É Natal!

Pelo menos para o comércio, já é. Há um mês atrás já estavam vendendo panetones – por sinal cada vez mais caros – e agora os shoppings já começam a montar suas espalhafatosas decorações. Luzes e mais luzes piscando sem parar, gastando toda a energia que seria economizada com o horário de verão.

Que o Natal hoje em dia é uma data puramente comercial, não há mais dúvida. Só que a cada ano que passa, ele “começa” com mais antecedência, o que não deixa de ser coerente. Resolveram assumir de vez o aspecto puramente capitalista desta data e estão tentando lucrar o máximo possível. Pra que esperar até dezembro? Vamos tentar vender os estoques encalhados desde o dia dos pais, e quanto antes começarmos, melhor. Esperar o verão chegar para lançar a nova coleção? Com o clima do planeta cada vez mais maluco, nada garante que vai fazer calor na estação mais quente do ano. E aquela massa de panetone que não usamos no ano passado e mesmo fazendo milhões de colombas pascais, ainda assim sobrou? Não precisa jogar fora, pode guardar que até no máximo setembro começaremos a usar de novo.

Não vai demorar muito para termos um Natal comercial que dura o ano todo. Talvez a decoração não chegue a tanto – pode ser que o apagão definitivo ocorra antes – mas que teremos panetones nos 12 meses do ano eu não tenho dúvida. É apenas uma questão de tempo.

É uma pena que isso só ocorre com um dos lados do Natal. Já o outro lado – aquele do amor, paz, etc e tal – é meio que esquecido. Só aparece em 2 lugares: nas frases bonitas da publicidade, com o intuito de vender, e nos cartões de Natal, nem sempre sinceros. Ambos sempre dizem que o Natal é época de paz, amor, harmonia e compreensão entre as pessoas. Eu discordo.

TODO DIA deveria ser época de ser bom, educado, compreensivo e de tratar bem as pessoas. Será possível que nos tornamos tão hipócritas a ponto de só lembrar disso uma vez por ano, e mesmo assim raramente agir de acordo? Se todo mundo se lembrasse de tudo isso pelo menos uma vez por dia, o mundo seria um lugar menos insuportável de se viver.

Infelizmente o lado $$$$$ do natal é o único que tem grandes chances de ocupar os 12 meses do ano. Já o lado que realmente faria alguma diferença nas nossas vidas tende a desaparecer completamente.

Pois é, pelo jeito Papai-Noel literal e metaforicamente não existe mesmo.

Mais uma pequena evidência da idiotização da sociedade

Hoje fui jantar com a namorada. Total: R$ 32,60. Como bom casal moderno que somos, decidimos dividir a conta. Cada um com seu cartão de débito em mãos, perguntamos para a moça do caixa: “Divide por 2?”. A resposta: “Estou sem calculadora”.

Para tudo.

Como assim? Ela não quis fazer uma porcaria de divisão por 2, alegando que não tinha calculadora? Tivemos que fazer a conta de cabeça na hora – o que convenhamos não é nenhum bicho de sete cabeças – senão não conseguiríamos dividir a conta. Minto, minha namorada fez a conta e informou a moça do caixa. Eu estava paralisado em semi-estado de choque, custando a acreditar no que tinha acabado de ouvir.

O fato pode parecer bobo e corriqueiro, mas para mim evidencia a situação ridícula que a educação atingiu neste país. É mais fácil se apoiar na muleta de uma calculadora do que ensinar a fazer continha de dividir. Se o cara não tiver a maldita calculadora por perto, não consegue nem somar 1 + 1. No caso supracitado, a mulher nem ao menos se esforçou para fazer a conta, ou sequer procurou um papel e caneta para tal. Ela respondeu de bate-pronto, como se aquilo fosse algo impossível de se fazer sem sua querida muleta de calcular.

Não estou dizendo para queimar todas as calculadoras em praça pública. Só acho que ela deve ser vista como uma ferramenta que facilita, mas que não seja tão essencial a ponto de ficarmos sem ação na sua ausência. Se tiver, tudo bem, use. Se não tiver, faça a conta no papel, ou se ela for fácil (como dividir 32,6 por 2, por exemplo) faça de cabeça, mas não venha me dizer que não dá.

