-la logo para que a partida continue, ele prefere seguir o manual da catimba: pega a bola, anda alguns passos na direção oposta ao lugar em que será cobrada a falta e só depois devolve a bola. Só que ao invés de fazê-lo dando um chute rasteiro ou a meia-altura (o que seria o esperado de um jogador de futebol), ele prefere jogar a bola bem alto, e ela nem sempre cai no lugar exato onde o árbitro se encontra.

Isso é algo que não entendo. O que se ganha com isso? Alguns segundos, talvez, se o árbitro não levar isso em conta na hora de dar os acréscimos. E mesmo que não leve, não justifica essa enrolação toda. No vôlei a bola é reposta imediatamente. No basquete os jogadores devolvem a bola ao árbitro sem fazer cera. Tudo bem, podem existir exceções, mas esse é o ponto: são exceções. Já no futebol, a catimba é regra. Faz parte da “cultura” do esporte. O jogador malandro é aplaudido por sua torcida, embora seja odiado pelas rivais. O mais engraçado é que é pelo mesmo motivo. É só ver o que acontece quando um jogador faz, por exemplo, um gol com a mão. Todos os adversários vão reclamar e xingá-lo de nomes impróprios para este e qualquer horário, mas seus torcedores vão glorificá-lo. Se você discorda, vai dizer que não achou o máximo quando Tulio dominou a bola com o braço e fez um gol na Argentina? Agora pense no que diríamos se um argentino fizesse um gol parecido na seleção. Os ingleses devem dizer coisas assim de Maradona até hoje.

Entre outras formas de catimba, temos também a demora para os gandulas reporem a bola (alguém duvida que não rola uma caixinha para eles?) ou o oposto, quando a vontade de repor é tanta que aparecem duas bolas no campo. Ou as situações em que um jogador, após sofrer uma falta, finge que está sentindo muita dor, para que o atendimento médico entre e essa pausa dê uma esfriada no jogo. E há tantas outras que fariam esse post virar um livro.

E apesar de todos esses problemas, o futebol é o esporte nacional. Ou talvez seja justamente por causa deles. Toda essa malandragem sempre foi típica do brasileiro. Darwin nos visitou no século 19 e sua impressão não foi lá muito boa (veja os últimos parágrafos, após o sub-título “Horrorizado”). Não quero dizer que fomos nós que inventamos a catimba (muitos dirão que foram os argentinos), nem que somos o único país onde isso acontece, mas que ela faz parte do nosso futebol, isso não dá para negar.

Será essa a razão do futebol ser tão popular? Será que nós, (in)conscientemente, nos identificamos com aqueles jogadores que usam toda sua malandragem e artifícios diversos – como a dissimulação – para levar vantagem em todos os lances, fingindo que qualquer problema ocorrido não é com eles (o gesto de erguer os dois braços), atrapalhando os outros de forma desleal (a famigerada catimba) e criticando os adversários por fazerem o mesmo? Sim, o brasileiro segue com rigor a Lei de Gérson (como seríamos melhores se seguíssemos outras leis que não essa). Critica os políticos por serem corruptos e ladrões, mas se estivesse no lugar deles, não hesitaria em fazer o mesmo.

Talvez os vícios e trapaças do futebol sejam apenas um reflexo de nós mesmos. O chamado “esporte bretão” caiu no gosto do brasileiro provavelmente por ser um dos poucos que permitem tais transgressões. Tênis e natação, por exemplo, são certinhos demais e as brechas para trapacear são poucas (talvez só com dopping). No futebol temos a impressão de que pode-se passar por cima das regras o tempo todo, pois todo mundo acha normal, já faz parte do jogo. E o torcedor adora. A falta não marcada, o pênalti simulado, o gol impedido, tudo isso sempre tem um gostinho especial. Muitos dizem que sem isso, o jogo não teria graça, faltaria assunto para as discussões do dia seguinte (muitas conversas sobre futebol acabam em discussão). Pois eu digo que sem isso, tanto no jogo quanto no cotidiano, a vida e o esporte seriam bem melhores.

Atualização (17/03/2008): Outro fator que contribui para a deslealdade no futebol é que talvez não valha a pena ser honesto. Infelizmente.