Estamos criando um país não só de pessoas burras, mas de pessoas preguiçosas, sem vontade de deixar de ser burro. E o pior de tudo é que toda essa mediocridade é incentivada, quando o correto seria combatê-la.

A cada dia tenho menos esperança neste país.

Minhas pequenas paranoias

Antes de começar, ainda não me acostumei com a ideia de escrever paranoia sem acento. Mas este não é o assunto do post.

Acho que todos, em maior ou menor grau, têm algum tipo de paranoia, por menor que seja. Neste mundo moderno em que vivemos, com milhares de picaretas, estelionatários, bandidos e afins, a paranoia mais comum é a da violência urbana. Sempre que estou dirigindo e paro em um semáforo ou congestionamento, olho o tempo todo para os lados, para o retrovisor, para a frente, quase nunca fico tranquilo. Geralmente procuro não ficar muito colado ao carro à frente e tento verificar possíveis rotas de fuga. Se estou a pé, ando rápido e olhando para trás em intervalos regulares. Se estou no meio de uma multidão, checo os bolsos a toda hora. Também visualizo rotas de fuga, chegando ao cúmulo de analisar se o piso é escorregadio, se a rua é movimentada e outros fatores que possam me atrapalhar em minha “corrida para salvar a vida”. Qualquer pessoa que não conheço é suspeita, eu olho torto para todos, sempre esperando o pior.

Claro que nem sempre fui assim. Essa maluquice toda começou após meu primeiro assalto – evidentemente no papel de vítima – e foi aumentando com o tempo. Hoje contabilizo 4 assaltos, totalizando alguns poucos trocados (não costumo andar com muito dinheiro), uma blusa, um celular e um vidro do carro quebrado (a última vez que me distraí no trânsito). Uma vez quiseram levar meu tênis, mas quando o ladrão viu que o dele era melhor, desistiu. A cada assalto a paranoia aumentava. Depois do quarto, aumentou tanto que passei a ter as atitudes malucas do parágrafo anterior. Ainda não precisei utilizar as rotas de fuga, e nem sei se na hora conseguiria reagir desse modo, mas de qualquer forma não me distraio mais na rua.

Outra paranoia começou quando comecei a receber muita correspondência bizarra. A mais estranha foi uma carta do clube dos comerciários, dizendo que eu ganhei uma câmera digital em um sorteio realizado em postos de gasolina (cuma?) e que deveria retirar o prêmio pessoalmente no referido clube, além de pagar uma taxa de qualquer coisa. Ou seja, eu ganhei um prêmio de qualidade duvidosa (pois era uma marca desconhecida) em um sorteio do qual não participei, e teria que ir até a puta que pariu (que eu nem sei se existe mesmo) para pagar por algo que não entendi do que se trata. Na hora achei que era golpe. Mesmo que não seja, não é a melhor maneira de se promover um clube, é spam da pior qualidade.

E foi após este “sorteio” que começou minha paranoia mais estranha. Sempre que vou jogar fora alguma correspondência, eu sempre rasgo meu nome e endereço em vários pedaços, de forma que em nenhum deles seja possível identifcar algum dado completo. Depois eu jogo esses pedaços em vários lixos diferentes. Aqui em casa tem um na sala, outro na cozinha e um em cada banheiro, totalizando 4 sacolas de supermercados diferentes. Além disso, eu também jogo um pedacinho em cada privada. E eu nunca levo as sacolas para o “lixo geral” do prédio no mesmo dia, dificultando assim o trabalho de eventuais vasculhadores de lixo alheio.

Claro que isso não resolve tudo. Existem outros meios de se conseguir o endereço de alguém. O link ao lado está desatualizado (meu endereço não consta, ainda bem), mas para golpistas desocupados é um prato cheio. Ainda bem que me mudei há pouco tempo, e só atualizei meu endereço em meia dúzia de lugares essenciais. Por isso hoje só recebo contas e eventuais propagandas do banco. Mas acho que vai levar um bom tempo para eu ganhar outro “sorteio”.

Será o tempo imprevisível?

Ontem (segunda-feira) resolvi ver a previsão do tempo para hoje. Olhei em uns 3 sites diferentes, e todos diziam mais ou menos a mesma coisa: muito calor durante o dia, e pancadas de chuva – como se a chuva doesse – somente à noite. Todos eram categóricos ao afirmar que não choveria durante o dia.

Bom, se você mora em São Paulo, nem preciso dizer que a previsão falhou miseravelmente. Não só choveu o dia inteiro, como também ocorreu um caos desgraçado como há muito não se via. É nessas horas que agradeço por morar tão perto do trabalho.

Afinal, por que a previsão do tempo erra tanto? Se ela dissesse pelo menos que choveria o dia todo, tudo bem. Mas ontem dizia que faria sol o dia todo, e só choveria após as 19h. É um erro muito grosseiro, não se justifica. Hoje eu entrei novamente nos mesmos sites, e coincidência ou não, todos já haviam atualizado suas “previsões” para “chuva o dia todo”, e até as temperaturas mínimas e máximas estavam diferentes de ontem. Devia ter tirado um screenshot.

Espero que não seja da forma que eu penso, mas a impressão que tenho é que um metereologista não precisa acertar. Pior, ele pode errar à vontade, que tudo bem. Deve ser uma das profissões menos estressantes que existem, porque o chefe não tem como cobrar resultados, afinal de contas, é uma previsão, não é a verdade absoluta. É quase igual a um picareta vagabundo charlatão cartomante: chuvas esparsas ocasionais (pode chover ou não, em qualquer lugar, a qualquer hora; assim até eu), mínima de 19 e máxima de 30. Não sei quanto a vocês, mas para mim, 19 graus é um frio desgraçado, e 30 graus é um calor infernal. São Paulo deve ser a única cidade do mundo onde a temperatura varia tanto em um único dia (com exceção, é claro, dos desertos). Fazer previsões assim é o mesmo que dizer que este ano alguma celebridade famosa vai morrer, que você tem que tomar cuidado com alguma pessoa invejosa que pode estar te desejando o mal, ou que hoje o dia está propício para o amor (se acontecer, acertei, se não acontecer, você que não soube aproveitar).

Fora a picaretagem e o fato de ninguém saber nada mesmo – e achar que sabe – temos o fato de que São Paulo é enorme. Alguns bairros são mais populosos que muitas cidades, as distâncias são extremamente absurdas. Tem bairros que ficam a mais de 40 km do centro. Tem reservas indígenas e áreas de preservação ambiental dentro da cidade. Diz a lenda que existe um ponto da zona sul do qual é possível ver o mar. No extremo sul tem um bairro onde meu celular não tinha sinal. Não é de se esperar que a previsão do tempo para a cidade toda seja tão falha. Se separassem por bairros, talvez errassem menos. É uma área muito extensa, não tem como ser preciso e abrangente ao mesmo tempo. Meu pai sempre via na TV reportagens de alagamento em São Paulo e me ligava preocupado, apenas para ouvir de mim que “aqui no meu bairro nem choveu”.

Claro que uma previsão mais apurada não evitaria a zona que foi o dia de hoje, mas isso já é outra história.

Dando cabo da TV aberta

Faz uns 2 meses que comecei a assinar tv a cabo aqui em casa. Antes disso, passei por um longo período de tortura, assistindo apenas a tv aberta. Claro que de vez em quando assistia os canais pagos na casa dos outros, mas em minha própria casa tinha que me contentar com a programação podre dos canais abertos.

Hoje não assisto mais a nenhum deles. Globo, o que é isso? SBT? Não sinto falta nenhuma. Record? Esse eu já não assitia antes, imagina então agora.

Claro que a tv a cabo não é perfeita. Você paga por trocentos canais, mas só 10% valem a pena. Você paga, mas mesmo assim tem comerciais. Muitos comerciais, chega a ser irritante. Na maior parte do tempo não passa muita coisa que preste. E o volume não é equalizado. Numa escala de 1 a 10, sendo que 1 é o silêncio absoluto e 10 é o volume que faz os vizinhos chamarem a polícia, os programas costumam ficar em 3. Quando começam os comerciais, o volume vai para 9, sem você fazer nada. É muito ridículo e irritante.

E mesmo assim, apesar de todos esses problemas, a tv a cabo consegue ser infinitamente superior à tv aberta. Mesmo que apenas 10% dos programas de 10% dos canais prestem, é muito, mas muito melhor que qualquer coisa que Globo, SBT e cia possam oferecer. Por isso que hoje em dia não sinto a menor falta destes canais.