Gmail e uma idéia viajante

Adoro o gmail. O modo como ele organiza as mensagens, agrupando todas as respostas em uma única conversa, é sensacional. É incrível como isso facilita a leitura e posterior resposta. Na mesma página é possível ver todas as respostas que já foram dadas para um email, evitando que você navegue por dezenas de mensagens, até ficar de saco cheio e parar no meio, ou então responder algo que alguém já respondeu, mas que você não viu porque não leu todas as mensagens.

Outro recurso que acho muito bom são os marcadores. Muita gente deve achar que eles são como as pastas que existem em todos os outros gerenciadores de emails, mas na minha opinião é bem mais que isso.

Antigamente uma mensagem podia ficar apenas em uma única pasta. Então suponha que eu tivesse duas pastas: Fotos e Viagem. No reveillon fui para a praia com uma galera, e depois da viagem rolaram dezenas de emails comentando a respeito. E é claro, mandaram várias fotos. Então para organizar melhor meus emails, joguei todas as mensagens de comentários sobre o ano-novo na pasta Viagem. Mas e os emails contendo as fotos, coloco em qual pasta? Neste caso terei que escolher se coloco todos na pasta Fotos (e depois tenho que me lembrar quais são desta viagem), ou se deixo algumas fotos na pasta Viagem, assim eu sei onde elas foram tiradas.

Com o gmail, isso mudou. Eu posso marcar todas as mensagens com o marcador “Viagem”, e os emails com fotos anexadas eu marco com dois marcadores: “Viagem” e “Fotos”. Assim eu sei quais emails são comentários sobre a viagem, quais são fotos tiradas na viagem e quais são fotos que não tem nada a ver.
O legal é que posso colocar vários marcadores em um mesmo email (não descobri qual o limite, o máximo que precisei até hoje foram 8 marcadores para a mesma mensagem). Isso torna a organização dos emails muito mais fácil.

E foi pensando nisso que tive a idéia viajante do título. Não sei se alguém já pensou nisso antes, e nem se existem pesquisas sobre o assunto, mas eu pensei que poderia existir um sistema de arquivos que funcionasse da mesma forma que os marcadores do gmail. Em vez de organizar os arquivos em uma estrutura hierárquica de diretórios, simplesmente criaríamos os arquivos e associaríamos marcadores a eles.

Acredito que, da mesma forma que os marcadores dão mais flexibilidade e organização para sua caixa de emails, eles também o fariam para um sistema de arquivos. Ao invés de ficar se torturando para lembrar que o arquivo hosts do Windows fica no diretório C:\windows\system32\drivers\etc (por que diabos o arquivo de hosts fica no diretório drivers?) bastaria que o arquivo em questão tivesse, por exemplo, os marcadores “system” e “dns”. Ok, podem não ser os melhores nomes de marcadores para este exemplo, mas acho que deu para pegar a idéia.

As buscas por um arquivo seriam feitas por seus marcadores, assim não precisaríamos nos lembrar do caminho completo do arquivo, apenas de alguns marcadores. Se hoje um arquivo se encontra no diretório c:\caminho\muito\longo\para\lembrar\de\cabeca e você só se lembra que o caminho tem “muito” e “lembrar” no nome, a busca do Windows não vai ajudar muito. E se a busca for feita usando um desses termos, serão percorridos dezenas (ou até mesmo centenas) de subdiretórios.

Já num sistema de arquivos com marcadores, você poderia fazer a busca por alguns marcadores que você lembra que o arquivo possui e não precisaria necessariamente lembrar de todos. Além disso, os nomes seriam melhor pensados, e dificilmente um arquivo teria mais do que, digamos, 5 marcadores (utopia total, mas o título já diz tudo). Por exemplo, os arquivos de zoneinfo (configurações de bizarrices como fuso-horário e horário de verão) do Linux ficam no diretório /usr/share/zoneinfo, já no Solaris esses arquivos ficam em /usr/share/lib/zoneinfo. No nosso sistema de arquivos imaginário, esses arquivos teriam o marcador “zoneinfo” (ou algum nome mais fácil de lembrar) e pronto. Nada de ficar decorando caminho de diretórios. Bem mais fácil e intuitivo.

Para terminar, um sistema desse tipo teria que ter índices sobre os marcadores para otimizar a busca, o que poderia ocupar um certo espaço em disco. Mas acho que isso não seria problema, visto que hoje em dia espaço virou uma coisa banal.