A tv aberta está abarrotada de novelas, e todas são incrivelmente chatas. Elas são feitas para um público alvo específico, e só. Não há alternativa. Já seriados, não. Existem centenas deles, de todos os tipos, para os mais variados gostos. Eu tenho opção, não preciso ficar preso àquele modelo arcaico de pseudo-dramaturgia escrota que são as novelas.

Posso assistir filmes literalmente do início ao fim, pois passam os créditos iniciais e finais (eu sou um daqueles malucos que gostam de assistir créditos). Posso assistir a abertura dos Simpsons completa, na qual o Bart sempre escreve uma frase diferente no quadro, a Lisa sempre toca uma música nova e a cena final do sofá sempre é criativa e inesperada. Quando passava na Globo, os imbecis filhos da puta simplesmente cortavam, mostravam a mesma frase do Bart e todo o resto igual.

Tem gente que reclama da quantidade excessiva de reprises dos canais pagos, mas para mim isso acaba sendo uma coisa boa. Eu nem sempre tenho tempo de assistir algo exatamente naquele dia e naquele horário, então as reprisem acabam me favorecendo. E elas nem são tão excessivas assim, afinal, quem tem tempo de assistir a tudo aquilo?

Enfim, apesar de estar muito longe da perfeição, a tv a cabo me fez esquecer completamente a podridão da tv aberta. Por mim ela pode sumir do mapa que não vai fazer a menor diferença. Eu nem passo por esses canais quando estou zapeando, eu ignoro mesmo! Não preciso mais reclamar do Gugu, Faustão, Luciano Huck, Zorra Total, Fantástico, Galvão Bueno, de mais nada. Eu simplesmente não assisto mais, apaguei da minha mente.

Alguma empresa de tv a cabo poderia fazer um pacote sem os canais abertos, cobrando um pouco menos. Acho que eu pagaria.

Cascão hoje em dia não teria chance

Domingo passado fui ver a exposição de 50 anos de Maurício de Souza. Simplesmente fantástica! Adorei saber um pouco mais sobre um dos ídolos da minha infância. Desde suas origens, do primeiro quadrinho até a fama internacional, é impossível não perceber toda a simplicidade e sensibilidade que só se encontra nos gênios. Entre tantas curiosidades, pude ver o verdadeiro Sansão de pelúcia – idêntico ao do gibi, só que um pouco mais sujo e rasgado – e descobrir algo bombástico: você sabia que – é melhor se segurar, a revelação é inacreditavelmente chocante – o Cascão já tomou banho?

É isso mesmo. Foi em uma daquelas tirinhas antigas, em preto e branco, quando os personagens tinham um traço bem diferente do atual. Cascão aparece limpo, e Cebolinha pergunta abismado o que aconteceu. Cascão responde que sua mãe não pediu presente de dia das mães, pediu apenas que ele tomasse um banho. “Ela merece”, diz ele, com uma lágrima escorrendo do canto do olho. Sem grande alarde, sem uma capa chamativa com letras garrafais anunciando o momento histórico, sem nada dessas coisas que fariam atualmente. Aliás, os roteiristas deveriam pesquisar um pouco mais antes de afirmar nas historinhas que o Cascão nunca tomou banho. Tiraria toda a mística do personagem, mas fazer o quê.

Mas uma coisa é certa: somos gratos por Maurício de Souza ter criado seus personagens naquela época. Hoje em dia, nestes tempos terrivelmente chatos politicamente corretos, Cascão e todo o resto da turma não teriam a menor chance. Legiões de pais enfurecidos fariam campanha contra ele, por ser uma péssima influência para seus filhos. Imagina, uma turma só de crianças desajustadas: uma não toma banho, outra fala elado, outra bate em todo mundo, outra come sem parar. Talvez os três últimos ainda pudessem ter alguma chance, mas o Cascão seria massacrado. E tudo isso, claro, para “proteger nossos filhos”.

Acho que Maurício só não é pentelhado por pais insandecidos porque os personagens já são famosos. Pobre Adão Iturrusgarai que não tem a mesma sorte. Além disso, o tempo provou que a turma da Mônica não influencia negativamente as crianças, do contrário teríamos uma geração inteira fedendo e uma lefolma oltogláfica abolindo de vez o “R”. Outro fator que pode ter ajudado é que os pais antigamente se preocupavam mais em educar seus filhos do que em deixar que a escola e a TV fizessem isso por eles. Traduzindo, minha mãe deixava eu ler os gibis do Cascão, mas logo depois mandava eu ir tomar banho, explicando porque isso é importante, etc e tal. E uma boa educação supera qualquer suposta influência que um gibi possa ter.

A praga do politicamente correto está deixando o mundo muito chato e sem graça. O humor já não é mais o mesmo, todo mundo patrulha tudo, procurando cabelo em ovo e pior, encontrando dizendo que encontrou! Ninguém pode zuar as “minorias” (entenda isso como quiser), as únicas piadas permitidas são as de argentino. Ninguém mais entende um texto irônico, quanto mais um comentário com sarcasmo. Foi criada uma variação da lei de Murphy: se existe a possibilidade de alguém se ofender com a piada, então alguém certamente se ofenderá. E geralmente processará o autor, e em muitos casos poderá até ganhar. É um saco.

Muitos exaltam por aí os nossos “tempos modernos”, a (r)evolução da sociedade, blábláblá. Tecnologicamente pode até ser, mas humoristicamente falando estamos regredindo. Saudades da época em que Didi podia ser chamado de cearense cabeça-chata sem ninguém acionando os advogados para tirar o programa do ar. Daqui a pouco só vão restar porcarias no estilo Zorra Total.

Nem Maurício de Souza quis se arriscar. Ao lançar a versão teen da turma da Mônica, retirou tudo que é ofensivo politicamente incorreto: o Cebolinha passou a ir na fono e agora fala certo, o Cascão toma banho, a Magali não engole mais uma melancia de uma vez e por aí vai. Na boa, sou muito mais esta versão aqui.

Essa merda de politicamente correto já atingiu o limite do insuportável. Nem gênios como Maurício de Souza escapam dessa praga maldita. Qualquer tentativa de um humor mais ácido é vista como ofensiva e não raro é processada. Neste cenário desolador, não há a menor chance de surgir o melhor tipo de comediante: os sarcásticos. Se nunca viu um, eu sugiro George Carlin.

Assista antes que alguém se ofenda e resolva processar o youtube.

Update: falando em politicamente correto, hoje li um post genial sobre o assunto.

A vida começa aos (coloque aqui sua idade)

Uns dizem que é aos 30. Outros acham que é aos 40. Há quem diga que é só aos 50. E assim por diante, até os 90, 100, até o limite humanamente possível da idade. E sempre em múltiplos de 10 (ninguém diz que a vida começa aos 47, por exemplo). E pode reparar: quem diz isso sempre está próximo da idade que colocou na frase. Geralmente está quase chegando ou acabou de fazer.

Eu acho isso meio estranho. Se o sujeito diz que a vida começa aos X anos, dá-se a impressão de que tudo que ele fez antes disso não vale nada. Se formos pegar as idades mais comumente usadas neste caso (30, 40 e 50, pelo que costumo ouvir) veremos que muitos já serão casados, com filhos e uma carreira profissional. Se o infeliz afirma que só agora, depois de ter vivido tudo isso, é que a vida vai realmente começar, só posso ter pena dele.

Veja bem, eu não sou contra encarar a velhice com otimismo, e entendo quem vislumbra uma determinada idade como um marco para a próxima etapa de amadurecimento pessoal (embora eu ache que este seja um processo contínuo que não depende de idades múltiplas de 10). Muitos acham que ao dizer que a vida começa em determinada idade, estão demonstrando uma vontade de viver intensamente, um espírito jovem, um recado do tipo “não vou virar um velho ranzinza”. A intenção é boa e até desejável, mas o modo como escolhem dizer isso é que eu acho errado. Se você tem 50 anos e diz para os jovens que a vida só começa aos 50, está desprezando tudo que eles fazem ou ainda farão, está diminuindo todos os que são mais novos que você. E está de certa forma assumindo que nunca fez nada de bom, nada certo, nada que valha a pena lembrar.

Se você quer aproveitar sua meia-idade, sua velhice “melhor-idade” (malditos marketeiros) ou sejá-lá-qual-for-sua-idade com alegria, faça-o. Mas não me diga que a vida só começa aí. Ninguém sabe quando ela começa. Muitos acham que é no parto, com pessoas vestidas de branco e um tapa na bunda. Outros acham que é 9 meses antes, quando você sai para jantar com seu pai e volta com sua mãe. Mas o fato é que, a partir do momento em que temos alguma consciência e controle dos nossos atos, nossas vidas são por nossa conta. Ela já começou, isso não importa mais. O que importa é o que você está fazendo com ela agora, e aonde isso vai te levar.

Odeio quando as pessoas repetem frases feitas sem pensar a respeito.

Who’s dead?

O título é um trocadilho meio óbvio e infame, mas eu não podia deixar de falar na morte de Michael Jackson. Acho que o fato pegou todo mundo de surpresa. Tudo bem que a situação dele não era das melhores, mas eu achei que ele fosse durar mais uma ou duas décadas pelo menos.

Apesar de nos últimos anos ele não ter feito nada de musicalmente relevante (muito pelo contrário), eu já fui fã dele. Nos longínquos anos 80, quando ainda tínhamos discos de vinil. Era uma época em que achar discos de artistas internacionais era muito difícil, e quando achávamos, o dinheiro da mesada não era suficiente. Uma época em que o Fantástico ficava anunciando a cada 5 minutos que iria passar “o mais novo clipe de Michael Jackson, que custou trocentos milhões de dólares”, e o clipe só passava no finalzinho do programa. Sempre ficava aquela tensão: e se minha mãe mandar eu dormir antes de passar o clipe? Você não imagina como era angustiante.

Enfim, na minha infância e uma pequena parte da adolescência, a época da vida em que somos mais suscetíveis à cultura pop, eu vi o auge de Michael Jackson. Até hoje gosto das músicas daquela época. Aquilo tudo foi realmente uma revolução. Clipes de orçamentos milionários, com 20 minutos de duração e efeitos especias incrivelmente inovadores para a época. Um estilo único de se vestir e dançar, que assim como Elvis – e em menor escala Silvio Santos – gerou uma legião de imitadores.

Depois vieram os jogos de videogame. Na verdade era só um (MoonWalker), mas tinha versões para fliperama e Mega Drive (tinha alguma outra? não lembro). A melhor de todas era a do fliperama. Curiosamente Ironicamente Coincidência ou não, o objetivo do jogo era salvar criancinhas. Será que desde aquela época ele já tinha tendências papa-anjísticas?

Bom, o tempo passou, ele ficou branco – e anunciou isso com uma música que diz justamente que a cor não importa – e depois começou a decadência. Processos de pedofilia, bebê balançando na janela, construção de um parque temático particular – com o sugestivo nome de Terra do Nunca, onde as crianças não crescem e ele poderia tê-las jovens para sempre – e plásticas cada vez mais bizarras.

Mas tudo isso acabou. Agora é só esperar alguém fazer a paródia “Who’s dead?”. Será que ficaria tão boa quanto esta?

Barbas pra que (não) te quero

Acho que todo moleque que se preza não vê a hora de ter barba. É um dos eventos auto-afirmativos mais consideráveis na vida de um garoto, ao lado da voz grossa, da primeira menina que pegamos e dos pêlos no saco, não necessariamente nesta ordem.

Muitos pegam o aparelho de barbear do pai e ficam treinando, ou simplesmente raspando a cara feito idiotas, achando que isso vai antecipar o nascimento da barba. O máximo que ganham são alguns cortes no rosto, o que não deixa de ser um aprendizado sobre o estorvo que está por vir.

Pois é, depois que a barba aparece e ficamos deslumbrados por alguns dias, logo percebemos que ela na verdade é um problema. A principal desvantagem é que geralmente as mulheres odeiam: incomoda na hora de beijar, elas acham que ficamos com cara de bandido ou que somos desleixados. A única exceção que conheço é quando elas olham fotos de atores e modelos, com aquela barba mal-feita que não sei porquê elas dizem que fica bonito. Será que o Photoshop também sabe fazer uma barba mal-feita parecer bonita?

Outra desvantagem é que ela cresce sem parar, e para tirá-la é um saco. Eu ainda tenho sorte, pois minha barba não cresce muito nas bochechas, ela se concentra mais no contorno do rosto e um pouco no bigode. Além disso, eu posso fazer apenas 2 vezes por semana que não fico parecendo um mendigo. Mas mesmo assim é um saco. Por mais cuidado que se tenha, sempre fica um cortezinho, ou sobra um maldito pêlo no canto do pescoço. Sem contar que eu não tenho muita paciência pra isso. Para completar, tive que comprar um espelho só para me barbear. Para pentear o cabelo, o vidro da janela já seria o suficiente.

Até comprei um barbeador elétrico, achando que seria a solução definitiva. Ledo engano. A merda do aparelho custa mais de 200 reais, mas o corte não fica rente! Por mais que eu fique passando aquela porcaria na cara, eu sempre tenho que fazer o arremate com uma gilete. Será que sou o único imbecil neste mundo que não sabe usar esta bosta? Hoje eu só continuo usando porque, bem, já que paguei, melhor usar. Pelo menos ele tira o “grosso” da barba e fico menos tempo passando a gilete. Mas se eu soubesse que era assim, não teria comprado.

Outra alternativa, que é mais cara, mas que por um tempo eu até cogitei em fazer, é a cirurgia. Por muito tempo eu achei que o negócio era definitivo mesmo, que o sujeito pagava os olhos da cara, mas nunca mais precisaria fazer a barba. Não tenho ideia dos valores atuais, mas há um tempo atrás eu fiz as contas e ficava mais barato que comprar giletes pelo resto da vida. O problema é que eu descobri que cirurgia não é definitiva, pois de tempos em tempos você tem que fazer outra sessão. Daí não compensa, a barba pode até demorar mais para crescer, mas vai continuar sendo um estorvo.

A barba é um dos resquícios dos nossos ancestrais que acredito não ter mais nenhuma função prática nas nossas vidas. Ela já devia ter desaparecido. Onde está Darwin numa hora dessas?

Viadagem pode não ser o que você pensa

Não sei se você sabe, mas existe uma diferença entre vEado e vIado.

O veado é aquele bicho – atenção, eu disse bichO, ou seja, animal – saltitante, delicado e chifrudo – ainda estou falando do animal – imortalizado em um desenho da Disney (no referido desenho, apenas o veado é imortalizado; o mesmo não se pode dizer da mãe dele).

Já o viado é aquele sujeito esquisitão que tem na sua empresa/faculdade/vizinhança, que todo mundo sabe (por “sabe” entenda-se “desconfia”) que joga no outro time. É aquele cabeleireiro que sua mulher adora, é aquele sujeito metido a machão que à noite sai por aí dando uma de Ronaldo. Sim, na minha opinião, o sujeito que sai com traveco, no fundo – e nos fundos – é viado.

Enfim, viado é aquela minoria que você vê em toda parte.

Apesar desta diferença sutil na grafia, eu sempre achei que a palavra “viado” era apenas gíria, e que não existia oficialmente no nosso idioma. Mas eis que para minha surpresa, ela não só existe como tem um significado completamente inesperado:

viado
vi.a.do
sm Antigo pano listrado.

Não acredita? Tá no Michaelis. Como achei isso tudo meio estranho, resolvi pesquisar em outros dicionários e encontrei o mesmo resultado. Das duas uma: ou os dicionários online aderiram a uma das regras fundamentais piores práticas da internet (a cópia descarada de conteúdo) ou nós, pra variar, estamos usando mais um termo incorretamente.

Pensei em incluir algum comentário manjado dizendo que isso tudo é uma grande viadagem, mas achei que seria mais interessante divagar sobre o significado da palavra que até ontem eu achava que sabia.

Fico imaginando que raios de pano listrado é esse. Será que ele tinha 7 listras coloridas e servia para guardar moedas (ou qualquer outro objeto que possa ser colocado em um cofrinho) de ouro? Em que época a palavra “viado” foi usada para designar este maldito pano? Aliás, ela algum dia foi usada para designar alguma outra coisa que não fosse um… viado? Será que o pano virou moda entre as bibas e passou a ser sinônimo? Quem veio antes, o pano ou o homossexual?

Não que isso faça diferença na vida de alguém, mas essa língua portuguesa vive nos surpreendendo.